Em junho de 1954, o país tremeu: Martha Rocha, 21 anos, baiana de olhos azuis e primeira Miss Brasil para valer, ficara em segundo lugar no Concurso Miss Universo, em Miami Beach, ele também uma novidade. Não se sabia ainda se um vice na Copa do Mundo da beleza era para ser considerado uma glória ou uma derrota para nossas cores. Dias depois, o povo se decidiu pela segunda hipótese. Segundo a revista O Cruzeiro, Martha perdera porque os juízes reprovaram suas duas polegadas a mais nos quadris do que a lambisgoia americana. Fosse hoje, diríamos que tinha sido derrotada pelo VAR.
De volta ao país, Martha foi recebida como heroína. Por sua grande classe, além da estampa, tornou-se um must dos salões da sociedade, amiga de Therezas e Didus. Cantou-se a sua história numa marchinha para o Carnaval de 1955 e que ela própria gravou: "Por duas polegadas a mais/ Passaram a baiana pra trás/ Por duas polegadas, e logo nos quadris/ Tem dó, tem dó, seu juiz!". Duas polegadas eram 5,8 cm, o que justificava o nosso protesto contra a descadeirada vencedora. Pena que, no futuro, Martha passaria por um triste perrengue: seu marido fez umas e outras e perdeu todo o dinheiro —que era dela.
Mas a grande homenagem a Martha já acontecera: a torta Martha Rocha, criada em sua homenagem por uma confeiteira de Curitiba. A receita —uma fórmula de pão de ló, creme de gemas, suspiro, baba de moça, frutas e crocante de nozes— atravessou as fronteiras e se tornou um clássico dos aniversários e casamentos.
E, com atraso, descobrira-se a verdade sobre a história das duas polegadas. Ela nunca aconteceu. Foi uma invenção do repórter João Martins, do Cruzeiro, que cobrira o concurso em Miami, para criar uma comoção nacional e vender revista. A confirmação está no livro "O Império de Papel", memórias de Accioly Neto, então diretor do Cruzeiro, editadas por Heloisa Seixas em 1998.
Há dias, a torta Martha Rocha foi declarada patrimônio cultural imaterial do Paraná. Sem limitação de polegadas para ser saboreada.

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