terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A COP30 e o petróleo da margem equatorial, Jerson Kelman, FSP

 A polêmica em torno da exploração de petróleo da margem equatorial é mais do que uma mera disputa entre Ibama e Petrobras. Trata-se de definir qual o posicionamento do Brasil no esforço mundial para a redução da emissão de gases de efeito estufa.

Ao se oferecer como anfitrião da COP30, o Brasil mostrou determinação não apenas em aderir ao esforço global pela mitigação mas de se colocar entre os líderes do processo. Fez bem, não apenas por uma questão moral —o legado para as futuras gerações— como também porque o aquecimento global é mais problemático para o Brasil e demais países tropicais do que para os países com invernos rigorosos.

Porém, com a eleição de Trump e as mudanças políticas na Europa, a probabilidade de sucesso da mitigação de emissões tem diminuído. Há duas explicações: 1) acúmulo de poder político pelos que não acreditam na relação entre gases de efeito estufa e clima; ou pelos que acreditam, mas não se importam com as consequências; 2) pessimismo dos que temem o que os economistas chamam de "tragédia dos comuns".

Parque Nacional do Cabo Orange, no Amapá - Lalo de Almeida - 24.jul.24/Folhapress

Essa tragédia tende a ocorrer quando indivíduos ou países compartilham um recurso comum —no caso, a atmosfera terrestre. Cada um tende a agir de acordo com seus próprios interesses de curto prazo, sem considerar o impacto negativo cumulativo de suas ações sobre o recurso compartilhado, a longo prazo. Como resultado, o recurso é degradado, prejudicando todos. A tragédia é evitada quando há gestão e regulamentação para garantir a sustentabilidade dos recursos compartilhados. É exatamente o que se pretende alcançar com as COPs.

O governo vinha cozinhando a polêmica sobre a margem equatorial em banho-maria, provavelmente aguardando a conclusão da COP30. Se o conclave fosse bem-sucedido, seria um sinal de que a aposta na regulamentação global teria chance de dar certo e o Brasil poderia unir o útil ao agradável. Isto é, ser um dos líderes do esforço pela mitigação e alavancar a atividade econômica —produzir bens com baixo conteúdo de carbono, por exemplo—, resgatando da pobreza parte de nossa população. Porém, se a COP30 fosse malsucedida, sairia fortalecida a visão de que os efeitos deletérios do aquecimento global são inevitáveis e que o Brasil não pode se dar ao luxo de desprezar a produção de petróleo da margem equatorial.

eleição de David Alcolumbre para presidente do Congresso precipitou os acontecimentos. O presidente Lula chamou de lenga-lenga o licenciamento da pesquisa para comprovar, ou não, a existência de petróleo comercialmente explorável na costa do Amapá. E demonstrou convicção de que, se existir, acelerará a transição energética.

Produzir combustíveis fósseis para ajudar a transição energética é uma aparente incoerência. Porém, talvez o presidente Lula considere a tragédia dos comuns inevitável e entenda que a riqueza produzida pelo petróleo é indispensável para viabilizar a infraestrutura de adaptação aos eventos extremos.

PUBLICIDADE

Mitigar e adaptar não são estratégias mutuamente excludentes. Mas é preciso substituir a atual fragmentação decisória do governo por um processo em que todos os aspectos da questão —ambientais, energéticos, econômicos e diplomáticos— sejam coletiva e simultaneamente examinados.

A indústria da sede, Bruno Gualano, FSP

 

É consenso que atividades moderadas e com duração inferior a 60 minutos dispensam o consumo de isotônicos

  • SALVAR ARTIGOS

    Recurso exclusivo para assinantes

    ASSINE ou FAÇA LOGIN

  • 1

"Não espere ter sede para beber." "Beba o máximo que puder." "Beba além da sede, mesmo sem vontade." Dicas como essas circulam em livros-texto, artigos científicos e no discurso de especialistas —ao gosto da indústria das bebidas esportivas.

