segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Clássico do Dia: 'Muito Além do Jardim' mostra a grandeza do ator Peter Sellers, Luiz Carlos Merten, OESP

 Conta a lenda que Peter Sellers, tão logo leu o livro de Jerzy Kosinski, Being There (Muito Além do Jardim) em 1971, escreveu uma nota para o autor. “Meu jardim está aberto à sua disposição. Sou Chance.” Chance é o personagem central de Kosinski, um homem que passou a vida toda recluso, vendo TV, e que agora repete as máximas que ouviu em incontáveis programas, da boca dos mais incríveis personagerns, como se fossem verdades absolutas. Chance foi pioneiro da auto-ajuda. Ao transpor o limite do seu jardim torna-se o principal conselheiro do presidente dos EUA, tal já era o estado do mundo há 40 anos.

No Brasil, o livro chamou-se O Videota. Encantado com o filme Harold e Maude/Ensina-me a Viver, Sellers cooptou o diretor Hal Ashby para o projeto. O cineasta levou a solicitação à empresa Lorimar, mas pediu tempo, porque já estava comprometido com outros filmes. Kosinski aceitou vender os direitos, com uma condição – Sellers teria de ser o protagonista. Rumores começaram a circular na indústria. Laurence Olivier foi sondado para fazer o milionário Benjamin Rand, mas declinou. Entraram em cena Melvyn Douglas e Shirley MacLaine. Melvyn ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante de 1979, Peter Sellers foi indicado para melhor ator, mas perdeu para o Dustin Hoffman de Kramer vs. Kramer, de Robert Benton. Ambos venceram o Globo de Ouro - Sellers como melhor ator de comédia ou musical, Douglas como coadjuvante. Repetidas vezes Sellers fez saber que considerava Chance o maior personagem de sua carreira, e sua interpretação, a mais apurada. Não é pouca coisa.

Peter Sellers vinha atuando no cinema inglês desde os anos 1950, mas foi nos 60 que virou astro. O público encantou-se com a comédia de Blake Edwards, A Pantera Cor de Rosa, de 1963, que impôs, de uma só vez, duas figuras que ficaram célebres – o desastrado Inspetor Clouseau/Sellers e a Pantera, personagem de animação que saltou dos créditos para ganhar identidade própria numa série para TV. Edwards seguiu formatando comédias para o Inspetor Clouseau, e Sellers virou um favorito do público. Em 1962, teve seu primeiro encontro com Stanley Kubrick - em Lolita. Logo veio a sátira política Dr. Fantástico, um marco na evolução kubrickiana. Sellers interpreta três personagens que colocaram à prova sua extraordinária versatilidade - o Capitão Mandrake, o presidente Muffley e o cientista atômico Dr. Strangelove, preso à cadeira de rodas e com o braço sempre pronto para disparar a saudação nazista.

E ainda houve O Que É Que Há, Gatinha?, a comédia escrita e interpretada por Woody Allen, de 1965, com direção de Clive Donner. Em meados da década, Londres tornara-se o centro das mudanças comportamentais que agitavam o mundo. Peter O'Toole fazia o homem obcecado por todas as mulheres do mundo. Apaixonado por Romy Schneider, ele hesita em abandonar todas as outras por ela. Vai parar no divã do Dr. Fritz Fassbender, que não é outro senão Sellers, no papel do psiquitra mais maluco que já cruzou a tela. O próprio Allen reservou-se um papel, o do tímiddo neurótico que passa o filme catando as migalhas de amor e sexo que sobram da farra de Michael James, isto é, O'Toole. Ninguém seria louco de considerar Gatinha uma grande comédia ou Donner um grande diretor, mas o filme captou o espírito da época, embalado na trilha de Burt Bacharach e na voz de Tom Jones, com o refrão What's new pussycat? Oh, oh, oh.'

