quarta-feira, 7 de abril de 2021

Matem-se por mim, diz Bolsonaro, Ruy Castro, FSP

 Numa coluna há meses ("Saída para Trump: matar-se", 10/1), sugeri a Donald Trump, ainda presidente dos EUA, que, diante de sua derrota para Joe Biden e pelo fracasso em tornar-se o novo Hitler, desse um tiro no peito e se convertesse em mártir. E a Jair Bolsonaro, seu obsceno papagaio, que o imitasse no tresloucado gesto. Bastou para que um advogado particular de Bolsonaro, então dando expediente como ministro da Justiça, anunciasse a abertura de inquérito pela PF para apurar por que eu escrevera aquilo.

Há uma lei, com que concordo, segundo a qual induzir alguém ao suicídio é crime. Mas duvido que se aplique a um colunista de província que recomenda isso ao homem mais poderoso do mundo e a um sujeito eleito com 57 milhões de votos. Imagine Trump e Bolsonaro, mesmo por um segundo, avaliando minha sugestão! A ideia era deliciosa, mas nunca esperei que a seguissem. A Casa Branca, claro, me ignorou, mas o dito ministro, atracado aos baixos meridianos do chefe, ameaçou uma investigação. Os anais da lei ainda tentam descobrir como se investiga uma opinião.

Se induzir uma pessoa ao suicídio é crime, eu me pergunto como Jair Bolsonaro responderá um dia à acusação de induzir o povo brasileiro ao suicídio em massa, estimulando-o a aglomerar-se em multidões, sem máscara, desprezar a vacina e, depois de contraída a Covid, tratar-se com xaropes e cloroquinas, sabe-se agora, letais.

E não responderá sozinho. Para implantar tal política suicida, Bolsonaro escora-se em médicos que põem a ideologia acima da ciência, no "seu" Exército e, hoje, num juiz do STF. Como explicar que as maiores taxas de contágio do vírus no país estejam justamente nos municípios e regiões que mais votaram em Bolsonaro?

Ao fazer com que seus seguidores se exponham a tal risco, é como se Bolsonaro lhes dissesse: "Todos vamos morrer. Aproveitem e matem-se por mim".

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Charge de Montanaro em alusão à decisão de Kassio Nunes (STF) que autorizou presença de fiéis em templos - João Montanaro/Folhapress

Hélio Schwartsman - Boas e más notícias da vacina, FSP

 É com a vacina que controlaremos a pandemia de Covid-19, mas vai dar trabalho.

A boa notícia vem de Israel e do Reino Unido. Com respectivamente 116 e 87 doses aplicadas para cada 100 habitantes, os dois países viram suas curvas de mortes, hospitalizações e infecções baixarem significativamente e parecem estar retomando algum tipo de normalidade. Em Israel, houve celebrações presenciais de Páscoa —e não porque um magistrado assim o quis, mas porque os dados epidemiológicos sugeriam que era seguro fazê-las.

A má nova vem do Chile e dos EUA. Com respectivamente 56 e 49 doses por 100 habitantes, as duas nações vinham conseguindo baixar as transmissões, mas, nas últimas semanas, viram os números voltar a subir. O principal suspeito é a disseminação de variantes virais mais infecciosas. O cúmplice é o relaxamento dos cuidados não farmacológicos, mais ou menos inevitável quando as pessoas se sentem mais seguras.

Em Israel e no Reino Unido, o problema das variantes não ficou muito evidente porque a vacinação em massa ocorreu quando uma delas, a B.1.1.7, já circulava com força nos dois países. O que provavelmente ocorreu é que a maior transmissibilidade/virulência dessa cepa retardou os benefícios da vacinação, mas isso é mais difícil de perceber do que inversões na curva de contágios.

O Brasil, com 10 doses por 100 habitantes, está longe dos níveis estimados para a proteção comunitária, que só chegaria quando de 70% a 90% da população estiver imunizada, mas já enfrentamos o poder destrutivo de pelo menos uma das variantes.

A grande questão, enquanto a imunidade coletiva não chega, é se estaremos sujeitos a reedições do caos a cada nova variante que passar ou se, de alguma forma, ter lidado com uma já protege contra a próxima.

A notável convergência evolutiva das cepas que causam preocupação sugere alguma proteção, mas esse vírus não cessa de nos surpreender.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Hélio Schwartsman - Perdoai-os, eles não sabem o que fazem, FSP

 A liminar do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, que liberava a presença do público em cerimônias religiosas é um contrassenso, sintomático de quem ainda não entendeu bem o que está acontecendo no país.

O raciocínio marquiano parte de um elemento de verdade. Os decretos anti-Covid-19 de governadores e prefeitos limitam a liberdade religiosa. Mas não só. Também limitam a liberdade de ir e vir, de reunir-se pacificamente etc. E é o que se espera que façam. Os decretos, afinal, estão baseados numa lei de emergência sanitária, que tem o propósito explícito de limitar temporariamente direitos para conter a epidemia.

Rezar é, de todas as atividades humanas, a mais facilmente adaptável para o “home office” —se Deus existe e é onipresente, como quer a tradição, ouve preces de qualquer lugar que sejam feitas. Diante de uma entidade assim tão poderosa, o papel que resta às igrejas é muito menos o de estabelecer a comunicação com o divino do que o de favorecer uma vida comunitária significativa para os fiéis.

Assim, os religiosos só teriam motivo para queixa se os templos estivessem recebendo das autoridades terrenas um tratamento menos favorável que o dispensado a outros negócios que promovem contatos sociais positivos, como clubes e grêmios recreativos. Não sendo esse o caso, a liminar só cria uma exceção injustificável para templos.

Nunes Marques, porém, não está sozinho. Ele e milhões de brasileiros continuam agindo como se a epidemia fosse uma fatalidade imposta por Deus e não a expressão matemática de interações sociais desprotegidas entre portadores do Sars-CoV-2 e suscetíveis. Como ainda permaneceremos meses sem vacinas nas quantidades necessárias, o único jeito de reduzir o contágio é reduzir essas interações.

Enquanto os brasileiros, em especial autoridades como Marques, não entenderem isso, continuaremos colecionando milhares de mortos por dia.