Ao defender a candidatura de Tarcísio no lugar de Flávio, evangélicos em destaque, como Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro, ecoaram o desejo de uma fatia do eleitorado cristão. Será que o MBL tem condições de disputar esses votos?
Na semana passada, o nome de Renan Santos circulou na imprensa. Ele é o pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, do Movimento Brasil Livre, e aparece com 10% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos. O número sugere potencial de crescimento.
À primeira vista, o MBL não parece interessado em fazer sua mensagem circular nas redes cristãs.
Diferente de Tarcísio e de Flávio, Renan menciona evangélicos apenas para associar o escândalo do Banco Master à igreja Lagoinha e seu líder, o pastor André Valadão. Outro limitador é sua postura truculenta: pavio curto, ar de superioridade e linguagem grosseira.
Ainda assim, a candidatura presidencial do MBL pode —se calibrar sua estratégia— surpreender ao disputar votos da direita evangélica com Flávio Bolsonaro.
Renan tem a oportunidade de se destacar por não querer parecer o que não é. Flávio vem recorrendo a referências bíblicas em declarações públicas. Porque não domina esse idioma, ele incomoda fiéis frustrados com a instrumentalização da fé e com a disputa ideológica que o bolsonarismo levou para dentro das igrejas.
Enquanto Flávio peregrina por igrejas, Renan pode aproveitar a conexão que o MBL tem com a juventude universitária e visitar seminários teológicos respeitados e podcasts cristãos. Demonstraria interesse pelo segmento e se aproximaria de estudantes que influenciam o debate público ao traduzir questões políticas a partir da Bíblia.
Há outros recursos simbólicos que o MBL pode acionar. A veemência com que o movimento condena a corrupção na política tem paralelo com o constrangimento causado quando se descobre que pastores desviaram dinheiro da igreja.
Missão é um nome com apelo bíblico. Renan aciona essa simbologia ao repetir que não usa dinheiro público em campanha e que disputa contra fundos eleitorais milionários. O convite cristão para que a pessoa dê bons exemplos —ser "o sal da terra e a luz do mundo"— também dialoga com o etos moral que o MBL procura comunicar.
Renan também agrada esse segmento ao apresentar-se como conservador de direita. Ele defende a família, adota um discurso de linha-dura contra o crime, fala sobre empreendedorismo e entra na corrida já com um plano de governo, o Livro Amarelo.
A presença de Renan Santos na corrida presidencial neste ano pode produzir efeito semelhante ao que Pablo Marçal teve na campanha paulistana de 2024: disputar votos com o candidato oficial da direita por meio da astúcia e do uso competente da internet.
Renan pede à sua base que o leve a 10% nas pesquisas até julho para participar dos debates na TV e expor o clã Bolsonaro como traidor da direita. A aproximação com a juventude evangélica órfã de Tarcísio pode ajudá-lo a atingir essa meta.

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