Peter Sellers
Peter Sellers em cena do filme 'Muito Além do Jardim' Foto: Lorimar Film Entertainment

Talvez não tenha havido outro ator de comédias como Peter Sellers nos anos 1960 e 70. Foi uma época em que o gênero floresceu na Itália com grandes mestres - Dino Risi, Mario Monicelli, Luigi Comencini - e grandes atores - Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Nino Manfredi. Em Hollywood, havia Jerry Lewis, Mel Brooks e Woody Allen deixava a stand up para iniciar sua carreira de autor. Mas havia algo de especial em Sellers. Em 1968, e uma vez mais sob a direção de Edwards, ele interpretou outro de seus personagens emblemáticos – Hrundi Bakshi, o ator indiano que, após destruir um set de filmagem no estilo de Gunga Din, entra de penetra na festa de um grande produtor de Hollywood e a destroi também. Há uma espécie de inocência no convidado bem trapalhão. Ele parece não ter consciência dos estragos que promove. Uma cena é exemplar, Hrundi na privada. Ele puxa o papel higiênico e olha, sem nenhuma emoção, equanto o rolo roda até o fim. Só um grande diretor, e um grande ator, para não perder o timing da piada.

É essa mesma inocência que caracteriza Chance, em Muito Além do Jardim - o título brasileiro. Roger Ebert, o conhecido crítico norte-americano, conta que teria ouvido do próprio Sellers a seguinte definição - “Não tenho personalidade alguma, sou um camaleão. Quando não estou representando um papel, sou 'nobody', ninguém.” Sellers falava dele, mas poderia estar explicando Chance. A vida toda esse homem viveu nessa casa, cuidando do jardim e vendo TV. De cara, ele se anuncia, 'Chance... the Gardener', mas para quem o ouve soa como Chauncey Gardner, um nome. De tanto ver TV, o medium cool de Marshall McLuhan, Chauncey, ou Chance, repete as maiores banalidades do mundo como se fossem verdades absolutas. Isso faz dele uma celebridade - amigo de milionários, conselheiro do presidente. No íntimo, ele sabe - “I'll be always a little boy".

A frase, na verdade, é da cozinheira Louise, que assim o rotula. Quando morre o dono da casa - não sabemos sua exata relação com Chance -, ele é lançado no mundo. Atarantado, é atropelado pela limusine da milionária Sra. Rand (Shirley), cujo marido (Melvyn Douglas) está morrendo. O médico e a própria Shirley poderiam desmascarar Chance, mas na verdade ele proporciona tamanha paz ao moribundo que ambos entram na farsa do guru. Por meio de Douglas, torna-se conselheiro do presidente (Jack Warden) e, eventualmente, poderá ser o próximo presidente. O ponto de Ashby - e Kosinski - é que um homem wasp, que usa ternos bem cortados, provavelmente do velho dono da casa, e usa um chapéu coco, que fala mansamente e com aparente segurança, pode encarnar alguma coisa - um desejo - no inconsciente coletivo. Ao contrário da juíza paranaense que escreveu na sentença - “Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão de sua raça” - negra -, Chance vira guru por ser branco, bem vestido e bem falante, não importa as bobagens que diga.

Peter Sellers
Peter Sellers em cena do filme 'Muito Além do Jardim' Foto: Lorimar Film Entertainment

O final é o mais inesperado possível. Sem explicação alguma, Chance, com seu chapéu coco e o guarda-chuva, caminha sobre as águas do lago. A associação mais óbvia é com o Cristo. Ashby transfere para o público a responsabilidade sobre esse final. O filme concorreu em Cannes, em 1980, no ano de All That Jazz – O Show Deve Continuar, de Bob Fosse. Os anos 1970 haviam marcado um ponto abissal na descrença dos cidadãos dos EUA com suas instituições, por conta da Guerra do Vietnã e do escândalo Watergate, que levou à renúncia do presidente Richard M. Nixon. Ashby iniciou-se como montador - ganhou o Oscar da categoria por No Calor da Noite, de Norman Jewison, em 1967. Como diretor, foi sempre atraído por personagens que não se enquadram nas normas - a velhinha sacudida de Ensina-me a Viver, os dois guardas militares que relaxam a vida do prisioneiro de A Última Missão, o cabeleireiro mulherengo de Shampoo e o sindicalista de Esta Terra É Minha Terra.

