quarta-feira, 18 de março de 2026

Um Nelson que volta da morte, Ruy Castro _ FSP

 Quando me falam da falta que Nelson Rodrigues, morto em 1980, está fazendo ao Brasil, sou levado a responder: "Nelson não morreu! Ainda mora ali no Leme e pode ser visto todo dia, tomando café no balcão do botequim!". E por que não? Suas expressões, como o "complexo de vira-lata", calcificaram-se na cultura de tal forma que já nem lhe pertencem mais. E rara a semana sem uma peça sua em cartaz. Mas, claro, é uma ilusão. Nelson morreu, sim, no dia 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos.

A morte foi o centro de sua vida desde o assassinato do irmão Roberto, na Redação de Crítica, jornal de seu pai, em 1929. Suas peças são conduzidas por personagens mortos ou com fixação pela morte, como "Vestido de Noiva" (1943), "Anjo Negro" (1947), "Senhora dos Afogados" (1947), "A Falecida" (1953), "Perdoa-me por me Traíres" (1957), "Beijo no Asfalto" (1960). Seu romance "Asfalto Selvagem" (1959) começa num cemitério. E inúmeros contos de "A Vida Como Ela É..." se passam em velórios, com o alarido quase imoral dos pires e xícaras e os cafajestes que acendem o cigarro na chama do círio.

Fotonovelas, revistas populares, livros e LP baseados na obra de Nelson Rodrigues
Fotonovelas, revistas populares, livros e LP baseados na obra de Nelson Rodrigues - Heloisa Seixas

A intimidade com a morte não era privilégio de Nelson. Espalhou-se por sua família, como narro no meu livro "O Anjo Pornográfico", sua biografia. E não cessou com sua morte. Há dias (25/2), morreu seu filho Nelsinho, Nelson Rodrigues Filho, depois de dez anos aprisionado num AVC. A filha de Nelsinho, Crica, e o sobrinho Sacha, netos de Nelson, encarregaram-se dos papéis, velório e sepultamento no jazigo da família no São João Batista. A Sacha coube acompanhar a transferência das ossadas de Nelson, de Cris, mulher de Nelsinho, e de sua avó Elza, para acomodar Nelsinho.

Não era uma tarefa agradável. Mas Sacha é um Rodrigues. Ao ver as caixas com as ossadas, perguntou ao coveiro qual era de quem. Este teve de abri-las para ler a inscrição no verso das tampas.

E, com isso, Sacha (que tinha nove anos quando seu avô morreu) viu, a um palmo, o que ninguém, nem ele, um dia sonhara ver: o crânio de Nelson Rodrigues.

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