domingo, 22 de outubro de 2023

Trazidas pelo carteiro, Ruy Castro - FSP


Há semanas, comentei de passagem que já nem me lembrava de quando havia recebido uma carta pela última vez. Carta, mesmo, daquelas de correio, com selo e carimbo, de alguém mandando notícias. Não era uma queixa, mas uma constatação —a falta renitente de alguma coisa incomoda a princípio, mas aos poucos nos tornamos insensíveis. Por isso, foi uma surpresa, outro dia, ao receber um envelope vindo de Belo Horizonte, remetido por Flora Augusto Teixeira. Em uma folha escrita a mão, dizia nas primeiras linhas.

"Prezado Ruy Castro. Havia pensado em lhe escrever há tempos e, hoje, ao ler sua crônica na Folha e perceber que você não mais recebe cartas, resolvi enviar-lhe esta. Minha irmã viajava muito e me trazia lindos papéis de carta. Do alto de meus 88 anos, tenho que usá-los, não é mesmo?" E seguia-se uma breve e invejável descrição de suas andanças em jovem pelo Rio e pelos EUA, na plateia dos grandes musicais, como o "Orfeu da Conceição", de Tom e Vinicius, no Teatro Municipal, em 1956. Mas bastariam as frases iniciais para me desmontar.

Outra leitora, a professora Vânia Lomônaco Bastos, de Brasília, de 86 anos, enviou-me uma pequena e preciosa coleção da revista Careta, de 1922, que havia pertencido a seu pai. E a escritora Lucia Helena Flavio Castelo Branco, de Campinas, me presenteou com os livros para jovens que encantaram sua infância e, imagino, também a de sua mãe. A delicadeza e a graça daquelas edições nos dizem muito sobre as crianças no Brasil dos anos 40.

E há muito que estou para agradecer a incrível gentileza de Maria Claudia Ribeiro, de São Paulo, que, ao ler uma coluna em que eu falava de minha admiração por Mandrake, o Mágico, presenteou-me com 44 números da revista em edições dos anos 50, alguns dos quais eu conhecia da época e que se perderam no tempo enquanto eu me perdia pela vida.

Não deviam fazer isso comigo.

Livros infantis dos anos 1940, números originais da revista Mandrake e uma carta de leitora para o colunista
Livros infantis dos anos 1940, números originais da revista Mandrake e uma carta de leitora para o colunista - Heloisa Seixas

Hélio Schwartsman Prevendo o futuro, FSP

 


E se a história fosse uma "ciência dura", capaz de fazer previsões tão precisas quanto as que os astrônomos fazem para os próximos eclipses? A maioria dos historiadores profissionais descarta essa possibilidade. Comportamentos humanos já são de certa forma infensos a modelagens matemáticas. Quando falamos de uma disciplina como a história, que, além de lidar com questões humanas, está sujeita a forças tão variadas como as da economia, cultura, tecnologia, geografia e ao próprio acaso, a pretensão de encontrar uma fórmula objetiva para calcular o futuro soa absurda.

Apesar dessa e de outras objeções, existem especialistas em ciência da complexidade que acham que é possível identificar em grandes massas de dados alguns vetores mais relevantes. Um desses especialistas é Peter Turchin, e o livro no qual sintetiza suas ideias é "End Times".

A ilustração de Annette Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo no dia 22 de outubro de 2023, mostra, sob um fundo preto, uma ampulheta giratória sobreposta a uma imagem do planeta Terra.
Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman, que será publicada também na versão impressa da Folha neste domingo (22 de outubro de 2023) - Annette Schwartsman

Para Turchin, sociedades vivem ciclos de integração e desintegração que duram de 100 a 200 anos. Os EUA e boa parte do Ocidente estariam numa fase desintegrativa. As duas principais forças envolvidas seriam a pauperização das classes mais baixas e a superprodução de elites (gente que se prepara para assumir posições mais elevadas, mas não as encontra). Quando os dois fenômenos atuam sinergicamente, o resultado é uma rebelião contra as elites que pode desestruturar a sociedade e acabar até em guerra civil. Mas Turchin não é tão fatalista. Ele mostra através de exemplos históricos que, se as elites forem suficientemente inteligentes para, através de reformas, desarmar as bombas, conseguem evitar o colapso e adentrar uma nova fase integrativa.

É claro que, com ciclos tão amplos e condicionados a tantas variáveis, já não estamos falando de previsões precisas, mas de tendências gerais. O modelo já não seria o da astronomia, mas o da epidemiologia, em que a previsão é feita na esperança de que os agentes atuem e consigam frustrá-la.

