terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Não sou contra beber, sou contra eu beber, Ruy Castro FSP

 Ruy Castro

Colunista da Folha e escritor. Seus livros mais recentes são “Os perigos do Imperador — Um Romance do Segundo Reinado” e “A Vida por Escrito — ciência e arte da biografia”, ambos pela Companhia das Letras."

Meu nome é [digamos, Ruy] e sou alcoólatra. É assim que as pessoas se apresentam nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos quando pedem a palavra para contar sua história. O sobrenome não interessa. Não porque temam se expor, mas porque, não importa a origem, classe social, profissão, idade ou cor da pele, todos os alcoólatras vivem a mesma história. Todos acreditam que bebem por prazer, que têm controle sobre o que bebem e que deixarão de beber quando quiserem. Alguns se salvam aos 44 minutos do segundo tempo. A maioria não chega a isso, morre antes. Estou, por enquanto, no primeiro grupo.

Bebi dos 20 aos 40 anos. Durante os primeiros 15, foi realmente uma história de prazer: grandes vinhos e uísques em balcões dourados; ao fundo, a parede espelhada, os copos de cristal, o troar da coqueteleira; em volta, belas mulheres e gente falando francês. O cenário, Rio, Lisboa, Paris, Nova York, São Paulo. A vida era isso e beber apenas fazia parte dela.

A imagem apresenta uma caixa com a parte superior vermelha e um fundo preto. Dentro da caixa, há um papel com um recorte em forma de garrafa. Ao redor da caixa, flutuam várias folhas de papel que também possuem a silhueta de uma garrafa. A composição é minimalista e utiliza cores sólidas.
Catarina Pignato/Folhapress

E, então, a roda começou a girar: a cada semana, mais dias; a cada dia, mais cedo; e, a cada hora, em maior velocidade. Um dia, sem aviso, a dependência se instalou. Aos poucos, o glamour se dissipou, as pessoas sumiram, as luzes se apagaram, a vida ficou sórdida e o mundo cabia numa vodca em copo de geleia. Nessa espiral, vão-se os empregos, os trabalhos, a credibilidade, os amigos, a família, o dinheiro e a saúde.

Um dia, sem aviso, a dependência se instalou. Aos poucos, o glamour se dissipou, as pessoas sumiram, as luzes se apagaram, a vida ficou sórdida e o mundo cabia numa vodca em copo de geleia. Nessa espiral, vão-se os empregos, os trabalhos, a credibilidade, os amigos, a família, o dinheiro e a saúde

Ruy Castro

escritor e colunista da Folha

Os conselhos tipo "Você está bebendo demais, vai acabar morrendo" não adiantam. A partir de certa etapa, o alcoólatra já não bebe porque quer, mas, paradoxalmente, para salvar a vida. Sem a bebida, que seu organismo não pode mais dispensar, não consegue levar à boca a xícara do café da manhã. A mão treme como um beija-flor. O próprio copo (de vinho, vodca, uísque, cerveja, cachaça, tanto faz) que lhe permitirá uma momentânea estabilização chega à boca com dificuldade. Ingerida a poção mágica, as mãos param de tremer por certo tempo —uma ou duas horas, para alguns; alguns minutos, para mim.

Beber sob controle? Sim, é possível, mas só se você não for dependente. Muita gente se limita a um uísque, duas taças de vinho ou três chopes por dia, porque este é o seu limite —acima deste, o porre, a ressaca e a culpa. O alcoólatra não tem limite, custa a ficar de porre, nunca tem ressaca e não sabe o que é culpa. Se, por acaso, ainda lhe restar uma centelha de consciência, talvez ache que precisa "dar um tempo", "moderar" —parar de vez, nem pensar—, mas, a essa altura, já não é a cabeça que comanda. Quem manda agora é o organismo, um ente à parte, monstruoso, com necessidades próprias e que, se não for atendido, torna-se uma fera acuada.

Não existe dependente feliz. O álcool, ao contrário do que se pensa, não é um excitante, mas um depressor. Com o tempo, o volume de álcool nas entranhas instaura um processo de apatia, desânimo e, por fim, a depressão, que, na cabeça do dependente, só pode ser combatido com mais álcool —o que é a causa torna-se um pretexto para beber mais. Se for a um psicanalista para tentar descobrir "por que bebe tanto", é possível que, em um ano ou dois, ele fique sabendo. Infelizmente, isso não tem a menor importância, porque ele já terá morrido antes.

