quinta-feira, 8 de abril de 2021

Ricardo Melo - Os seis patetas, FSP

 Seria incrível, não fosse tão degradante, ver o estágio a que desceu a chamada classe política brasileira e seus fiadores. Infelizmente, aqui não há exceções de importância.

O Brasil conta cerca de 4.000 mortes diárias causadas pela pandemia. Responde por 27% das mortes do mundo, num país com 2,7% da população global. A fome, sob o eufemismo “insegurança alimentar”, atinge metade dos brasileiros. Cidades como São Paulo organizam esquemas de emergência para...abrir covas e cemitérios verticais. Usam vans de transporte escolar para carregar caixões.

O martírio se renova a cada dia. Mas “eles só pensam naquilo”. E dá-lhe manifestos e discursos.

Os governadores tucanos João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS), também pré-candidatos ao Planalto em 2022
Os governadores tucanos João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS), também pré-candidatos ao Planalto em 2022 - Pedro Ladeira - 10.set.2018/Folhapress

Um dos mais calhordas foi o dos seis patetas. Nome aos bois: João Doria (PSDB, governador de SP); Eduardo Leite (PSDB, governador gaúcho); João Amoedo (presidente do Novo); Luiz Mandetta (DEM, ex-ministro da Saúde); Luciano Huck (???); Ciro Gomes (PDT).

Com estardalhaço e o cinismo habituais, suas excelências lançaram um “manifesto pela consciência democrática”. A pretexto de se distanciar do desastre, escreveram um texto em que não citam, em nenhum momento, o responsável de plantão pela demolição das liberdades, das conquistas sociais, da soberania –ele mesmo, Jair Bolsonaro.

Cinco dos signatários escondem que apoiaram ou se valeram do apoio do capitão expelido do Exército para exercer os cargos que ocupam. “Bolsodoria”, ministro do governo, alavanca em Minas Gerais, apresentador “global” —há lugar pra todo mundo que quiser travar o progresso do Brasil.

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Destaque para o sexto, Ciro Gomes, um caudilho arrivista. Histriônico no linguajar, arrepiou carreira quando se tratou de impedir a vitória do miliciano chefe. Fugiu para Paris. De volta, quer dar lições de moral e ética. Provoca risadas, e nada além disso, quando quer disputar um lugar de oposição ao Jair Bolsonaro que ele ajudou a eleger.

Ciro passou por seis legendas pelo menos. Jamais conseguiu construir uma base de apoio. Seu “amigo do peito” é Tasso Jereissati, cardeal tucano da mesma cepa. Chega a ser ridículo vê-lo querer enfrentar Lula, líder do maior partido político do país. Quantas garrafas ele tem pra oferecer? Só se forem as de Coca-Colas que Jereissatti engarrafa a preço de banana no Nordeste.

Embora mais vistoso, o manifesto de não se sabe quantos empresários, economistas, colunistas, intelectualóides divulgado na mesma época navega no mesmo esgoto.

Passando uma peneira nos que o assinam, vai se perceber que boa parte apoiou Bolsonaro (cujo nome também não aparece no documento) e agora se manifesta inconformada com a dissolução do país.

Posar agora de estrangeiros desinformados em textos copiosos só convence aos reféns das redes Globo da vida e seus sucedâneos impressos e eletrônicos.

Como assim? Bolsonaro nunca escondeu seus instintos em 30 anos de baldeação no Parlamento. Na campanha em que escapuliu dos debates após uma facada mal explicada, sempre deixou claro que queria transformar o Brasil em capitania hereditária de sua turma a bordo do capital estufado e da mídia obediente.

Ah, e o PT? O PT não está bem na foto. Pelo contrário: está bem mal. A volta de Lula ao cenário político obviamente reacendeu uma chama no partido e remexeu o xadrez político. Mas o discurso dos dirigentes aponta no mesmo sentido: garantir uma candidatura em 2022. E até lá?

Pesquisas sucessivas mostram que as maiores vítimas do arrastão da pandemia são os mais pobres. Em São Paulo, a proporção chega a 80%. Com o novo auxílio emergencial de ínfimos R$ 250 mensais na média, a miséria vai se disseminar ainda mais. Daqui a 2022, será mais do que ano e meio de milhares de mortes diárias.

O Partido dos Trabalhadores, a oposição, não tem nada com isso? Pra que serve ter maioria na Câmara? Isso vale tanto para o PT quanto para os "presidenciáveis" boquirrotos que comandam importante fatia do tal centrão.

A saída imediata de Bolsonaro e sua quadrilha é a tarefa número um. Para ontem. Há mais de cem pedidos de impeachment engavetados no Congresso. A interdição também é possível.

Tenho pra mim que Bolsonaro já engavetou projeto de reeleição. Sua maior preocupação é a cadeia. As mudanças na cúpula das Forças Armadas e da Polícia Federal não passam de um esquema de blindagem contra a montanha de provas de estelionato, roubalheira e fraude dele e de sua famiglia.

O resto que se dane. Saúde sem dinheiro, vacinas a perder de vista, censo cancelado, educação às favas, economia à deriva, fome invadindo as calçadas.

Quantos mortos mais serão necessários para ejetar este miliciano imediatamente?

PS: no artigo anterior, troquei o nome de Auro Moura Andrade pelo de Ranieri Mazzilli. Peço desculpas. Foi um erro de cepa, não de vírus. Ambos sempre foram caudatários do autoritarismo ditatorial.

PS2: no mesmo dia em que o Brasil ultrapassou mais de 4.000 mortes, Araraquara (SP) não registrou nenhum óbito pela segunda vez. Reportagens assinalaram o fato, menos que o prefeito da cidade (mais de 240 mil habitantes) que impôs o lockdown saneador e tem salvado centenas de vidas é Edinho Silva, do PT.

Casal hetero de modelos trans embaralha conceito de gênero, Eliane Trindade , FSP

 Depois de sete meses de namoro, Lana e Vicent fazem planos de casar e ter filhos. Ela sonha com uma cerimônia tradicional, com pompa e circunstância, sendo levada pelo pai ao altar, envergando um vestido de noiva preto.

“Vai ser lindo, delicado”, diz a modelo Lana Santucci, 24. Assim como os detalhes do que irá vestir, ela também pensa no simbolismo da união dela, nascida menino e que aos 20 anos se assumiu trans, com Estevan Vicent, 26, menina de nascimento, mas que desde o ano passado iniciou processo de transição como homem trans.

“Eu sempre me relacionava com meninos gays que tinham pênis, agora namoro um menino que tem vagina”, explica Lana.

Ela também se define como travesti, pois não pretende se livrar do órgão sexual masculino com o qual nasceu. Lana é legalmente mulher, trocou o RG e não revela como se chamava antes.

“É um nome morto, que morreu judicialmente quando todos os meus documentos foram retificados."

A modelo, que já fechou desfiles de Alexandre Herchcovitch na São Paulo Fashion Week e integrou o elenco do reality show “Born to Fashion", faz terapia hormonal há cinco anos.

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“Tomo hormônios femininos, como estrógeno, e também bloqueador de testosterona”, relata a loura de 1m83, gestos finos e voz aveludada, filha de uma família de classe média paulistana, de origem húngara.

A sua cara metade ainda está em pleno processo de transição do feminino para o masculino. O tatuador e modelo comercial exibe um físico malhado em seu 1m63, estilo condizente com sua nova identidade de gênero.

Para ele, não tão nova assim. Desde criança, quando tinha cabelos longos e usava vestidos comprados pela mãe evangélica, Vicent diz se sentir um menino.

Como um casal trans e heterossexual, Lana e Vicent reafirmam que não vieram para confundir, mas para explicar e conscientizar, em um ativismo calcado no cotidiano.

“Somo um casal hetero, pois eu gosto de meninas, e ela, de meninos”, pontua Vicent.

Com paciência e didatismo, eles diferenciam conceitos de identidade de gênero (“O que eu sou? Homem ou mulher?”) de orientação sexual (“Quem eu amo?” , “Eu me apaixonei por um homem ou uma mulher?”, “Sou hetero ou homossexual?).

E vão respondendo todas as curiosidades: Lana é mulher, Vicent é homem; eles se amam; ela se apaixonou por um homem trans e ele, por uma mulher trans; o relacionamento dos dois é, portanto, hetero.

As questões se sucedem e são explicadas ora por ela ora por ele. “Também somos um casal transgênero por não nos identificamos com nosso sexo biológico, mas sim com um gênero diferente daquele que nos foi atribuído ao nascer”, define Lana.

Ou seja, ela nasceu com o órgão sexual masculino, o que levou os pais a registrá-la no cartório como pessoa do sexo masculino, mas assumiu identidade de gênero oposta.

Ainda assim, Lana deseja manter o órgão sexual biológico em sua versão feminina. “Nunca cogitei fazer uma cirurgia para retirar o pênis. Seria uma mutilação.”