Chance foi seu personagem limite - mais bizarro? -, servindo a um comentário sobre a política na era da massificação da TV. Hoje talvez fosse possível refazer Muito Além do Jardim, substituindo a TV pelas redes sociais e pelas fake news. A questão sobre quem é o videota permanece mais atual que nunca. Somos treinados para responder automaticamente às Alexas que querem determinar nossas vidas em nome da praticidade. As pessoas estão abrindo mão de pensar, de escolher. O algoritmo já está fazendo isso por elas. Ashby, com seus filmes, adorava cutucar, ou incomodar, o público. Podia haver aí um erro de julgamento. As pessoas raramente estavam a fim de ser incomodadas. Apenas dois de seus filmes fizeram sucesso de verdade – Ensina-me a Viver e justamente Muito Além do Jardim. Morreu em 1988, aos 59 anos.

Filme pode ser visto no YouTube.

Extremos que se tocam - POR DANIEL MARTINS DE BARROS, OESP

 Nada desculpa quem vai à frente de um hospital protestar contra o aborto de uma menina de dez anos que engravidou após quatro anos de abuso sexual. Acrescentar dor ao sofrimento já incalculável da garota é uma manifestação do mal. É a maldade em ação. O fim declarado de salvar uma vida nem chega perto de expiar a culpa de quem, invocando supostas boas intenções, contribui para tornar o mundo um lugar pior.

Acho que isso basta para deixar claro que não concordo – ao contrário, condeno – a postura das pessoas que montaram piquetes tentando impedir a equipe médica de realizar o aborto. Isso não me impede, no entanto, de em vez de me juntar à turba que grita – aumentando o barulho e reduzindo a reflexão – procurar entender o que se passa com elas.

Não consigo me convencer facilmente que todos ali reunidos são pessoas essencialmente más, vis, desalmadas. Como então puderam aderir a um movimento que é a concretização do mal?

Quando estão em grupos as pessoas costumam assumir posturas mais radicais do que suas crenças originais. Essa tendência a caminhar em direção aos extremos é chamada de polarização de grupo, e afeta não apenas as opiniões, mas as escolhas e até os comportemos das pessoas. Sabe quando vemos nos filmes o juiz proibindo os jurados de conversarem sobre o caso que estão julgando durante os intervalos? É para evitar a polarização de grupo – estudos mostram que quando deliberam sobre o réu os jurados acabam sendo inclinados pelo coletivo.

E não para por aí: há evidências que grupos não presenciais, mediados por telas, levam a polarizações até mais extremas do que encontros tradicionais. Agora imagine o que acontece quando quem já tem uma postura tendendo a um polo se encontra com outras – dezenas, centenas, milhares – que vão para a mesma direção em grupos de Whatsapp, Telegram ou que tais. De repente pessoas anti-aborto que talvez considerassem um exagero ir sequer a uma passeata se vêem na frente de um hospital xingando profissionais de saúde.

Sempre bom reforçar: isso não justifica em nada essa atitude. Mas é preciso tentar compreendê-la. Até porque, não sei se já deu para perceber, mas gritar de volta só empurra as pessoas ainda mais para seus polos.

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Leitura mental

Bem a propósito dessa discussão vem o lançamento do livro Sobre a natureza humana (Record, 2020), do intelectual britânico Roger Scruton. Dialogando com as teorias mais em voga que procuram explicar nossos comportamentos, como as da psicologia evolutiva – da qual sou declarado simpatizante – Scruton mostra que não somos seres exclusivamente biológicos. Arte, cultura, religião somam-se na receita do ser humano montando um amálgama que não pode ser compreendido exclusivamente olhando-se para nossa história evolutiva.

A pandemia acabou?, OESP

 Daniel Martins de Barros*, Da Redação

24 de agosto de 2020 | 05h00

Qual a diferença entre uma promessa e uma ameaça? Ambas visam a influenciar alguém, mas a promessa implica numa recompensa: se você fizer isso, faço aquilo. Tomarei uma atitude se você agir como eu quero. Essa é a grande diferença da ameaça. Nela, nos comprometemos a não tomar uma atitude se o outro agir como quero. Ela é, em princípio, mais econômica, porque se funciona, não precisamos fazer nada. Quando são bem-sucedidas ao modificar o comportamento alheio, a promessa resulta em recompensa, enquanto a ameaça resulta em não punição.

