Entre sotaques diversos, lendas urbanas e críticas ao autoritarismo no Brasil, "O Agente Secreto" fez de sua campanha ao Oscar um reflexo do "molho brasileiro". Além do sucesso e de sua reconstituição da ditadura militar, o projeto reúne amplo repertório cultural, com menções a nomes que usaram a música, o cinema e a televisão para subverter o regime da época.
Não significa, porém, que as referências de Kleber Mendonça Filho —já no início, ele une fotos de músicos como Caetano Veloso, filmes como "Lúcio Flávio" e apresentadores como Chacrinha— sejam totalmente estranhas a votantes dos Estados Unidos. Pelo contrário. Ex-crítico, programador e cinéfilo de plantão, o diretor firma um elo entre a filmografia americana que pautou sua trajetória e o imaginário que construiu ao pensar o Brasil dos anos 1970.
Exemplo disso é uma conversa recente entre o cineasta e a atriz Tilda Swinton, em que ela compara uma das primeiras cenas de "O Agente Secreto" ao cinema de Alfred Hitchcock. Entre os méritos que deram ao britânico —responsável por muitos títulos americanos— a alcunha de "mestre do suspense", está a introdução de elementos de perigo antes que estes interfiram nas narrativas.
Em outras palavras, retomando um exemplo clássico, que é mais eficaz mostrar personagens sob a ameaça de uma bomba, ampliando a tensão que antecede o desastre, do que surpreender o público com uma explosão súbita e imprevisível.
A sequência lembrada por Swinton respeita tal regra, apesar de um adicional —a tensão nunca se esvai e deixa espaço para o espectador imaginar outros perigos.
Nela, quando Marcelo, personagem de Wagner Moura que foge de um empresário, chega a um posto e vê um cadáver no chão, ele se choca com a normalização da cena. O frentista que abastece seu fusca, por exemplo, parece tranquilo diante da demora policial em vir retirar o morto. Quando policiais enfim chegam, preferem fiscalizar o carro de Marcelo e roubar seus cigarros.
A sequência dura quase dez minutos. O corpo permanece ali, apodrecendo, afastando passageiros e atraindo cães famintos. Símbolo da ditadura, sugere o fim violento que pairava como ameaça coletiva, mas não desencadeia nenhum acontecimento imediato —exceto se infiltrar na mente de Marcelo. É essa relação com a imaginação dos personagens que o filme, de certo modo, mistura repertórios de naturezas distintas.
Seja pelos pesadelos que Marcelo terá à frente, em que o morto se une a máscaras monstruosas de Carnaval, seja pelos painéis que anunciam filmes fantasiosos no Cine São Luiz, imagens não digeridas pairam por toda a obra.
Não por acaso, uma perna na boca de um tubarão vira símbolo fundamental. De um lado, o resto humano ganha vida e se torna a "perna cabeluda", lenda urbana da década de 1970. O membro, além disso, dialoga com "Anatomia de Um Assassino", horror americano, tido por Mendonça Filho como referência, em que um homem fica agressivo ao herdar o braço de um assassino.
Do outro lado, o predador marinho lembra o do cartaz de "Tubarão", que revolucionou os blockbusters. Entre letreiros de produções como "King Kong" e um pôster de "Testa de Ferro por Acaso" —comédia sobre um roteirista perseguido pelo governo—, o longa de Steven Spielberg é uma opção em cartaz em "O Agente Secreto".
O filho de Marcelo, inclusive, faz de tudo para assistir ao clássico. Ele diz sonhar com o tubarão e, ao concretizar o desejo, revela que o animal parou de atormentar o seu sono. É como se os símbolos da produção, livres para atormentar o inconsciente de personagens, exigissem uma espécie de amarra.
Raciocínio parecido pode ter levado um pequeno Mendonça Filho, que tinha menos de dez anos quando o fenômeno de Spielberg foi lançado, a criar os seus primeiros experimentos. Alguns deles estão no documentário "Retratos Fantasmas" e se basearam em produções americanas de baixo orçamento.
A passagem em que espectadores gritam ao ver "A Profecia", título de Richard Donner em que uma criança assume o papel de anticristo, também reforça um roteiro que vai de encontro a forças imateriais. A cena ocorre pouco antes do protagonista se reunir com figuras enigmáticas, que se recusam a detalhar suas origens, mas dizem ter soluções para o fugitivo.
A mesma sensação de incerteza justifica comparações entre "O Agente Secreto" e filmes policiais. Próximo ao final, quando o cerco se aperta, tiros que atravessam olhos e destroem rostos lembram o "exploitation" —gênero que desafiava Hollywood com violência explícita— e nomes como Sam Peckinpah ou "Bloody Sam", que filmou homens agressivos em faroestes e longas investigativos.
Entre perseguições e momentos de contemplação, Mendonça Filho também se inspira no cinema de Brian de Palma, que prioriza o estilo em detrimento do realismo. Dois momentos marcantes usam o "split diopter" comum ao americano, isto é, filtro em lentes de câmeras que cria dois pontos de foco.
No início, a ferramenta reforça o elo entre Marcelo e o filho. Mais tarde, quando um mercenário chama o protagonista pelo verdadeiro nome, Armando, o recurso traduz a dupla identidade que atormenta o personagem.
Também vêm à mente outros filmes lembrados pelo diretor brasileiro. É o caso do italiano "Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", em que um policial assassino tensiona o poder ao ser convocado para investigar os próprios crimes.
Essa última referência está longe de ser a única além do cinema americano. O próprio título do filme se deve a uma homenagem francesa. Na ida ao Cine São Luiz, Marcelo vê o trailer de "O Magnífico", produção em que Jean-Paul Belmondo vive um autor obcecado por tramas de espionagem. A frase "o agente secreto" toma a tela do cinema durante a prévia.
Num momento em que o Oscar revê sua relação com outros países, e mesmo repertórios americanos que, como o terror e os filmes B, tiveram pouco espaço em edições passadas, o imaginário de Mendonça Filho reverencia tradições de Hollywood e reforça uma nova era do prêmio.





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