Cuidado com as companhias, dizem as mães aos filhos. E diz Tony Blair, ex-premiê britânico, a setores da sua esquerda trabalhista que mantêm uma "aliança problemática" (expressão dele) com o islamismo radical.
O artigo, corajoso e lúcido, vem publicado no Sunday Times e começa com um fato elementar: o antissemitismo cresce na Europa com ataques permanentes a judeus, instituições e símbolos judaicos. Como é óbvio, o fenômeno pode ser ampliado a outras geografias.
A reação política tem sido modesta –e, entre a esquerda britânica (e não só), modestíssima. Como se os judeus fossem coletivamente responsáveis pelos atos de Binyamin Netanyahu. Aplicar esse raciocínio a todos os israelenses já seria problemático. Aplicá-lo a todos os judeus é uma aberração.
Israel não está acima da crítica. Nenhum país está. Os atos do seu governo podem e devem ser criticados, desde que não se passe o pano para os crimes do Hamas.
É isto o que explica, concede Blair, a aproximação entre dois blocos aparentemente tão distintos –a oposição a Israel–, ainda que Blair não estabeleça a diferença entre oposição política (da esquerda) e oposição existencial (do islamismo radical). Nem ele nem a esquerda que critica, claro.
Mas há um momento em que já não estamos a falar de críticas legítimas a Israel. Quando se atacam judeus, todos os judeus, quaisquer judeus, em qualquer país, apenas por serem judeus, estamos a ressuscitar uma velha besta que é difícil controlar.
Tony Blair tem razão. Os judeus, de fato, são um caso à parte. Seria absurdo perseguir muçulmanos ou hindus espalhados pelo mundo por causa dos comportamentos do Irã ou da Índia em matéria de direitos humanos. Seria até absurdo perseguir iranianos ou indianos pelos atos ou omissões dos aiatolás ou do nacionalismo de Narendra Modi. Razão pela qual não temos notícias de tais absurdos.
Com o antissionismo, as notícias abundam –e revelam o antissemitismo de sempre. É a primeira ironia histórica. A "aliança problemática" entre setores da esquerda e o islamismo radical tem conseguido o que a extrema direita, em larga medida, não conseguiu depois da Segunda Guerra Mundial: voltar a criar um ambiente tóxico de perseguição e medo que se julgava enterrado nas ruínas de Auschwitz.
Mas existe uma segunda ironia que escapou a Tony Blair: os setores da esquerda que ele denuncia, no seu limitado oportunismo, fazem lembrar os setores da direita tradicional que, nos últimos anos da República de Weimar, também viram uma aliança proveitosa com os nazistas. E por que não?
Como lembrava o satirista Karl Kraus, o antissemitismo era tão banal na "Mitteleuropa" que até os judeus o praticavam. Os nazistas só levavam esse ódio um pouco mais longe, mas seria possível controlá-los e, quem sabe, civilizá-los.
Foi isso que Franz von Papen comunicou a Hindenburg quando convenceu o presidente alemão a entregar a chancelaria a Hitler. Os nazistas eram infrequentáveis, sem dúvida, mas pelo menos eram anticomunistas e antissocialistas –e, pormenor fundamental, tinham os votos necessários para que a direita não perdesse poder, influência e negócios. Preciso mesmo contar o resto?
As escalas não são comparáveis, mas o mecanismo é familiar. A esquerda que Tony Blair critica comete o mesmo erro tático. Sim, herdou esquemas mentais que ajudam a compreender certas cegueiras. Por um lado, a velha associação do judeu ao capital, que Karl Marx tornou inesquecível, continua no subconsciente dos camaradas; por outro, a crítica ao "imperialismo israelense" nunca mais os abandonou depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 e da aproximação entre Israel e os Estados Unidos.
Mas a aliança também se explica por cálculo eleitoral. Durante décadas, o voto muçulmano foi um dos pilares silenciosos dos trabalhistas. Mas, a partir de 2024, as coisas começaram a mudar com a perda de milhares de votos em áreas com forte presença muçulmana.
Para recuperá-los, uma parte da esquerda acredita que é possível forjar novas maiorias cortejando líderes islamitas radicais com as flores do antissionismo. É uma tentação que não se limita ao Reino Unido: a busca desesperada por um "novo proletariado" que não fuja para a direita populista atravessa meia Europa de esquerda.
Um erro. Para além de isso ser insultuoso para os muçulmanos moderados que não se reveem nos pregadores do ódio, é um negócio que está condenado à partida.
Nunca são os radicais que se moderam –é o preconceito que se normaliza. O antissemitismo não é um efeito colateral. É o preço. E alguém está disposto a pagá-lo.

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