terça-feira, 17 de março de 2026

Super-atletas, FSP

 Marcus Campos

Professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp

Bruno Gualano

É professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Também é autor de 'Bel, a Experimentadora'

Idealizado pelo australiano Aron D’SouzaThe Enhanced Games (Jogos Aprimorados) é um evento esportivo no qual o doping não apenas é permitido, mas incentivado. A organização compensa com US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,2 milhões) cada atleta que bater um recorde mundial. Atletismonatação e levantamento de peso compõem a edição inaugural, em maio de 2026, em Las Vegas. Além de super-humanos, os Jogos prometem gerar boas discussões éticas e científicas.

D’Souza e seus acólitos são críticos das políticas da World Anti-Doping Agency (WADA). Primeiro, por restringirem o potencial inalienável do homem de ser a melhor versão de si, com o auxílio de todas as ferramentas disponíveis para isso (leia-se doping). Segundo, porque o controle de doping seria uma miragem: por mais que os protocolos de detecção tenham avançado sobremaneira nas últimas décadas, o desenvolvimento de drogas novas e não rastreáveis sempre estaria um passo à frente, impossibilitando uma competição verdadeiramente limpa.

A imagem mostra um braço musculoso de um homem, com a pele exposta e bem definida. Ele está segurando uma seringa, apontando-a para o próprio braço, como se estivesse prestes a se injetar. O fundo é de cor escura, destacando a musculatura do braço e a seringa.
The Enhanced Games (Jogos Aprimorados) estimula o uso de drogas para melhorar a performance esportiva - Zamuruev/Adobe Stock

É possível conceder algo a esse argumento. Há evidências de que o número de atletas que admitem, anonimamente, se dopar é superior ao número de casos detectados pelas agências de controle. Daí se segue que, em alguma medida, a trapaça tem feito parte do esporte. Com a abertura ao doping, todos competiriam em igualdade de armas.

Restaria o contra-argumento de que o doping impõe riscos à saúde do atleta, e por isso, sua permissão seria incabível. Aparentemente, é um bom ponto, mas que perde força na medida em que distanciamos o esporte de uma visão romanesca de arquétipo de saúde.

Atletas de ponta estão frequentemente sujeitos a treinamentos extenuantes, dietas rigorosas, estresse psicológico, dor e lesões rotineiras. Em modalidades como o boxe e o MMA, a vitória advém de ferir o adversário a ponto de que este não consiga mais competir. Esses traços lembram que a saúde não é o enfoque do esporte de elite; por isso, o uso de substâncias dopantes, ainda que arriscado, não seria estranho nesse contexto.

Mas o negócio do Enhanced Games não é a elite do esporte. Esta é mera vitrine para mercadorias valiosas em nossos dias: o bem-estar e o desempenho. A empreitada, patrocinada por anarcocapitalistas, tecnolibertários e transumanistas, entre os quais Donald Trump Jr., tem como visão "criar o movimento científico, cultural e esportivo definitivo que evolua com segurança a humanidade para uma nova super-humanidade". Aos candidatos a super-humanos, oferece "uma linha premium de soluções baseadas em evidências científicas, projetadas para aumentar força, energia e longevidade". O elixir? Anabolizantes e suplementos.

Ocorre que a ciência não avaliza nenhuma forma segura de uso de testosterona, nem mesmo sob supervisão médica. Quem busca nos anabolizantes a imortalidade acaba por apressar o seu oposto. Quanto aos suplementos, vale a máxima: se funcionam, provavelmente são proibidos; se não são proibidos, provavelmente não funcionam.

O leitor ainda disposto a navegar pelo site do evento e compartilhar algumas informações pessoais com o robô interlocutor sairá com uma prescrição anabólica para chamar de sua —mediante pagamento. Assim, a esperança num Übermensch de Nietzsche se desfaz na vulgaridade de um marketplace de verniz futurista.

Embalado pelo desejo humano de eterno aperfeiçoamento, o Enhanced Games é obra da indústria cultural —hábil em embalar como novidade mercadorias requentadas. O evento é mais um a acotovelar-se na prateleira dos esportes em que o doping é estrutural —como no fisiculturismo— ou recorrente, como no Ultimate Fighting Championship (UFC) e na National Football League (NFL). O recorde que lhe importa bater é o de lucro dos congêneres.

Nenhum comentário: