O Brasil envelheceu. Mas envelheceu mal. A frase pode soar incômoda, sobretudo porque a longevidade costuma ser apresentada como sinal de progresso. "Vive-se mais", repete-se, como se isso bastasse para celebrar. Só que há uma diferença brutal entre viver mais e envelhecer com dignidade. No Brasil, essa dignidade está longe de ser uma conquista universal. Tornou-se privilégio.
Neste país, o tempo raramente suaviza desigualdades. Quase sempre, ele as aprofunda. Ao longo da vida, diferenças de renda, estudo, moradia, alimentação, trabalho e proteção social vão se acumulando até se tornarem incontornáveis na velhice. Quem contou com alguma estabilidade material e rede de apoio chega a essa etapa com mais amparo. Quem atravessou a existência sob o peso da precariedade costuma alcançar a velhice em condição muito mais frágil.
É preciso dizer com clareza que a velhice não começa aos 60 anos. Ela é construída ao longo de toda a vida. Ou destruída. Quando uma pessoa idosa não consegue pagar remédios, adaptar a casa, circular pela cidade ou sustentar o básico sem angústia, não enfrenta apenas dificuldades individuais. Trata-se do resultado previsível de um país que naturalizou a desigualdade e empurrou para o futuro o custo social dessa omissão.
O país já sabe que a população envelhece rapidamente, mas continua tratando o cuidado como se fosse um problema privado. Na prática, isso significa jogar, sobretudo sobre esposas e filhas, o peso de sustentar a velhice alheia, já que o cuidado ainda é visto como atributo de gênero. O cuidado segue invisível e feminizado.
Ao mesmo tempo, vende-se uma imagem sedutora do envelhecimento. A pessoa idosa ideal aparece ativa, saudável, produtiva, viajando, consumindo, empreendendo, reinventando-se. É uma imagem simpática, mas profundamente excludente, porque transforma uma possibilidade em obrigação simbólica. Como se só merecesse respeito quem conseguisse envelhecer sem depender de ninguém e, de preferência, sorrindo.
Essa fantasia tem efeito perverso. Ela esconde o fato de que a maioria das pessoas envelhece longe desse ideal sedutor e sob condições muito mais duras. Também faz parecer natural que a dignidade na velhice seja privilégio de quem acumulou recursos e alguma dose de sorte. Mas uma sociedade minimamente civilizada não pode reconhecer valor apenas na velhice autônoma. Ela precisa saber acolher e proteger também a velhice frágil. Esquece-se que o verdadeiro avanço civilizatório não está em prolongar a existência, mas em criar condições para que ela permaneça digna.
É nesse ponto que o debate precisa amadurecer. O envelhecimento da população brasileira não pode continuar tratado como pauta lateral. Trata-se de uma questão central para o país. Isso exige do Estado mais do que diagnósticos e promessas ocasionais. Exige políticas consistentes de renda, saúde, moradia, mobilidade, cuidado de longa duração e apoio efetivo a cuidadores. Exige reconhecer que amparar a velhice pobre não é benevolência. É dever republicano.
O Brasil gosta de dizer que está envelhecendo. E está. O que ainda não fez foi assumir a responsabilidade moral por isso. Enquanto a velhice digna puder ser comprada por alguns e improvisada pelos demais, continuaremos reproduzindo um país profundamente injusto. Envelhecer bem seguirá sendo privilégio de poucos. Aos outros restará apenas sobreviver por mais tempo.

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