O icônico prédio curvo e afunilado da avenida Paulista voltou recentemente a abrir os portões. Anunciado cerca de oito anos atrás como o primeiro Hard Rock Hotel de São Paulo, virou endereço de um quase xará: o Hard Park Estacionamentos —razão social da empresa que transformou as garagens do edifício em estacionamento rotativo.
Enquanto a frente da torre expõe uma faixa de promoção para vagas de mensalistas, uma placa de "aluga-se" indica que o restante do edifício segue esvaziado. Os ares de abandono do imóvel renderam uma multa neste mês, após notificações em janeiro, pela Subprefeitura Pinheiros.
A penalidade se deve à situação da fachada, repleta de pichações, vidros quebrados e janelas abertas há anos. Em nota, a prefeitura indicou que o local é monitorado e pode sofrer nova autuação se o descumprimento persistir.
Proprietário, o Grupo Savoy retomou o prédio após o despejo da antiga locatária em agosto de 2025, pelo estado de abandono e dívidas de mais de R$ 17,2 milhões. O contrato firmado em 2018 previa a implantação de um hotel cinco estrelas, mas a obra não avançou mesmo após a emissão do alvará, em 2021.
O imóvel é anunciado na internet com aluguel de R$ 1,8 milhão para o prédio inteiro, além do IPTU. Está esvaziado desde 2018, quando a Savoy e inquilinos deixaram o local após o contrato do futuro Hard Rock Hotel.
Em nota, a empresa respondeu que analisa propostas de interessados, tanto para hotelaria quanto para uso corporativo. "Serão necessárias obras internas de adequação em ambos os usos, o que permitirá atualizar o imóvel e restabelecer o seu padrão AAA", completou.
O fracasso se deve em parte à crise financeira e a imbróglios diversos envolvendo empresas do empreendimento. A venda de cotas de unidades do Hard Rock Hotel Fortaleza está suspensa desde 2025, por exemplo, enquanto a empreitada no Paraná teve a troca de bandeira hoteleira anunciada em janeiro.
Já a Residence Club, responsável pelo empreendimento, diz que as "questões relacionadas ao imóvel seguem sendo tratadas entre as partes envolvidas e nas instâncias competentes". Também salientou o distrato em 2025. Não informou o cronograma de entrega das três obras previstas e atrasadas em outros estados.
Chamado Edifício Torre Paulista, o prédio é conhecido pela forma de "escorregador" e o passado como sede do banco Sumitomo. O projeto arquitetônico é coassinado pelo arquiteto Jorge Zalszupin (o mesmo da fachada original do Shopping Ibirapuera e conhecido especialmente por trabalhos de mobiliário).
Despejo na Paulista
O despejo ocorreu em agosto de 2025, com aval da Justiça para arrombamento e reforço policial. A Savoy havia ingressado com o pedido por meio da alegação de abandono, descumprimentos contratuais, dívidas e risco de invasão.
Imagens feitas por oficial de justiça mostram acúmulo de entulho, demolições parciais e danos variados em diversos andares. Cartazes dispostos nas escadas de emergência indicavam os usos previstos após a reforma, como de "rooftop bar".
O contrato de locação havia sido firmado em 2018, com aditivos em 2021 e em 2023, e validade até 2052. Parte das alterações deu isenção do aluguel de R$ 1,7 milhão (valor de 2018) por grande parte do contrato, o que explica o valor da dívida de R$ 13 milhões em locação. Os demais débitos são de encargos, impostos, multas e juros.
A VCI (atual Residence Club) havia se responsabilizado por investimento de R$ 58 milhões (valores de 2018). O montante incluía o pagamento pela marca internacional e 18 meses de obras de adaptação.
A reportagem procurou a Hard Rock International por e-mail, mas não obteve retorno. A marca opera geralmente no sistema de franquias e não tem histórico de se manifestar sobre esse caso.
Imbróglio em mais estados
O endereço da Paulista era parte de um plano brasileiro de hotéis Hard Rock, reduzido ao longo de uma década. A principal empresa à frente dos negócios mudou de nome, de VCI (Venture Capital Participações e Investimentos) para Residence Club.
Hoje, a holding tem três empreendimentos, todos de multipropriedade (quando há venda de uma fração de uma mesma unidade). As obras estão atrasadas há anos e são alvos de centenas de ações judiciais e reclamações na internet.
O Hard Rock Fortaleza (em Paraipaba, no Ceará) teve as vendas congeladas em agosto de 2025, por ação do MP-CE (Ministério Público do Ceará), por exemplo. Também recebeu multas milionárias por atrasos e repasse de encargos a clientes.
Já o Hard Rock Hotel Ilha do Sol (em Sertaneja, no Paraná) teve a bandeira trocada para Wyndham em janeiro. A decisão foi criticada por uma parte dos clientes. A nova data de entrega não foi atualizada.
O terceiro é o de Jijoca de Jericoacoara, no litoral do Ceará. A obra também não foi entregue.
Nenhum dos três aparece na lista de futuros hotéis ligados à rede estrangeira. No site oficial da marca, os únicos brasileiros são cafés já em funcionamento ou desenvolvimento, além do futuro hotel de Gramado, empreendimentos ligados a outras empresas.
Na nota, a Residence Club alegou priorizar os interesses dos clientes, com foco na continuidade e entrega dos projetos. Atribuiu parte dos problemas a decisões estruturais e operacionais da gestão anterior e, ainda, apontou que a Hard Rock International teria imposto "restrições operacionais que impactaram diretamente a comercialização, a geração de receita e, consequentemente, o avanço das obras".
Sobre o Ilha do Sol, respondeu que a troca de bandeira "reforça o compromisso da companhia em fortalecer os projetos e preservar a qualidade dos produtos adquiridos pelos clientes".
A venda das ações do antigo CEO da VCI é alvo de disputa judicial. A inclusão dele na ação de despejo do Torre Paulista foi negada pela Justiça.
Em nota, Samuel Schiarolli salientou não ter ingerência na gestão da companhia e dos empreendimentos desde dezembro de 2023. Também disse que "cumpriu rigorosamente com todas as obrigações que lhe eram cabíveis", assim como ressaltou a auditoria das contas e absolvição em processo na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Em rede social, recentemente afirmou que os empreendimentos alcançaram R$ 2,5 bilhões em vendas e 20 mil clientes em quatro anos.





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