A última boa nova veio do Bradesco, que anunciou a reativação de seu prédio na avenida Ipiranga no centro de São Paulo, fechado desde a pandemia. A construção passa por um retrofit, uma completa requalificação.
Pronta, vai receber 2.500 funcionários e dividir seus escritórios com comércio e serviços. Dezenove andares serão usados pelo banco e os cinco andares inferiores serão ocupados por restaurantes, lojas e galerias, oferecendo uma fachada ativa.
O projeto do Nova Central, construído em 1964, é de autoria do arquiteto Carlos Lemos. O edifício tem 33 mil m2 e, para revitalizá-lo e adaptá-lo, o Bradesco vai gastar R$ 200 milhões. Lemos foi parceiro de Oscar Niemeyer na construção do vizinho Copan, que também está sendo requalificado.
Diante da grande quantidade de prédios desocupados ou maltratados que existem na cidade, o Bradesco dá um bom exemplo. O retrofit poderia ser adotado em maior escala para conter, pelo menos em parte, a onda de demolições e de construções de edifícios novos.
Mas isso teria de ser algo prioritário e mais urgente. O potencial de econômico da requalificação de prédios existentes ainda é subestimado pelas incorporadoras e construtoras.
O que não faltam em São Paulo são imóveis para serem renovados. Um levantamento recém-realizado pela Lello Condomínios identificou 836 condomínios no centro expandido da capital com condições técnicas e jurídicas para receber projetos de retrofit.
Já a Caixa Econômica Federal, que pretende ampliar financiamentos para essa modalidade, mapeou 7.000 construções em toda cidade com potencial para serem modernizadas e melhoradas.
"As construtoras estão se interessando, mas isso não é rápido, envolve uma mudança de mentalidade e de comportamento", diz a arquiteta e urbanista Adriana Levisky, sócia do escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana, responsável pelo projeto do Bradesco.
"Isso não vai acontecer porque uma lei é aprovada ou porque alguém decide que no dia seguinte será diferente, mas por causa de uma lenta transformação cultural. A grande estrutura do mercado imobiliário ainda não abraçou o retrofit", afirma.
O que se espera é uma mudança da lógica desse mercado. Como o Brasil é um país continental que sempre teve terra à disposição, a legislação urbanística do passado e do presente foi escrita para produzir obras novas em lotes particulares, conta Levisky.
Segundo ela, não é uma legislação que compreende a preexistência das construções disponíveis e busca mantê-las de pé, mas é direcionada para o desmonte. "O retrofit vem trazer para a gente uma oportunidade de revisitar técnicas construtivas, mudar dinâmicas empresariais e compreender novas tecnologias", afirma.
A Prefeitura de São Paulo criou dois programas para estimular o retrofit: o Requalifica Centro e o Programa de Intervenção Urbana Setor Central. O primeiro já tem 26 projetos aprovados pela Secretaria de Urbanismo e Licenciamento e 38 sob análise. Há 47 prédios, contando os 26 aprovados, que estão incluídos em alguma etapa de requalificação e credenciados a receber cotas da subvenção econômica de R$ 1 bilhão para a reabilitação de edifícios.
O segundo programa vai na mesma direção, mas é geograficamente mais abrangente e também cria estímulos para construções novas. Ambos facilitam o licenciamento e oferecem incentivos fiscais. Uma regra em São Paulo estabelece que, para ser requalificado, um prédio precisa ter sido construído antes de 1992. Depois disso, a intervenção é considerada apenas uma reforma.
Além do projeto do Bradesco no Nova Central, há outras iniciativas de retrofit de destaque, como a do edifício Basílio, outrora sede da Telesp, a do edifício das Américas, na rua Riachuelo, a do edifício Chrysler, na praça da República, e a do edifício Prestes Maia, destinado à habitação social.
O caso do banco, porém, tem uma grande importância simbólica por reforçar a percepção positiva da retomada do Centro e indicar que a região pode voltar a ser o grande polo financeiro da cidade.



Nenhum comentário:
Postar um comentário