domingo, 19 de abril de 2020

Crise do coronavírus expõe 81% da força de trabalho a risco de perda de renda, FSP

SÃO PAULO
Oito de cada dez trabalhadores brasileiros correm o risco de perder o emprego ou parte da renda por causa do impacto da epidemia do coronavírus na atividade econômica, segundo um novo estudo realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
A análise do grupo indica que mesmo trabalhadores com vínculo formal, e que atuam em atividades consideradas essenciais que podem continuar sendo exercidas apesar das medidas de isolamento impostas pelas autoridades para conter a transmissão do vírus, tornaram-se vulneráveis diante da crise.
Segundo os cálculos dos pesquisadores, o grupo mais frágil reúne cerca de um quarto da força de trabalho, ou 24 milhões de pessoas. São em geral informais empregados em atividades não essenciais e que, portanto, foram mais afetados pela paralisia da economia na quarentena.
Outro grupo, correspondente a 55% do pessoal ocupado, e que reúne 52 milhões de trabalhadores, se mostra vulnerável apesar de ter vínculo formal, ou mesmo trabalhando em atividades consideradas essenciais, segundo o estudo. Juntos, os grupos representam 81% da força de trabalho.

“Pessoas que teriam melhores condições de enfrentar crises econômicas no passado estão desprotegidas diante da epidemia”, diz o sociólogo Rogério Barbosa, um dos coordenadores do grupo, parte de uma rede multidisciplinar que começou a estudar o impacto das políticas de combate ao coronavírus.

Para avaliar o grau de vulnerabilidade da força de trabalho, o estudo analisou sua composição antes da epidemia, de acordo com o vínculo com o empregador e o setor de atividade, conforme os últimos dados publicados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referentes a dezembro.
Informações do Google sobre a mobilidade nas grandes cidades, dados da Cielo sobre transações com cartões de crédito e pesquisas do Sebrae foram usados para avaliar os efeitos da epidemia nos diferentes setores de atividade econômica.
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Entre os trabalhadores ameaçados mesmo com vínculo formal em atividades essenciais estão funcionários de bares, restaurantes e comércio de alimentos, que, embora continuem trabalhando, foram afetados pela queda de movimento provocada pelas políticas de isolamento social adotadas pelos estados.
O governo lançou nas últimas semanas várias medidas desenhadas com o objetivo de proteger a renda dos mais vulneráveis e preservar empregos, incluindo um auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores do setor informal e compensações para os que tiverem redução de jornada e salário no setor formal.

Muitos trabalhadores que perderam renda abruptamente por causa da paralisia de suas atividades levarão mais tempo para conseguir o auxílio emergencial porque não faziam parte do cadastro dos programas sociais do governo antes da epidemia e entrarão depois na fila dos benefícios.
O grupo da USP pretende examinar nas próximas semanas o impacto da crise econômica sobre as famílias. O pressuposto é que famílias mais numerosas com vários integrantes entre os grupos vulneráveis sofrerão mais durante o período de isolamento e deveriam receber maior
atenção das autoridades.

Nas famílias mais pobres, no máximo duas pessoas em cada domicílio podem receber o auxílio emergencial. Mulheres solteiras que são as principais responsáveis pelo sustento de suas famílias têm direito a R$ 1.200 se preencherem os requisitos do programa.
Os pesquisadores da USP incluíram entre os grupos mais frágeis microempreendedores e funcionários de empresas com menos de cinco trabalhadores, que reuniam metade da força de trabalho ocupada antes da crise.
“Muitas dessas empresas não conseguirão sobreviver e preservar os empregos dessas pessoas se não tiverem acesso a crédito durante a crise”, diz Barbosa. “Isso significa que as políticas de garantia da renda desses trabalhadores podem se revelar insuficientes depois que o pior da crise passar.”

Como vai ser o primeiro programa nacional de caça ao coronavírus, VTF, FSP

O governo federal vai começar o primeiro programa de rastreamento de possíveis doentes de Covid-19 casado com testes da doença.

O rastreamento já existe, argumenta Erno Harzheim, secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde. A novidade é que a procura de doentes deve ser associada à realização de até 30 mil testes por dia.

O governo firmou uma parceria público-privada com uma rede de laboratórios para fazer os exames.
Desde o início de abril, existe um sistema em que o governo procura possíveis doentes pelo telefone e oferece consultas automáticas por meio de um aplicativo de celular, por ligações telefônicas ou
por um “chat”. É o TeleSUS.

Em um primeiro momento, as pessoas falam com um robô. Se o sistema de inteligência artificial identifica um caso grave, a gente é automaticamente encaminhada para falar com enfermeiros ou médicos.

Se houver risco de síndrome respiratória grave, o sistema monitora o caso sob suspeita a fim de saber se a pessoa procurou ajuda médica —volta a ligar em uma hora. Quem tem sintomas de gripe e coisa similar é monitorado a cada 24 horas ou 48 horas.

Agora, pessoas com mais de 60 anos e de grupos de risco que tiverem “sinais e sintomas de síndrome gripal” identificados pelo TeleSUS serão encaminhadas para fazer o teste de Covid-19. Haverá postos móveis de coleta nas capitais e cidades com 500 mil habitantes, conta Harzheim.
O governo fez uma chamada de emergência para contratar até 3 milhões de exames do tipo RT-PCR, 30 mil por dia. Esse teste, em suma, procura sinais de pedaços de vírus. Não é aquele chamado “teste rápido” (que detecta anticorpos).

Até sexta-feira (17), 5,2 milhões de pessoas haviam sido atendidas no TeleSUS. Cerca de 128 mil procuraram o serviço. A maioria, 4,8 milhões, recebeu ligações do sistema do governo. Outras 297,4 mil estavam sob monitoramento.

Das atendidas, 93% eram saudáveis e 3% eram de risco moderado ou alto. Cerca de 118 mil pessoas tiveram teleconsulta com profissionais de saúde.

Desde o início de abril, o Ministério da Saúde e o IBGE melhoraram e ampliaram os cadastros nacionais de saúde (CadSUS e Sisab), conta Harzheim. O ministério teria dados individuais da população quase inteira, inclusive telefone, tratados de forma anônima, diz o governo.

O governo telefona e recebe ligações pelo número 136, pelo qual é possível fazer uma análise de risco de modo automático, usando teclas de opções. É possível fazer essa espécie de exame, digamos, por um aplicativo de celular (Coronavírus SUS, que pode ser baixado em qualquer loja de apps) e pelo chat do ministério (https://coronavirus.saude.gov.br/telesus).
Este jornalista testou o serviço e pediu a pessoas com sintomas que fizessem o teste. O sistema pareceu funcionar, pelo menos nessas sete experiências. Atenção: já existe bandido tentando dar golpe se passando por gente da Saúde.

Ignore ligações que não venham do número 136 ou 00136.

Os dados coletados pelas consultas devem alimentar uma central de análise, informações em tese relevantes para localizar o avanço da epidemia e procurar quem teve contatos com pessoas talvez infectadas. Ainda não se sabe como será a utilização prática dessas informações, segundo outro secretário do Ministério da Saúde, que preferiu não se identificar.

Sem testes e rastreamento de doentes e gente sob risco, não haverá modo seguro de relaxar os isolamentos. O Brasil ainda está entre os países que menos testam na América do Sul.
Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi s