Pode uma mulher trans representar todas as mulheres? É o debate que está lançado desde que Erika Hilton foi eleita para a presidência da Comissão dos Direitos da Mulher. Esse debate tem dois níveis: o primeiro é responder à pergunta "o que é uma mulher?", para definir se as mulheres trans fazem ou não parte dele. E o segundo é indagar sobre o que significa a representação na política institucional.
E o que é, afinal, uma mulher? Ao contrário do que alguns alegam, não há nenhuma divergência sobre os fatos da biologia nessa discussão. O debate é se o significado de mulher na sociedade é unicamente um fato biológico ou se inclui aspectos culturais construídos socialmente.
A ideia de mulher (ou de homem) evoca mais coisas do que apenas cromossomos e genitália, como papéis sociais, jeitos de ser e expectativas. É possível que você já tenha interagido com pessoas trans sem saber que elas eram trans —a biologia não determinou a identidade social nesses casos.
Essa multiplicidade de sentidos sobrepostos não é exclusividade dos gêneros. Vale para relações humanas como a parentalidade, por exemplo. O que é ser mãe ou pai? Pode ser tanto uma relação biológica —ter gerado alguém— quanto uma relação social —ter cuidado de alguém em seus anos de formação. Em geral, os dois caminham juntos. Mas às vezes as funções vêm separadas, como no caso de mães e pais adotivos. Imagine dizer que pai adotivo não é pai de verdade?
Mulher é um indivíduo humano de sexo ou gênero feminino. Esses dois aspectos podem caminhar juntos, mas às vezes vêm separados. Os conceitos humanos não designam essências imutáveis, ideias claras e distintas.
Em certos contextos —o médico, por exemplo— o sexo biológico é decisivo. Em outros, o que conta é a identidade social, a forma como a pessoa vive e é percebida. Mulheres cis e trans terão experiências diferentes em algumas áreas —saúde reprodutiva— e similares em outras —assédio no transporte público. Mesmo dentro do conjunto das mulheres cis há realidades profundamente distintas. Uma mulher negra e pobre enfrenta obstáculos que uma mulher branca e rica talvez nem imagine.
E isso nos traz ao segundo nível do debate. A insistência de que apenas um membro de uma identidade coletiva possa representá-la politicamente é um dogma identitário inviável. Para ficar no exemplo acima: uma mulher rica não sofre com a falta de creche pública ou de absorventes gratuitos nas escolas. No entanto, nada impede que ela lidere essas reivindicações. Ou, fora das pautas femininas: a maior liderança dos sem-teto em nosso país é Guilherme Boulos, que nunca foi sem-teto.
Isso não significa que a identidade não importa; apenas que não é o único critério —e nem o mais importante— para avaliar quem pode ocupar um cargo. Numa democracia, qualquer pessoa pode representar qualquer grupo; é o voto, e não a identidade, que cria essa relação. Um homem cis pode ter mais a dizer sobre bandeiras femininas do que uma mulher que nada fez pelo tema. Em vez de ficar na discussão filosófica de se Erika Hilton é uma mulher "de verdade", o debate mais produtivo seria indagar: ela tem contribuição relevante para a pauta das mulheres? Ela tem o perfil adequado para esse cargo de liderança?

Nenhum comentário:
Postar um comentário