domingo, 22 de março de 2026

A Nova Lei de Gérson, Ruy Castro, FSP

 Em 1976, Gérson, meia da seleção brasileira tricampeã do mundo, marcou época na TV com um comercial do cigarro Vila Rica, em que dizia: "Por que pagar mais caro se o Vila Rica me dá tudo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também. Leve Vila Rica". O Vila Rica, fabricado pela Reynolds, era barato mesmo: custava Cr$ 5 o maço contra os Cr$ 13 do Hollywood, da Souza Cruz. Mas a única pessoa que levou vantagem em fumar Vila Rica e está viva para contar é o próprio Gérson, 85 anos, tranquilo em Niterói e sem fumar desde 1999.

Gérson no comercial do cigarro Vila Rica, que gerou a chamada "lei de Gérson". - Divulgação/Divulgação

Mas foi uma dúbia vantagem. O bordão "levar vantagem" tornou-se sinônimo de malandragem, falta de ética, passar para trás. Criou-se a Lei de Gérson para definir esse comportamento. Mas Gérson, coitado, era apenas o garoto-propaganda do comercial. A frase pertencia à Salles Interamericana, agência que detinha a conta da Reynolds, e seu autor era o publicitário Jacques Lewkowicz. A Salles nem existe mais, mas Gérson nunca se livrou da frase.

Pois isso agora pode mudar —porque temos um novo Gérson e uma nova lei na praça. Trata-se de Gerson, ex-meia do Flamengo, vendido no ano passado ao Zenit, da Rússia, e já de volta ao Brasil, agora no Cruzeiro. Há tão pouco tempo, Gerson era o capitão do Flamengo, ídolo da torcida, o maior salário do clube e titular da seleção. Mas seu pai e empresário, o impopular Marcão, adora vendê-lo para a Europa. E, mais uma vez, Gerson foi, viu e não venceu. Na primeira, o Flamengo o quis de volta. Desta vez, nem pensar —mesmo porque ganhou tudo em 2025, Brasileiro e Libertadores, sem ele.

Jogador do Flamengo com camisa preta e vermelha listrada corre em campo. Ele usa braçadeira de capitão amarela no braço esquerdo e está focado no jogo. Fundo desfocado mostra torcida no estádio.
Gerson, em campo pelo Flamengo, durante a partida das oitavas de final do Mundial de Clubes contra o Bayern München - Michael Reaves - 29.jun.25/Getty Images via AFP

Flamengo e Cruzeiro se enfrentaram outro dia no Maracanã. Gerson foi vaiado por 60 mil pessoas que o amavam. Perdeu o jogo, seu clube está na lanterna e ele saiu da seleção. Ao ser substituído, podia-se vê-lo no banco de reservas, olhando para as arquibancadas e talvez se perguntando se levara alguma vantagem no que fizera.

É a Nova Lei de Gerson: "Como levar desvantagem em tudo". Certo?

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