Claro que as duas perdem imediatamente a credibilidade se não são cumpridas. Suspender suas consequências e renová-las mina muito seu poder. Quem tem medo de um castigo sempre adiado com frases como “Desta vez passa...”? E que esperança ter no prêmio que nunca chega com justificativas “Na próxima...”?

É um dos grandes motivos pelos quais a pandemia do novo coronavírus acabou para tanta gente. Ainda que mantenham suspensos seus planos de viagens aéreas ou sua presença em salas de cinema, no geral a vida parece assumir cada vez mais ares de normalidade. Porque, para elas, a ameaça não se cumpriu.

No início da pandemia, quando nos chegavam notícias de pessoas morrendo sufocadas por falta de UTI na Itália ou caminhões do exército recolhendo corpos no Equadoro quadro que se pintou para a população, intencionalmente ou não, era de que uma hecatombe se aproximava. Quando se falava em centenas de milhares de mortos, o cenário imaginado pelas pessoas era de vizinhos caindo sem ar ao nosso redor, nos fazendo tropeçar em cadáveres nas calçadas. Temos dificuldade de visualizar a diferença entre cem mil ou um milhão de pessoas – o cérebro evolui em grupos de centenas, no máximo –, então os números eram interpretados conforme o imaginário que nos foi moldado pelo cinema.

Uma vez que a curva de infectados foi achatada, evitando o colapso do sistema de saúde, é como se as ameaças não tivessem sido cumpridas. E ao não se ver cercada pelo apocalipse zumbi que imaginou, muita gente passou a agir como se tudo houvesse voltado ao normal.

Esse não é um problema só dos brasileiros nem só dessa pandemia. Estudos em outros lugares, em outras epidemias, mostram que a percepção de risco é muito maior no início do surto, quando tudo ainda é novo, ameaçador e desconhecido. Conforme o correr do tempo e o avançar da doença, embora o risco real cresça, a percepção desse risco pelas pessoas diminui, passada a novidade da situação. Há modelos que explicam a partir dessa oscilação a característica cíclica das epidemias – a gente se protege inicialmente, o tempo passa, a gente relaxa, os casos aumentam, a gente se amedronta, e assim por diante.

Mas não adianta tentar assustar a população para motivar sua adesão às medidas de segurança. O medo é um mau motivador justamente porque é transitório. Se quiséssemos utilizá-lo como alavanca para manter um comportamento, teríamos que aumentá-lo continuamente com ameaças. Mas, para isso, elas precisariam ser cada vez maiores e mais catastróficas, distanciando-se da realidade; no fim, constantemente adiadas, elas perderiam sua eficácia em promover o medo e manter o comportamento.

Movimentação em lojas na 25 de março
Ainda que mantenham suspensos seus planos de viagens aéreas ou sua presença em salas de cinema, para muitos a vida parece assumir cada vez mais ares de normalidade em meio à pandemia. Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Como então podemos garantir que as pessoas se protejam? Não é por falta de informação, não é por falta de ameaça, não é por falta de evidências que elas voltam a se aglomerar sem máscara. É porque o preço que pagam é percebido como alto, por ser individual, ao passo que o benefício parece pequeno, por ser coletivo. Já a recompensa pela desobediência é imediata – livrar-se da máscara, abraçar os amigos –, mas a consequência é tardia, já que as mortes aumentam apenas semanas após as aberturas. E também acaba diluída na população.

É a velha analogia com o cinto de segurança, da qual falei há meses por aqui. Quando a situação tem esse desenho, as pessoas precisam ser obrigadas a mudar seu comportamento, com fiscalização, multa, restrição de direitos, penalidades que individualizem o custo pela infração. Sem isso, não adianta estampar manchetes com números de mortes. Nada convence a mudar de comportamento quem sente que a pandemia já acabou. 

*DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA