domingo, 19 de abril de 2020

Previsões pós-pandêmicas, FSP

Leio com doses iguais de interesse e ceticismo as opiniões de filósofos, cientistas políticos e economistas sobre as grandes mudanças sociais que a pandemia deixará como herança. É claro que algumas coisas vão mudar. Como dizia Heráclito, nunca tomamos banho duas vezes no mesmo rio. Mas receio que previsões feitas no olho do furacão carreguem uma probabilidade ainda maior do que o normal de dar com os burros n’água.
Humanos temos a tendência de reagir de forma exagerada a crises que evoquem algum tipo de ameaça existencial. E temos bons motivos para isso. Todos os que caminhamos hoje sobre a Terra somos descendentes diretos daqueles que não brincavam com o perigo, ainda que eventualmente tenham pagado mico por correr da própria sombra. Nossos parentes mais relaxados não deixaram progênie.
Aqui temos de tomar cuidado para não misturar as estações. O fato de termos uma propensão inata ao superdimensionamento não implica necessariamente que haja histeria com a Covid-19, como sugere o presidente. É preciso separar nossos impulsos valorativos daquilo que efetivamente sabemos sobre a doença, que é pouco.
As estimativas para os parâmetros epidemiológicos do vírus variam enormemente. Podemos estar tanto diante de um cenário em que a Covid-19 se mostrará de três a quatro vezes pior do que uma gripe sazonal até algo mais próximo da gripe espanhola. Realmente, não se sabe ainda.
O que já dá para descartar é que estejamos lidando com uma peste negra, que ceifou 1/3 da população da Europa e da Ásia no século 14. Essa, sim, foi uma epidemia que deixou marcas profundas e duradouras na sociedade. Outros surtos produziram efeitos reais, mas bem mais sutis.
A imagem que me vem à cabeça é a dos motoristas apressados. Depois que veem um acidente grave na estrada, costumam respeitar os limites de velocidade, mas o bom comportamento só dura alguns quilômetros.
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".
  • 13

Os mortos de Bolsonaro, Ruy Castro, FSP

Jair Bolsonaro não é economista, historiador, sociólogo, advogado ou médico, o que lhe daria pelo menos instrução básica. Também não é empresário, fazendeiro ou banqueiro, com o que teria alguma visão do país. Sempre foi um político menor e da Velha Política —que, como candidato, fingia combater e, no Planalto, pratica nas barbas de seus seguidores.
Velho político, Bolsonaro deveria perceber uma oportunidade quando ela se apresentasse. Com a dissolução da economia, do meio ambiente, das relações exteriores, da educação e da cultura em seu governo, a Covid-19 seria um inimigo ideal a enfrentar —numa luta em que ele teria o país a seu favor e que, caso vitoriosa, apagaria as brutalidades que já cometeu.
No passado, outro presidente, Rodrigues Alves, sobre quem não pairava a menor nódoa, passou à história como o governante que mais combateu as epidemias no país. Em sua gestão, 1902-06, ele erradicou a febre amarela e a peste bubônica e, mesmo com enorme desgaste político, impôs a vacina obrigatória contra a varíola. Foram campanhas vitoriosas, graças ao homem que as criou e coordenou: seu diretor-geral da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, nomeado por ele. Não havia ciúme —eles lutavam a favor da vida.
Bolsonaro, ao contrário, prefere lutar a favor de sua miserável campanha pela reeleição em 2022. O preço disso já se faz sentir. O Comando da 1ª Região Militar, no Rio, está mandando os postos de recrutamento contar as sepulturas do estado. Também no Rio, o cemitério de S. Francisco Xavier apressa a construção de 2.000 gavetas. No de Vila Formosa, em São Paulo, o maior da América Latina, os enterros estão sendo feitos em covas rasas e têm de levar no máximo dez minutos. Nos hospitais de Manaus, já há cadáveres no chão ao lado de pacientes nos leitos.
O país se torna um enorme jazigo ao ar livre. São os mortos da Covid —e de Bolsonaro.
Homens trabalham na construção de gavetas no cemitério de S. Francisco Xavier, no Rio - Ricardo Moraes - 17.abr.20/Reuters
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.
  • 34