terça-feira, 21 de setembro de 2021

Na ONU, Bolsonaro cita 'risco de socialismo', defende cloroquina e critica 'passaporte da vacina', OESP

 O presidente Jair Bolsonaro jogou por água abaixo a tese de diplomatas de que faria um discurso mais sóbrio do que os anteriores na abertura da Assembleia Geral da ONU, sem, desta vez, apelar para sua base ideológica. Logo na abertura do discurso, o presidente voltou a insistir na retórico de que seu governo é melhor do que o retratado na imprensa e disse, como fez em 2019, que o Brasil esteve "à beira do socialismo". Nos cerca de 13 minutos de pronunciamento, ainda atacou governadores e prefeitos por políticas de isolamento social na pandemia de covid-19,  defendeu o chamado "tratamento precoce" contra covid-19 — em referência a medicamentos comprovadamente ineficazes contra covid, como hidroxicloroquina e ivermectina — e se colocou contrário a "passaportes de vacinação".

"Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisão. O Brasil mudou e muito depois que assumimos o governo em janeiro de 2019", disse Bolsonaro. "O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição, valoriza a família e deve lealdade a seu povo. Isso é muito, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo", afirmou.

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Bolsonaro ONU
Presidente brasileiro Jair Bolsonaro fala na Assembleia da ONU  Foto: Photo by POOL / AFP

Ao falar sobre a questão ambiental, Bolsonaro disse que o Brasil tem "grandes desafios" em razão da "dimensão continental" do País. Como esperado, ele voltou a repetir que o Brasil antecipou de 2060 para 2050 o compromisso de atingir a neutralidade climática, como fizera em abril.

Ele falou da redução nos níveis de desmatamento da Amazônia em agosto, também como esperado, e afirmou que isso foi uma consequência do aumento de recursos para fiscalização ambiental. Bolsonaro afirmou que o País irá "buscar consenso sobre as regras do mercado de crédito de carbono global" na COP-26.

"A pandemia pegou a todos de surpresa em 2020. Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram legado de inflação no mundo todo", afirmou Bolsonaro ao criticas medidas de isolamento e governadores e prefeitos do Brasil.

Ele se gabou do fato de quase 90% da população adulta do Brasil estar vacinada, mas disse ser contra um passaporte da vacina. "Apoiamos a vacinação. Contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina", disse.

Bolsonaro defendeu tratamento precoce contra covid-19 e disse que ele mesmo usou -- em referência a medicamentos comprovadamente ineficazes contra covid, como hidroxicloroquina e ivermectina -- e ainda se colocou contrário a "passaportes de vacinação". "Desde o início da pandemia apoiamos a autonomia do médico em busca do tratamento precoce. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial", disse. "Não entendemos porque muitos países se colocaram contra o tratamento inicial (precoce). A história e a ciência saberão responsabilizar a todos", afirmou Bolsonaro.

Desde sua eleição, Bolsonaro é visto pela comunidade internacional como um líder com aspirações antidemocráticas e que coloca em risco a Floresta Amazônica, os direitos de minorias, instituições democráticas e, desde o início da pandemia, a vida dos brasileiros. Em 2019, na sua primeira aparição na ONU, Bolsonaro fez uma fala recheada de referências religiosas, disse que o Brasil esteve "à beira do socialismo", atacou adversários políticos e países como Cuba e Venezuela e sugeriu que o presidente da França, Emmanuel Macron, tinha "espírito colonialista". Na época, o presidente era aconselhado pelo então chanceler Ernesto Araújo, que incentivava o discurso de desafio à ordem global e ao que o na época ministro chamava de "globalismo".

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O drama urbano do oceano de autoconstruções da metrópole paulistana, Alvaro dos Santos , OESP

 Em um tempo em que as teses que defendem uma cidade sustentável, com a inserção de todos bairros desassistidos à cidade formal e assistida, são tão apregoadas, salta aos olhos, como contraditória e paradoxal, a falta de atenção das autoridades públicas e dos profissionais que se dedicam às questões urbanas ao enorme e incrivelmente dinâmico segmento urbano representado pela autoconstrução. Seguramente já mais de 1/3 da área urbanizada e em urbanização da Região Metropolitana de São Paulo é hoje tomado pelo oceano de autoconstruções que nas últimas décadas marcou o crescimento metropolitano por espraiamento geográfico a partir de suas zonas periféricas, e que hoje abriga grande parte de seus 22 milhões de habitantes. Ressalte-se aqui que a ambientalmente tenebrosa tendência de crescimento por espraiamento geográfico é decorrência direta de um permanente processo urbano de exclusão social-geográfica.

Imagem típica do oceano de autoconstruções

Fato é que não fosse a própria população de baixa renda ter assumido autonomamente a solução de seu problema de demanda habitacional, elegendo para tanto de forma totalmente independente e espontânea a tecnologia possível para ter sua casa, qual seja a autoconstrução no sistema bloco/laje, a crise habitacional em muitas grandes e médias cidades brasileiras estaria atualmente em um grau caótico de total insuportabilidade. Sem qualquer ajuda ou apoio técnico e financeiro do poder público, a própria família e amigos constroem, no ritmo permitido por seu tempo livre e por seu orçamento. A cada 500 metros existe uma casa de materiais de construção onde se possa ir adquirindo homeopaticamente os materiais necessários (são comuns nessas condições materiais de baixa qualidade, os “não conformes”, mas com desempenho suficiente consideradas as modestas edificações de destino).

No entanto, se colabora na solução do grande problema da casa própria, a autoconstrução, por todo seu empirismo tecnológico, pela crítica escassez de capital financeiro, pela total inexistência de aportes urbanísticos, como também pela ausência de instrumentos de regulação técnica do uso do solo, não gera condições mínimas de qualidade habitacional, tanto no que diz respeito à unidade habitacional propriamente dita, como no que se refere aos atributos urbanos dos bairros que vão sendo formados.

Podem assim ser resumidas as precariedades das edificações e dos bairros formados pela autoconstrução:

  • Ambiente construído: sem qualquer atributo de conforto;
  • Mobilidade: péssima para pedestres e veículos;
  • Rede de esgotos: inexistente ou precária;
  • Qualidade ambiental: péssima – praticamente não há verde, não há praças e parques ou qualquer área de lazer;
  • Recolhimento de lixo: precário por falta de acessos;
  • Equipamentos públicos de educação e saúde: pouquíssimos e distantes;
  • Iluminação pública: insuficiente;
  • Segurança: nenhuma – imperam as leis do tráfico, milícias e banditismo;
  • Infra-estrutura urbana (pavimentação, drenagem, varrição, manutenção): total precariedade;
  • Riscos geológicos, deslizamentos e enchentes – extremamente comuns em encostas de alta declividade e margens de córregos.

Considerados os fatores humanos e sociais envolvidos não há prioridade urbana maior do que humanizar as grandes áreas tomadas pelo oceano de autoconstruções, dotando-as dos elementos urbanísticos indispensáveis a um aumento substancial da qualidade habitacional das unidades construídas e dos bairros constituídos.

No aspecto preventivo, a realidade colocada pelo sucesso quantitativo da autoconstrução escancara a enorme vantagem da adoção de programas habitacionais baseados na conjunção das estratégias dos lotes urbanizados e da autoconstrução assistida técnica e financeiramente. Ou seja, programas em que o lote é colocado à disposição das famílias para a autoconstrução da habitação somente após toda a infra-estrutura urbana básica ter sido devidamente implantada. O que inclui os equipamentos públicos de uso coletivo como escolas, centros de apoio à saúde, praças, parques, áreas de lazer, etc.

*Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo. Ex-diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Autor dos livros Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e PráticaA Grande Barreira da Serra do MarDiálogos GeológicosCubatãoEnchentes e Deslizamentos: Causas e SoluçõesManual Básico para elaboração e uso da Carta GeotécnicaCidades e Geologia. Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente

Trabalho remoto aumenta procura por imóveis no interior e litoral, FSP

 


SÃO PAULO

Por causa da pandemia e do maior tempo gasto em casa, um imóvel maior é o sonho do momento, e fica ainda melhor se tiver vista para o mar.

Na Lopes, a procura por imóveis no litoral cresceu 331%. Na Imovelweb, a alta na categoria foi de 43%.

"Santos estava fora do turismo, todo mundo viajava para fora, as casas de temporada ficaram abandonadas. Agora mudou totalmente, conforme a pandemia chegou, faltou imóvel para alugar e tem casas que não ficaram mais vagas desde então", diz Carlos Meschini, diretor regional do Secovi-SP em Santos.

Regiões que eram anteriormente muito buscadas para segunda moradia, como a Riviera de São Lourenço, em Bertioga, explodiram.

"Em tempos normais, moravam 4.000 pessoas ali, que trabalhavam em Santos, São Paulo, no ABC. No começo de 2020 passou para 10 mil pessoas e agora estimamos que esteja em 15 mil", afirma Meschini. O mesmo é sentido no litoral norte do estado.