Nordeste deve puxar crescimento do Brasil até 2033; veja os maiores investimentos por região, FSP

 

SÃO PAULO

Com uma série de investimentos públicos e privados programados para a próxima década, o Nordeste deve ser a região do país com maior crescimento econômico no período 2025-2033, segundo projeções da Tendências Consultoria.

A recessão iniciada em 2014 interrompeu um período em que a região crescia acima da média nacional, embora em patamares inferiores aos verificados no Norte e Centro-Oeste.

Esses dois últimos devem continuar com bom desempenho ao longo dos próximos anos, também impulsionados por mais investimentos —e pelo agronegócio, no caso do Centro-Oeste.

Lucas Assis, economista e analista da Tendências Consultoria, destaca que o maior crescimento dessas três regiões em relação ao Sul e Sudeste não representa necessariamente uma redução significativa das desigualdades regionais do país, embora seja uma boa notícia.

Unidade de Hidrotratamento da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco - Agência Petrobras

Os investimentos programados para o Sudeste, por exemplo, superam os esperados para o Nordeste em valores monetários, mas são menores, proporcionalmente, ao tamanho da sua economia. Ou seja, em regiões mais desenvolvidas, esses aportes de investimento têm impactos menores.

"O Nordeste vai ser a região que vai liderar, em termos de variação interanual do PIB [Produto Interno Bruto], o crescimento da próxima década. Os investimentos vão impulsionar a região nos próximos anos, mas o Sudeste deve seguir como o principal motor da economia brasileira", afirma Assis.

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"Por mais que haja essa expectativa de crescimento [para o Nordeste], ela não deve se reverter, ao menos nos próximos dez anos, em uma melhora da heterogeneidade econômica do país. As vulnerabilidades econômicas e essa marcante desigualdade devem permanecer."

No Nordeste, a consultoria destaca o investimento da Petrobras de cerca de US$ 8 bilhões na Refinaria Abreu e Lima, no município de Ipojuca (PE), para ampliar a capacidade de refino no país. A primeira unidade, com capacidade para refinar 115 mil barris de petróleo por dia, está em operação desde 2014. O projeto do chamado trem 2 acrescenta capacidade de refino de 150 mil barris.

No mesmo estado, o grupo automotivo Stellantis investirá aproximadamente US$ 1,5 bilhão para ampliação do parque de fornecedores em Goiana (PE).

Outro destaque é o investimento de aproximadamente US$ 830 milhões para implantação de uma refinaria no Complexo do Pecém (CE), da empresa Noxis Energy.

Ecio Costa, professor titular de Economia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e sócio na CEDES Consultoria e Planejamento, destaca a importância dos investimentos programados do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de quase R$ 100 bilhões no estado (R$ 700 bilhões em todo o Nordeste).

"O Nordeste tem uma necessidade de investimentos em infraestrutura muito grande, mas a gente tem que ver na realidade o quanto disso vai sair do papel e ser efetivamente concretizado. Os PACs anteriores tiveram um índice de conclusão muito baixo", afirma Costa.

Quase metade da lista de obras do Novo PAC é composta por promessas ressuscitadas das versões anteriores do plano.

Em Pernambuco, segundo ele, um dos gargalos é a infraestrutura viária, que tende a melhorar com obras como o Arco Metropolitano e a duplicação de alguns trechos da BR-104, que corre em paralelo à BR-101 pelo interior.

Ele cita também o impacto do programa do Bolsa Família com valores mais elevados, em setores como as indústrias de alimentos e bebidas.

No Norte, a Tendências destaca os investimentos em mineração da Vale no Pará e obras para redução de gargalos logísticos para o escoamento da produção agropecuária do Centro-Oeste.

Na região central, além do agronegócio, destacam-se três grandes projetos de novas fábricas no setor de papel e celulose em Mato Grosso do Sul.

Lucas Assis, da Tendências, afirma que um dos principais riscos para a concretização dessas projeções e desses investimentos é o desempenho dos projetos ligados ao setor público. "A situação fiscal deteriorada deve seguir limitando desembolsos públicos", afirma.

Mesmo os investimentos privados podem ficar limitados por fatores como juros altos, inflação em patamar elevado e aumento de incertezas globais que restrinjam o fluxo de recursos para países emergentes.

A consultoria espera um crescimento médio do país de 2,5% de 2025 a 2033, semelhante ao verificado de 1996 a 2005, mas abaixo da média 2006-2014 (3,5%), período que antecedeu a última grande recessão.