- A experiência e a especialização estão dando lugar aos improvisadores
- Qualquer um hoje pode ser fotógrafo, taxista ou hoteleiro. Neurocirurgião ainda não
Em 1956, o compositor americano Johnny Mercer assistia à televisão. Mercer era letrista, coautor de "Blues in the Night", "Midnight Sun", "One for my Baby" e outras obras-primas. Minha favorita é "Too Marvelous for Words", com suas incríveis rimas internas como "I search for phrases/ To sing your praises/ But there aren’t any magic adjectives/ To tell you all you are.// You’re much too much/ And just too very very/ To ever be/ In Webster’s Dictionary". De repente, surgiu na TV um jovem cantor de que ele ouvira falar: Elvis Presley. Quando Elvis mandou a introdução de "Tutti-Frutti", seu hit nas paradas —"Wop-Bop-a Loo-Bop-a-Lop-Bam-Boom!"—, Mercer suspirou: "Os amadores venceram".
Mercer ainda teria alguns anos de carreira para escrever "Something’s Gotta Give", "Days of Wine and Roses" e "Moon River". Ao se referir aos amadores, estava comparando-os com os músicos com quem trabalhava, virtuoses da composição ou de seus instrumentos e vozes, ameaçados de repente por rapazes cuja formação musical se dava na garagem dos pais. Anos se passaram e hoje temos muitas razões para concordar: os amadores venceram.
Os fotógrafos profissionais, com anos de domínio de técnicas de lentes e iluminação, deram lugar a uma multidão armada de celulares produzindo, segundo Bob Wolfenson, as piores fotos de todos os tempos. Os taxistas de verdade, para quem as cidades não têm segredos, estão sendo aposentados pelos motoristas de Uber, incapazes de seguir até o GPS sem o qual não saberiam chegar a lugar nenhum. E os hotéis, com seus saguões cosmopolitas, séculos de bem atender e brigadas de funcionários treinados, estão fechando as portas, vencidos pelo AirBnB com seus precários critérios de avaliação. E assim em muitas outras profissões sérias.
Por sorte, ainda não se admitem amadores em certas especialidades, como a dos neurocirurgiões, engenheiros aeroespaciais, farmacologistas, pilotos de aviação comercial.
Pelo menos até que as escolas que os formam também não sejam tomadas por amadores.

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