Para Vicent, gênero é construção social desse sexo biológico. O que vai além, enfatizam ambos, das distinções anatômicas, como genitálias e aparelhos reprodutivos, que definem o sexo masculino ou feminino.

Em seus perfis nas redes sociais, as duas metades do casal chamam atenção pela beleza dela, ao mesmo tempo forte e delicada, e as tatuagens e o rosto marcante dele.

Lana mora em São Paulo e Vicent ainda vive com os pais em Itajaí (SC), onde nasceu. Estão separados por 695 km, mas por pouco tempo. Planejam morar juntos e casar no futuro, com a benção das respectivas famílias.

“Eu aqui com o útero coçando e minha sogra fazendo sapatinhos de bebê, socorro!”, escreveu Vicent no Twitter, onde depois comemorou o fato de a mãe tê-lo tratado pela primeira vez pelo pronome masculino ele. “Hoje nada vai estragar o meu dia, amém”.

Lana também faz desabafos nas redes sociais, mandando recado para a galera que acha que trans é só trans, quase uma profissão.

“Amada, formada em moda, trabalho como modelo, já fiz SPFW, Casa de Criadores, duas campanhas pra M.A.C, desfiles de temporada da À La Garçonne e Renner”, enumera. Saiu na revista “Elle” três vezes e também na “Vogue” portuguesa.

A militância se dá ainda pelos fato de os dois se colocarem como transexuais para desmistificar a disforia de gênero, desconforto por não reconhecer na forma física sua verdadeira manifestação de gênero.

Vale um parêntese longo sobre a sopa de letrinhas que define a comunidade LGBTQIA+, ao dar visibilidade a todas as formas de ser. As três primeiras letras se referem a gays, lésbicas e bissexuais.

As demais dizem respeito a como a pessoa se identifica e vai além do gênero feminino ou masculino: transgêneros (travestis ou transexuais), queer (pessoas que transitam entre os dois gêneros).

Um léxico que cresce com intersexualidade, assexualidade, e panssexualidade.

Universo tratado no documentário “Disclosure”, gancho para Lana e Vicent falarem sobre preconceitos e violência que cercam a condição de trans no Brasil e no mundo.

“A pessoa transgênero, homem ou mulher, é associada à morte, uma vida que não é importante”, afirma Lana. O Brasil é o recordista mundial em assassinatos de travestis e transexuais, lembra, segundo a Antra, associação nacional que os representa.

E costumam ser mortes brutais. “Não é com tiro, mas com 20 facadas. São atos hediondos”, ressalta a modelo.

Filha de um advogado e uma dona de casa, Lana é exceção em uma realidade em que travestis são marginalizadas e fazem programa para sobreviver.

“O meu sucesso e de outras modelos trans abrem portas para outras meninas trabalharem na moda”, avalia. A mais conhecida é Lea T.

Vicent lembra que ao serem rejeitados pelos familiares, muitos transgêneros são empurrados para as ruas e buscam na prostituição uma saída. “A família mata primeiro, quando não acolhe um filho ou uma filha trans.”

Ele costuma assumir um ar protetor quando sai com a namorada. Lana chama muita atenção. E os olhares nem sempre são amigáveis ou de admiração.

Mostrar-se como casal apaixonado, que anda de mãos dadas, trabalha, viaja e faz planos é uma forma de reforçar uma representatividade positiva.

“Queremos a naturalização dos nossos corpos,” diz Lana. O namorado emenda: “Ensinam que nascemos em um corpo errado. Não vejo assim. Somos diferentes. ”

Diferenças que suscitam novas discussões na hora de falar de filhos. “Eu penso muito nisso”, confessa Vicent. “Ele leva jeito com crianças”, afirma Lana.

E como fica a questão da maternidade, que é sempre associada à mãe? “Será que só mulheres podem gerar um filho?”, indaga Lana.

Vicent responde: “Me assusta a ideia de uma criança crescendo dentro de mim”, confessa o futuro pai, a quem caberia gestar o bebê.

Uma decisão a ser tomada no futuro, caso a relação caminhe para a constituição de uma nova família.

No caso deles, não seria preciso apelar para uma barriga de aluguel nem doação de óvulos ou esperma, opções para casais de gays e lésbicas.

“Um filho nosso seria 100% biológico e do casal”, lembra Lana, que antes de virar pai, por ser o portador dos gametas masculinos, e mãe, como representação feminina do casal, pretende subir ao altar. E, claro, ultrafashion, em seu vestido negro.