quinta-feira, 8 de abril de 2021

Fernando Schüler Estado deveria agir para reduzir desigualdade, mas resultado vem sendo o inverso, FSP

 7.abr.2021 às 23h15

Lucas tem 17 anos e foi trabalhar, leio em uma reportagem. Cursava o último ano do fundamental e largou. Foi no ano passado, em meio à pandemia. A internet em casa não era das melhores para fazer as tarefas da escola e a situação econômica apertou. Quem sabe um dia volta em algum supletivo.

Lucas não é exceção. A evasão escolar sempre foi alta no Brasil. Um estudo do Inep mostrou que, entre 2010 e 2016, apenas 49,3% dos alunos e 61,3% das alunas do sexto ano do fundamental concluíram, no tempo certo, o ensino médio.

A pandemia irá piorar isto e ampliar ainda mais o “gap” de gênero. O Unicef mostrou que o Brasil é um dos cinco países que mais permaneceu com escolas fechadas. Foram 191 dias entre março de 2020 e fevereiro de 2021, contra 52 dias na média europeia.

São evidentes os danos que isso irá gerar. A “geração Covid” terá um déficit de aprendizagem. Terá desvantagem quando for disputar espaços no mercado. O Banco Mundial diz que o percentual de estudantes sem o conhecimento mínimo para ler adequadamente um texto irá de 55% para 77% se as escolas fecharem por 13 meses. Exagero? Não creio.

Há muitas questões aí. A primeira e mais inconveniente é sobre a real utilidade das medidas de fechamento. Estudo da Universidade de Zurique não mostrou alteração do ritmo da pandemia em 131 municípios paulistas que reabriram as escolas.

Guilherme Lichand, coordenador da pesquisa, sugere que “é difícil para a população de menor renda ficar em casa”, e que “o ganho marginal de fechar escolas não supera o alto custo de deixar as crianças sem aulas”.

Há muitos estudos nesta direção. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças apresentou uma ampla revisão de dados, concluindo que as escolas devem fechar apenas em última instância e que “o impacto negativo sobre a saúde física, mental e educacional das crianças, e o impacto econômico na sociedade, provavelmente superaria os benefícios”.

O tema é difícil e é compreensível o receio dos professores. A reabertura, de todo modo, precisa ser feita com prudência, e a vacinação de professores deveria ser prioritária.

Outro resultado da crise será o aumento da desigualdade. O estudo do Banco Mundial diz que irá para quase três anos letivos a diferença de aprendizagem entre os alunos de menor e maior renda. No Brasil, essa cisão equivale basicamente aos alunos que frequentam as redes públicas e privadas de ensino.

Surge aí a pergunta: o que houve com o setor público? O argumento mais cruel que escuto por aí sugere que o problema são os próprios alunos. Dado que boa parte não possui um computador e boa internet, não haveria muito o que fazer. É um argumento confortável, que toma um dado óbvio da realidade brasileira e o transforma numa bela desculpa para nossa inércia.

É evidente que a condição econômica pesa, e é exatamente para isto que existe o Estado. Para dar conta dessas carências e garantir o acesso ao ensino. Se não souber fazer isto, é preciso reconhecer e mudar a nossa maneira de gerir a educação.

Daria para fazer diferente? O Peru, logo no início da pandemia, fez uma compra maciça de equipamentos para os alunos vulneráveis. No Brasil isto custaria R$ 3,9 bilhões, segundo dado do Ipea, percentual ínfimo do que foi gasto com a pandemia. Não fizemos, não nos antecipamos, não compramos, e agora não passa de desculpa fácil dizer que o problema é a condição social dos alunos.

O que falta ao sistema é agilidade e senso de urgência. Na tomada de decisão, na compra de equipamentos, no treinamento dos professores para adaptação ao ensino remoto, para oferecer aulas híbridas, com uma parte dos alunos em casa, outra na escola. Tudo que o setor privado fez não por generosidade, mas pelo risco dos pais irem bater na porta da escola concorrente.

A conta, como de hábito, será paga pelos alunos e famílias que não têm outra porta para bater, que dependem do monopólio do Estado, e sequer têm poder para fazer pressão no sistema político.

Meu colega Naercio Menezes sugeriu uma medida audaciosa: colocar os alunos para cursarem dois anos em um. Dobrar o uso das escolas, se for preciso, de modo a recuperar o máximo do prejuízo educacional. “Acho possível fazer”, diz ele, “mas conhecendo o Brasil, acho difícil que aconteça”.

Também acho. Mas se ao menos pudermos aprender um pouco com este “striptease” feito pelo nosso sistema educacional, já será alguma coisa.​


TRINCHEIRA COVID É só me intubar! (É o que você pensa...), FSP

  EDIÇÃO IMPRESSA

Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

SÃO PAULO

Enquanto achava forças para seguir trabalhando no caos das festas de fim de ano, triste de não estar perto da minha família (a noite de Natal passei literalmente sozinha, dormindo cedo para o plantão de 24 horas do dia seguinte), fui presenteada com vídeos estarrecedores de megabaladas espalhadas pelo país. Um específico me tirou o chão.

Do meio de uma multidão, ouve-se uma voz feminina berrando “É só me intubar”, com a mesma desenvoltura que ela usaria para pedir um pão de queijo.

Intubar um paciente e tratá-lo com ventilação mecânica não é só passar um canudinho pela garganta e soprar um arzinho para o pulmão. Principalmente em situações de emergência, em que o paciente está instável, perto de entrar em exaustão respiratória e evoluir para uma parada.

Vamos começar do princípio. No geral, quem tem prática com esse procedimento são anestesiologistas, emergencistas e intensivistas. Na altíssima demanda que vivemos por essas especialidades na pandemia, provavelmente estes colegas estavam lotados de plantões, e não no meio da festa. Basta perguntar a qualquer gestor a dificuldade que está sendo encontrar profissionais livres para assumir mais turnos.

Passar um tubo calibroso, nada macio, pelo meio das cordas vocais é doloroso. Pense no quanto incomoda uma migalha de comida, pequenininha, presa na garganta. Pronto, agora imagine o tubo atravessando cerca de um palmo da sua via aérea.

Pessoa de costas paramentada como enfermeiro mexe em uma bancada acima das quais estão pendurados em fila diversos tubos espessos
Profissional de saúde inspeciona equipamento de intubação no hospital Emilio Ribas, em São Paulo - Miguel Schincariol-20.abr.20/AFP

Para que a intubação não seja um ritual de tortura, usamos uma série de medicamentos para tirar a dor e sedar o paciente. Nem todos os serviços estão com esses medicamentos à disposição. E aí faz-se o que se pode. A sedação não fica das mais adequadas, mas torna-se uma questão de priorizar a vida em vez do conforto.

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Aí chega a parte da ventilação propriamente dita. Não é apenas ligar um aparelho, como a gente liga a lavadora de roupas, escolher um programa e deixar ele funcionar. São vários ajustes, diferentes técnicas e especificidades de cada paciente. Leva tempo para treinar uma boa equipe para lidar com tudo isso. Então não adianta simplesmente comprar novos respiradores e colocar em hospitais.

É necessário conhecimento, experiência e um time multiprofissional para que o tratamento seja efetivo. Médicos não dão conta de tudo sozinhos! Precisamos muito da equipe de enfermagem e de fisioterapia para cuidar diretamente do paciente intubado, fora todo o batalhão que está nos bastidores (na farmácia, na radiologia, na nutrição, nas compras, no administrativo, na limpeza...).

Espero ansiosamente pelo dia em que a gente consiga retomar as festas em segurança. Em que a gente possa celebrar a vida, voltar a dançar e se abraçar sem medo. Mas não com o descaso de berrar “é só me intubar”. Porque é muito mais do que isso

'Vamos ter um nível de falências recorde', diz presidente da FecomercioSP, FSP

  EDIÇÃO IMPRESSA

SÃO PAULO

A FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) atendeu a um pedido dos sindicatos associados e resolveu se manifestar publicamente pedindo para que as empresas voltem a trabalhar.

A entidade lançou nesta quarta-feira (7) um manifesto intitulado “As empresas precisam voltar a trabalhar”, em que critica a ausência de coordenação entre os governos federal, estaduais e municipais no combate ao coronavírus.

Também reclama da demora na aprovação de benefícios para empresas que estão fechadas por conta de determinações de estados e municípios e cobra valores pertinentes para o auxílio emergencial repassado à população.

“Não adianta falar com os governos. Nada foi feito até agora. Estamos cansados de sugerir, falar, propor. Está difícil. Precisaríamos de mais recursos e linhas novas para empréstimos. Foi por isso que resolvemos fazer o manifesto. Os sindicatos filiados solicitaram uma posição nossa”, afirma Abram Szajman, presidente da FecomercioSP.

Segundo ele, a falta de medidas para proteção de empresas vai gerar um nível recorde de falências.

No manifesto, a FecomercioSP apresenta algumas opções do que poderia ser feito, como prorrogação no vencimento de tributos e um auxílio emergencial para pequenas empresas, em quatro parcelas, cada uma com um valor correspondente a 10% da média do faturamento mensal observado em 2020.

“Não admitimos assistir, passivamente, à extinção de milhares de empresas. É urgente, portanto, trabalharmos para a reconstrução da economia brasileira preservando os nossos empreendedores”, diz o texto.

Como o governo lidou com a pandemia?
Não houve uma unificação de ideias e planos e isso foi muito prejudicial. Se houvesse um plano geral as coisas teriam transcorrido de maneira melhor.

Que tipo de plano geral?
Ter comprado vacina na época certa. Ter feito um plano unificado de distribuição da vacina entre os governos, protegido as empresas, com expansão dos prazos de pagamentos dos impostos e todo um conjunto de medidas que não foram tomadas.

Que conjunto de medidas?
Mais crédito emergencial, suspensão e parcelamento de tributos, flexibilização trabalhista. Como as empresas podem aguentar? Vamos ter um nível de falências recorde. Como as empresas de comércio e serviços estão fechadas, não podem pagar imposto, conta de luz e telefone. São problemas que se arrastam desde o ano passado.

Já possuem algum tipo de estimativa com relação ao fechamento das empresas?
É difícil quantificar, mas vai acontecer porque estamos prevendo que empresas não vão suportar ficar fechadas tanto tempo. Vai ser difícil.

Qual a saída?
Ampliar a vacinação. Quanto mais rápido melhor, porque ajuda a abrir as lojas e atividades de serviços. Além da vacinação precisa ter fiscalização. As empresas cumprem higiene e tomam medidas de prevenção. Nas ruas, os ambulantes vendem os produtos e não tem fiscalização. Temos que ter fiscalização mais efetiva.

No manifesto vocês falam de uma perda de R$ 24 bilhões nas vendas das varejistas. Como foi feito esse cálculo?
Foi feito pelo nosso departamento de economia. Também estamos fazendo com relação às perdas dos setores de serviços e turismo. Ainda não temos uma estimativa, mas serão volumes extremamente altos.

Que tipo de ajuda as empresas querem?
O governo do estado [de São Paulo] abriu uma linha de R$ 100 milhões para restaurantes e empresas de serviços. Pedimos a expansão dos prazos de pagamentos. O pessoal ficou sem trabalhar muito tempo, não tem recursos. Também pedimos para o banco de desenvolvimento abrir linha de crédito para que pequenas e médias empresas pudessem ter facilidade de recursos para enfrentar as dificuldades.

Chegaram a falar com os governantes?
Não adianta falar com os governos. Nada foi feito até agora. Estamos cansados de sugerir, falar, propor. Está difícil. Precisaríamos de mais recursos e linhas novas para empréstimos. Foi por isso que resolvemos fazer o manifesto. Os sindicatos filiados solicitaram uma posição nossa.