O grego Christos Papadopoulos, 44, estudou dança, teatro e ciência política. É o coreógrafo da hora. Criou "Mycelium" (micélio), em 2023, para o Balé da Ópera de Lyon. Assisti ao espetáculo durante a passagem da companhia por Nova York, em fevereiro.
"Mycelium" é uma coreografia "orgânica", inspirada nos micromovimentos da estrutura subterrânea dos fungos e suas ramificações pulsantes, em comunicação eletromagnética. São variações mínimas executadas por 20 dançarinos que evoluem, em rede, na penumbra, num fluxo de impulsos e interações milimétricas e repetitivas, como um corpo único e coletivo que se expande e se retrai ao som da música hipnótica do compositor e produtor musical Coti K. "É menos repetição do que evolução constante", diz o coreógrafo.
Faz pensar na personagem de "Sirât", de Oliver Laxe, que não vê repetição na música eletrônica que ela dança até a morte em festas no deserto.
É assustador como, diante da emergência dos fascismos, a reação contra o que é individual e singular, o que não se submete ao grupo, tende a ser imediata e consensual, muitas vezes disfarçada de crítica ao individualismo. É condição de possibilidade do florescimento dos fascismos que também a crítica seja desbaratada, despojada do que nela haveria de próprio, individual e exterior ao grupo.
A crítica depende da distância, de um ponto de vista exterior. O estranho e o estrangeiro são os primeiros bodes expiatórios desse movimento que parece exaltar as individualidades quando no fundo apenas as submete a uma necessidade coletiva, uniforme e unidirecional.
Avesso a todo nacionalismo (o que o levou naturalmente a também pôr o sionismo em questão), por entender que mais cedo ou mais tarde, para sobreviver, o grupo vai aderir às formas mais violentas de poder, Walter Benjamin via no fascismo um movimento intimamente ligado à ideia de progresso. Para ele, o fascismo só poderia ser combatido quando (e se) a ideia de progresso fosse abandonada.
A ideia de progresso faz que nos surpreendamos a cada nova aparição do fascismo, como se fosse a primeira vez que nos deparássemos com ele, paralisados diante de algo novo e inédito. O progresso é a ilusão de que o passado não se repetirá.
Se as redes sociais podem servir como armadilha e método dessa ilusão, é porque nelas o narcisismo é estimulado até as últimas consequências, como regra, até converter o individual no oposto do singular, modelo de reprodução em massa. A internet nos faz crer que nos distinguimos enquanto nos entregamos todos à mesma dependência e exposição.
Papadopoulos se refere à imagem de um trem para explicar sua coreografia, criação de uma "entidade em movimento, [...] em constante evolução, [...] mais vibração do que dança". Os passageiros num trem mantêm-se em princípio em relativa independência, com seus movimentos individuais, seus pensamentos e vontades próprios, mas "ninguém pode ir contra o andamento coletivo, ninguém pode estar fora do ritmo. [...] Como no fluxo dos pássaros ou dos peixes, há uma necessidade nesse movimento".
Os fungos têm servido com frequência de modelo na defesa e exaltação de uma outra forma de inteligência, coletiva e integrada, alternativa à razão individualista e à organização social autodestrutiva dos homens.
Se, por um lado, essa inspiração positiva se reflete na escolha e na consciência do coreógrafo, por outro, o resultado de sua dança é uma representação sufocante. E se há nela uma atualidade e uma urgência espetaculares, não é por nos mostrar uma saída, mas antes porque representa justamente o movimento invisível e imparável que nos arrasta à revelia para onde não queremos ir.
É a dança do progresso, mas também do fascismo. Essa "evolução infinita" na qual de repente nos vemos enredados e cuja interrupção já não depende nem da razão nem da nossa consciência individual.

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