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Em cidades como Praia Grande, Santos e Caraguatatuba, ainda há espaço para novos prédios. Já em Ubatuba, Ilhabela, São Sebastião e na Riviera, por exemplo, predominam os condomínios de casas, por causa das leis locais.

E não está fácil encontrar um lar com o pé na areia, porque as áreas mais próximas às praias já foram ocupadas ou estão muito caras.

O que se vê são lançamentos de condomínios de altíssimo padrão longe da praia, com campo de golfe e heliponto.

Os preços de imóveis no litoral norte aumentaram 30% desde 2020, mas vinham de um período de queda.

"Eles recuperaram valor", afirma Alfredo Freitas, diretor da Nova Freitas Negócios Imobiliários, que atua na região.

Hoje sócia de uma startup de realidade aumentada, Renata Soares Pereira, 48, presenciou esse aumento. Ela morava em um apartamento em Alphaville (Barueri) e decidiu mudar seu estilo de vida, inspirada pela pandemia.

Pereira foi passar 15 dias em uma casa no litoral norte de São Paulo, com os filhos, em maio de 2020. Eles voltaram, mas ela resolveu ficar. "Eu sabia que iria morar no litoral norte um dia, desacelerar o ritmo de trabalho, e a pandemia trouxe isso muito antes do que eu esperava", afirma.

Pereira alugou um imóvel em Camburi, praia de São Sebastião (SP), e levou seis meses para conseguir encontrar uma opção para comprar.

"A demanda aqui estourou, o preço foi para as cabeças e quem quer comprar está com muita dificuldade para encontrar. Vi imóvel quase dobrar de preço", afirma.

Ela alugou seu apartamento em Alphaville e comprou outro em Camburi com a metade da metragem, 54 m².

Mulher em pé em cozinha em reforma
A empresária Renata Soares Pereira, 48, no apartamento que comprou em Camburi (São Sebastião) e que está reformando - Eduardo Anizelli/Folhapress

Pereira agora está reformando o imóvel para começar a viver no local, e não pretende voltar ao seu apartamento antigo. ​

Ela começa o dia fazendo ioga, pedalando ou surfando, e trabalha durante a tarde. "Percebi que consigo fazer meus negócios daqui, sem comprometer o desempenho, e que não preciso ter uma casa com milhões de coisas", diz.

Na Baixada Santista, o mercado imobiliário vinha de uma alta no número de lançamentos e o estoque por enquanto está dando conta do aumento da procura, aponta o diretor do Secovi local. Mas podem faltar imóveis novos no futuro se a onda migratória não se reverter.

"Nós prevemos que vai faltar produto em dois ou três anos, porque o medo dos incorporadores em lançar é real. É preciso tomar cuidado com o produto que vai entrar agora porque ele vai ser entregue em 2025, e não sabemos qual será a situação do mercado até lá", avalia Meschini.

O interior paulista também atrai quem percebeu que não precisa morar em uma metrópole para conseguir um bom trabalho. Na Imovelweb, a busca por imóveis no interior de São Paulo aumentou 42% de 2020 para cá. Na Lopes, a alta no segmento foi de 328%.

Cidades a até 100 km de São Paulo, entre elas Bragança Paulista, Sorocaba, Campinas, Atibaia, Indaiatuba e São José dos Campos, tiveram destaque na procura.

Em um cenário de trabalho híbrido, no qual o profissional poderá optar por ir ao escritório uma ou duas vezes na semana, elas se apresentam como alternativas viáveis para manter a residência fora da capital mesmo depois da pandemia.

Segundo os especialistas, a procura maior é por casas em condomínios fechados. "Ninguém quer se mudar para Sorocaba para morar em apartamento", diz Cyro Naufel, diretor institucional da Lopes. Na imobiliária, a busca pela cidade cresceu 220% entre fevereiro e novembro de 2020.

Freitas, que tem a sede da sua empresa em São José dos Campos, afirma que não há mais lotes disponíveis nos empreendimentos que foram lançados na cidade. "Os estoques estão zerados, mas vamos ter novos lançamentos ainda nos próximos meses para suprir essa demanda." Ele estima um aumento de 25% a 30% na procura por imóveis por lá, desde o início da pandemia.

"A realização de loteamentos fechados já era uma tendência no passado e agora virou uma necessidade dos empreendedores, porque a procura é muito grande", diz José Augusto Viana Neto, presidente do Creci-SP.