segunda-feira, 30 de março de 2026

Segunda parte da biografia de Lula conta gênese do mensalão: 25% do dinheiro do PT para o PL em 2002, Marcelo Godoy- OESP

 Fernando Morais decidiu publicar a segunda parte de sua biografia sobre Luiz Inácio Lula da Silva a poucos meses do pleito em que seu personagem disputará a reeleição (Lula, Volume 2; de Fernando Morais, 352 págs, preço: R$89,90 físico ou R$39,90 e-book). Havia se submetido a uma prova semelhante ao lançar a primeira parte de sua obra em novembro de 2021, 11 meses antes de o petista vencer as eleições de 2022 e retornar ao Palácio do Planalto.

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Trata-se sobretudo de um desafio à integridade intelectual, aquela que Max Weber fez ser o conceito central da dimensão ética da neutralidade valorativa, a única virtude que um professor deveria ter dentro de uma sala de aula, conforme escreveu em A Ciência como Vocação.

O novo volume de Morais começa em 1982 e se estende sobre a vida de Lula até a vitória em 2002, traçando um painel das campanhas eleitorais do petista até a Presidência, mostrando o quão indissociável é, da história do presidente, aquela de seu partido, para o bem e para o mal.

Mais uma vez, porém, Morais interrompeu sua narrativa antes das principais polêmicas que acompanharam o petista, aquelas surgidas quando o filho de dona Lindu se tornou presidente da República. Desta vez, o autor deixou antever nas páginas finais de seu novo volume informações que apontam que Morais enfrentará o desafio, que se agiganta diante do personagem. Poucas figuras na história da República despertaram tantas emoções díspares: esperança, ódio, frustração, alegria e medo. Talvez exista apenas um consenso em torno de Lula: é quase impossível ser-lhe indiferente.

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E assim é com o novo volume da obra de Morais. O leitor vai encontrar ali um escritor simpático a Lula, mas, ajudado pelos depoimentos do jornalista Ricardo Kotscho e do ex-deputado José Dirceu, ele permite ao leitor antever um personagem irascível e vaidoso, que distribuía xingamentos quando um comício fracassava, que se esquivava de fracassos e os distribuía aos próximos, como Aloizio Mercadante, culpado por não ter “metido o pau na moeda nova”, o real”, ou a insensibilidade de um Lula contrariado pelo cancelamento, em razão da morte de Ayrton Senna, do comício que lançaria sua candidatura, em 1994.

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As campanhas de 1994 e de 2002 são justamente os pontos altos do livro pelo que revelam do personagem, não só pela acurada descrição da caravana da cidadania com que Lula esperava chegar ao Palácio do Planalto, antes de ser derrotado por Fernando Henrique Cardoso, mas também pelo que ambas exibem sobre a questão moral que consumiria Lula e seu partido nos anos vindouros.

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Ali estão a gênese distante e próxima de escândalos, como mensalão e o esquema desbaratado pela Operação Lava Jato. Foi ainda em 1994 que Dirceu se sentiu abandonado, pela primeira vez, por Lula – e não seria a última -, quando o PT pensou em rifar a sua candidatura ao governo de São Paulo, em nome de uma aliança nacional com o PSDB, que não se consumou. Lula buscava o centro para normalizar o partido, já expurgado dos trotskistas da Convergência Socialista e da Causa Operária.

O livro se inicia justamente com a situação de Lula e de sua legenda, quase liquidada após a derrota de 1982, em razão das disputas entre suas tendências. Era um tempo em que a esquerda partidária era acusada de ter duas camisas, a do PT e de seus grupos, e cobrava um partido comprometido com a revolução socialista, enquanto a maioria reunida em torno da Articulação, o grupo do presidente e de Dirceu, defendia o reformismo socialista.

É aqui que Morais se mostra mais simpático a Lula. Falta no relato daqueles anos, por exemplo, a crítica que o próprio líder petista já fez da atuação de seu partido na Constituinte: “Se o nosso regimento e a nossa Constituição fossem aprovados, certamente o País seria ingovernável, porque nós éramos muito duros na queda”, disse Lula para o Valor, em 2013.

É verdade que o autor recupera a entrevista de Elio Gaspari com o presidente, quando o jornalista questionou Lula pelas doações eleitorais recebidas do empreiteiro Norberto Odebrecht na campanha de 1994, em que o petista foi derrotado pelo Plano Real e viu a esquerda do partido fustigá-lo por ter aceitado a doação do empresário. Lula disse que não via nada de errado em apanhar milhões de Odebrecht ou de qualquer outro, pois acreditava que não tinha feito nada de ilegal.

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O leitor vai encontrar na página 298, no fim do livro, o relato sobre o dia em que o líder do PT pediu emprestado o apartamento funcional que o deputado Paulo Rocha dividia com seus colegas Jair Meneghelli e José Pimentel, em Brasília. O petista se encontraria ali com outra figura notória da política nacional: Valdemar Costa Neto, o então e até hoje presidente do PL.

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Lula necessitava do PL para realizar o seu plano de ter José Alencar como vice. É que o senador precisava se filiar a uma legenda que aceitasse se coligar com o PT. No apartamento, Valdemar se encontrou com Delúbio Soares e com o deputado Virgílio Guimarães. No relato de Morais, o liberal foi direto sobre as condições para fechar o acordo: queria 25% de tudo o que PT arrecadasse para a campanha de seus deputados para o seu partido. Ouviu que o PT esperava arrecadar R$ 40 milhões e disse a Virgílio: “Você nos repassa R$ 10 milhões, está certo?”

Semanas depois, no começo de setembro, Valdemar apareceu no comitê de campanha do PT, em São Paulo, para cobrar o recebimento adiantado de 60% do acordo. Delúbio tentou explicar que o dinheiro ainda não havia entrado no caixa, mas contou que Virgílio o apresentara a um publicitário, Marcos Valério, que conseguira adiantar o dinheiro com empréstimo que seriam concedidos pelos bancos Rural e BMG. mas como Valdemar tinha pressa, relata Morais, o jeito foi emprestar R$ 6 milhões do empresário Lúcio Funaro.

Ou seja, o apoio do PL foi fechado em troca de dinheiro, assim como ocorreria após a eleição com o PTB de Roberto Jefferson. Estava aberto o caminho para o grande escândalo do primeiro mandato de Lula: o mensalão. O relato termina na página 312. Seu tom é menos panfletário do que o do primeiro volume. Para um julgamento definitivo da obra de Morais, será necessário esperar o derradeiro volume, ainda sem data para ser publicado.

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