Resolveram nos matar. Nós, mulheres, resolvemos viver. Decidiram nos matar de várias formas. Nós, mulheres, decidimos viver de todas as formas, de qualquer forma.
Quiseram matar nossa presença. Nós cuidamos de aparecer. Quiseram matar nossa voz. Nós deliberamos falar. Quiseram negar espaços públicos e sociais. Nós resolvemos recriar ambientes nos quais também nos coubessem. Impuseram-nos sapatos apertados e incômodos. Aprendemos a correr com salto alto. E cuidamos de traçar caminhos novos, mesmo nos tropeços e arapucas das sendas afirmadas para um mundo de decisões apenas dos machos.
No verbo, todas as pessoas humanas são iguais. Mulheres e homens são iguais em dignidade, respeito e direitos. No verbo. Na Constituição do Brasil. No Brasil da vida diária, mulheres continuam desiguais em direitos, deveres e obrigações. A experiência das mulheres pode ser tida como uma continuada inconstitucionalidade. Numa sociedade machista, misógina e sexista como a brasileira (não apenas, mas para ficar no cenário da minha cidadania), a mulher é discriminada, desvalorizada, permanentemente desrespeitada em sua vida pessoal, social, política, econômica e profissional.
Se todas as pessoas concordam em ser a igualdade direito fundamental da humanidade, por que todos os dias a desumanidade contra a mulher transborda nos atos de discriminação, desrespeito e assassinatos? A matança cruel de mulheres nos mutila, a violência contra a mulher nos amargura, a agressão contra a mulher nos amedronta, a bestialidade criminosa contra a mulher nos açoita em quadro que a cada dia se noticia, se informa, mas não muda.
Se todas as pessoas estão de acordo sobre o igual direito à dignidade de todo ser humano, por que o feminicídio cresce assustadoramente, vozes masculinas somam-se às femininas na proclamação de serem contra o assassinato de mulheres e o quadro de homens matando mulheres de variadas formas aumenta o sangue a escorrer de vidas destruídas pelo ódio à mulher?
Tenho aprendido que a grande maioria dos homens não sabe o que é preconceito e afirma a igualdade apenas como retórica, na qual acho até que eles acreditam. Querem a igualdade desde que a mulher fique apenas por perto em casa, no trabalho, na vida social e política, ou seja, "mantenha-se no seu lugar". Não queira ela opinar com autonomia, não queira ela ocupar chefia, não queira ela participar das grandes discussões... Isso continua "não sendo para mulher".
Soa patético o discurso de tantos "progressistas" afirmando não ter preconceito: "tenho mulher e filha", "sou filha de uma mulher e minha mãe manda em mim", "quando estou em casa ajudo até na cozinha...".
Quantos favores para abonar a própria crença de serem respeitosos ao direito à igualdade! Não são! A fala é apenas autocondescendente e afaga a ideia de não ter de afirmar-se retrógrado e impermeável a novos conceitos.
Preconceito é atraso de vida e avanço de mortes. Passou da hora de inventarmos uma sociedade de humanidades iguais e sem indignidades fatais. Apesar do destempo, sempre é tempo de se garantir que a vida de todas as pessoas seja uma aventura que vale a pena curtir, não um ônus custoso a se aguentar.
Sem nos convidar para o ajuste, trataram que a mulher deveria ser ausência. Sem participar do ajuste, combinamos que devemos ser presença. Trataram que seriamos adjacência. Resolvemos que somos humanamente essência.
Querem continuar a nos matar. Nós decidimos continuar a viver.

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