Vou contar uma piada filosófica. Não se assuste.
Três filósofos alemães entram num bar lotado e barulhento: Carl Schmitt, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas. Qual deles é servido primeiro pelo barman alucinado do século 21?
Resposta: Habermas, é claro.
É essa a piada. Não tem muita graça, eu sei, exceto para nostálgicos que olham para o ruído do debate público com uma espécie de nojo profissional. Little Couto é um deles.
Nunca fui grande fã de Habermas, morto recentemente. Mas é difícil negar que ele tinha uma concepção refinada do debate público e um ideal inspirador sobre a conduta humana.
Era, no fundo, um otimista. Para ele, as democracias se sustentam quando existe comunicação racional entre cidadãos livres e iguais. As pessoas se encontram, interagem, apresentam argumentos, justificam suas posições —e só assim podem chegar a entendimentos razoáveis.
Para que isso funcione, Habermas apostava que somos melhores do que realmente somos: seres dispostos a participar na "esfera pública" sem as sujeiras habituais que definem a espécie.
Eu sou mais pessimista. Ou realista, o que dá no mesmo. A esfera pública, hoje praticamente inabitável, sempre foi um zoológico humano imperfeito, onde se discute pouco e se pensa menos ainda.
Mas as coisas pioraram. O objetivo declarado passou a ser mentir, manipular, vencer debates a qualquer custo —não buscar "entendimentos razoáveis".
Ainda assim, a proposta de Habermas oferece um tipo ideal de comunidade política, forjado sobre as ruínas da Alemanha do pós-Guerra, que nos coloca diante de uma escolha civilizatória: ou aprendemos a conversar e conviver uns com os outros —ou teremos finalmente razão, mas já não teremos país onde provar isso.
Habermas parece hoje ultrapassado pelos outros dois compatriotas.
Marcuse, também da Escola de Frankfurt, virou uma espécie de santo padroeiro da esquerda "woke", mesmo que muitos "wokes" nunca tenham lido uma linha dele. Diálogo? Conversa? Debate aberto e racional? Tudo ilusões das sociedades capitalistas, diria Marcuse.
O "mercado de ideias", expressão cara aos liberais e ridicularizada por ele em "Tolerância Repressiva", nunca foi esse espaço neutro onde diferentes concepções do bem competem entre si e a verdade emerge por seleção natural. Quem domina os meios econômicos e culturais tende a dominar também o espaço público, decidindo quem tem direito de fala.
Combater essa hegemonia pode exigir limites aos discursos dominantes, caso contrário, as vozes oprimidas jamais terão visibilidade.
A cultura de cancelamento, quase sempre embrulhada em bons sentimentos, é em parte filha dessa crítica: a exclusão de uns é vendida como condição necessária para a inclusão de outros.
A nova direita também gosta de filósofos alemães. Mas é Schmitt, não Marcuse nem Habermas, quem hoje brilha no firmamento neorreacionário. Para ele, a política não se define pela busca de consensos nem pelo diálogo racional. Chega de retórica liberal, que no seu entendimento explicava a decadência da democracia parlamentar de Weimar.
A distinção política fundamental é entre amigos e inimigos. Os estômagos liberais não aguentam essa verdade? Problema deles. O conflito é inerente à vida política e não há "teorias comunicativas" que o evitem na sua crueza primordial.
Quando está em jogo a sobrevivência da comunidade, o que importa não é o melhor argumento. É a capacidade soberana de decidir, inclusive suspendendo regras e garantias.
A conversa política contemporânea tem oscilado entre o cancelamento de Marcuse e o decisionismo de Schmitt —duas formas diferentes de negar o pluralismo das sociedades democráticas em que (ainda) vivemos.
Habermas tem poucos fãs hoje —e provavelmente seria o último a ser servido no caos barulhento do meu bar imaginário.
Ainda assim, sua mensagem, irrealizada e talvez irrealizável, permanece mais importante do que as seduções perigosas de Marcuse ou Schmitt. Porque capta uma verdade simples e incontornável: se não estamos dispostos a eliminar metade dos nossos compatriotas pela censura ou pela violência, teremos de aprender a viver com eles —a comunicar, a argumentar e, de vez em quando, a chegar a consensos temporários.
Em tempos de crise como o nosso, Marcuse ou Schmitt reaparecem como uma febre, vendendo soluções radicais para espíritos desesperados.
Mas, quando a febre passa e a ruína fica, é com o velho e entediante Habermas que teremos de reconstruir a casa comum. Mais uma vez.

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