Há dias, completei 37 anos de abstinência. Bebi pela última vez no dia 25 de janeiro de 1988, minutos antes de sair para a internação numa clínica em Cotia, a 30 quilômetros de São Paulo, levado por minha então mulher, a jornalista Alice Sampaio. Pelos 28 dias seguintes, descobri o que acontece quando o organismo se vê privado, sem aviso prévio, da substância que ele já não podia dispensar. A fera que traz dentro de si se manifesta com inacreditável furor. Mas uma clínica é um ambiente controlado, e eles sabem como domá-la. Em alguns dias, a fera se aplaca, se submete e a vida recomeça, quase do zero. A história desses 28 dias está contada no livro "O Oitavo Selo", de Heloisa Seixas, que acaba de sair pela Companhia das Letras.

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Os 37 anos a seco se passaram dia a dia, sem um segundo de arrependimento de minha parte por ter deixado. Mas não me entenda mal. Sei muito bem que beber é ótimo. Não sou contra ninguém beber. Sou contra eu beber.

Joel Pinheiro da Fonseca - Papa Francisco vs J. D. Vance, FSP

 É questão tempo até que o AfD vença na Alemanha e o RN na França? Espero que não. Espero que o mundo democrático adquira os anticorpos para o nacionalismo e a xenofobia e sei que isso só será possível se líderes com valores e ideias melhores conseguirem persuadir a população. Uma dessas lideranças, hoje, é o papa Francisco, cujo estado de saúde delicado tem ocupado o noticiário.

Francisco cumpre um papel importante no debate público: num mundo no qual a direita nacionalista cresce a passos largos, ele é um contraponto espiritual que propõe valores cristãos contra uma ideologia que se vende como defensora da "civilização cristã".

Contra a lei do mais forte, Francisco traz a injunção a ajudar os vulneráveis. Enquanto o refugiado é escorraçado por todos os lados, Francisco vem em sua defesa, nisso ecoando a postura da igreja desde pelo menos Pio 12.

homem de vestimenta branca e chapéu branco com cara amistosa
Papa Francisco na Basílica de São Pedro em 2023; pontífice está internado há 10 dias - Andreas Solaro - 22.mar.2023/AFP

No início deste mês, chegou a se engajar diretamente com o vice-presidente americano J. D. Vance, que é católico. Vance defendera a política americana de "America First" com base no conceito da "ordo amoris". A ideia vem de Agostinho. Devemos amar a todos; mas, se não podemos fazer o bem a todo mundo o tempo todo, a quem priorizar? Como ordenar o amor universal? Uma regra para isso é priorizar quem tem vínculos conosco (nosso vizinho antes de um desconhecido) e só progressivamente olhar para quem está mais distante. Portanto, em vez de fazer o bem a imigrantes, diz Vance, devemos priorizar os cidadãos americanos.

O conceito de Vance omite que o próprio Agostinho também citava a magnitude da necessidade alheia como um critério para priorizá-la ou não. Talvez sem saber, ele se aproxima mais do estoicismo do que do Padre da Igreja. Ainda assim, a posição dele ecoa um lugar-comum de círculos conservadores atuais.

É possível criticar a visão de Vance sob uma perspectiva liberal: o bem de imigrantes não é contraditório com o bem dos cidadãos. Os atritos da imigração são superáveis tendo em vista que todos ganham no longo prazo. Francisco, contudo, em uma carta aos bispos americanos em 10 de fevereiro, a criticou de uma perspectiva cristã: a "ordo amoris" de Vance não bate com as palavras de Jesus no Evangelho. "A verdadeira ‘ordo amoris’ que deve ser promovida é aquela que descobrimos meditando constantemente na parábola do ‘Bom Samaritano’, ou seja, meditando no amor que constrói uma fraternidade aberta a todos, sem exceção."

Não foi a primeira vez que um papa se posiciona contra o nacionalismo. O papa Pio 11, em 1937, publicou a primeira encíclica em alemão —"Mit Brennender Sorge", com milhares de cópias distribuídas clandestinamente a igrejas alemãs— para alertar os fiéis dos males do nacionalismo, do racismo e da idolatria ao líder político que então tomava conta do país.

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A Igreja Católica foi, afinal, a primeira instituição globalista: subordinou todas as nações que emergiram das ruínas do Império Romano ocidental a uma mesma autoridade e a um mesmo código de valores. Raça, nacionalidade, soberano; tudo isso vinha muito abaixo da fé universal, da razão natural e da primazia do papa. Com uma inflexão à esquerda na política, Francisco atualiza essa postura num mundo em que o nacionalismo pagão —o apego à cidade deste mundo, e não à cidade Deus, diria Agostinho— reveste-se da tradição cristã. Mesmo um agnóstico como eu pode reconhecer seu valor.