Conhecidos também como isotônicos, esses produtos são compostos por água, eletrólitos (como sódio e potássio) e açúcares. Criados na década de 1960 para repor nutrientes perdidos em esforços exaustivos e melhorar o desempenho esportivo, tornaram-se um grande negócio, que hoje movimenta cerca de US$ 20 bilhões por ano.

Claro que essas cifras não são sustentadas pelos atletas, digamos, puro-sangue, que frequentemente emprestam suas imagens às famosas marcas do ramo. O consumo pesado vem dos amadores-que-se-identificam-como-atletas —indivíduos com níveis de autoestima patologicamente elevados. Não seria a indústria a contar-lhes que suas bebidas não lhes trazem vantagens. Essa tarefa importuna fica por nossa conta.

A imagem mostra a silhueta de uma pessoa segurando uma garrafa de água e bebendo, com o sol se pondo ao fundo. O céu apresenta tons de laranja e amarelo, criando um contraste com a figura escura da pessoa.
Criados na década de 1960 para repor nutrientes perdidos em esforços exaustivos e melhorar o desempenho esportivo, os isotônicos tornaram-se um grande negócio - Silvio Avila/AFP

É consenso que atividades moderadas e com duração inferior a 60 minutos dispensam o consumo de isotônicos. E, exceto em condições excepcionalmente quentes e úmidas —e contanto que você seja jovem e saudável—, água também.

"Mas eu transpiro muito quando corro na esteira..." Ótimo para você, caro leitor! A desidratação leve induzida pelo exercício é um módico preço fisiológico a se pagar pela eficiente dissipação de calor do seu corpo. Quem produz mais suor regula melhor a temperatura. O pânico da sudorese, alastrado pela indústria, não é justificado.

Nem mesmo para atletas puro-sangue. Dados coletados na África do Sul durante o triatlo Ironman (3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,2 km de corrida) demonstram que a perda hídrica na prova —que pode atingir 8 litros!— não se relaciona a sintomas clínicos de desidratação (edema de mão e pulmão, olhos fundos, etc), aumento da pressão arterial e da temperatura ou outros eventos adversos.

PUBLICIDADE

E quanto ao desempenho esportivo? Em 2008, Haile Gebrselassie, o lendário fundista egípcio, perdeu impressionantes 10% do peso em líquidos na maratona em que bateu o recorde da modalidade. Haile passa bem e não está só. Estudos observacionais (que, lembremos, não provam causalidade) apontam que atletas que mais desidratam tendem a ser os que cruzam mais cedo a linha de chegada. E sobretudo para provas mais curtas (até 60 minutos), há evidências de que perdas hídricas não superiores a 3-4% do peso podem conferir pequenos ganhos esportivos, já que a perda de líquidos reduz a massa corporal e melhora a economia do movimento —um princípio análogo ao efeito que o esvaziamento parcial do tanque tem na eficiência de um carro de corrida.

Se o risco da desidratação é superestimado, o mesmo não pode ser dito da hiper-hidratação. Um estudo feito com corredores da Maratona de Boston de 2002 mostrou que 13% deles apresentaram hiponatremia (baixa concentração de sódio no sangue), condição que pode levar a convulsões, edema cerebral, parada respiratória e morte. Sua causa principal é o excesso de líquidos ingerido, que dilui o sódio na circulação. Atletas que terminam a prova mais pesados do que começaram estão entre os mais vulneráveis.

"Aí entram os isotônicos para nos acudir, certo?" Essa é a voz do marketing. Eis a da ciência: embora prometam repor os sais minerais, as bebidas esportivas comercias não são capazes de evitar a hiponatremia induzida pela hiper-hidratação. Que a indústria não nos ouça, mas o melhor seria respeitar a sede —um mecanismo evolutivo finamente governado pelo hipotálamo para nos lembrar exatamente quando e quanto beber.

E assim chegamos ao paradoxo das bebidas esportivas: os poucos que realmente precisam delas (atletas) faturam para consumi-las, enquanto nós, que não precisamos, desembolsamos por elas. Logo, se você paga pelo seu isotônico, é provável que consiga viver bem sem ele.