Há uma trend nas redes sociais que diz mais ou menos assim: "eu tentando dormir e o meu cérebro só pensa…". Em seguida, um vídeo aparece na tela, mostrando alguma cena esdrúxula —um meme, uma música de qualidade questionável, uma curiosidade aleatória— indicando que era ele, o tema do vídeo, o responsável pela insônia do personagem inicial.
Sempre me identifiquei com a tal trend. Sou vítima do mesmo mal. Ao anoitecer, quando as crianças já foram dormir, meu cérebro considera o expediente encerrado e anseia não por dormir, mas por se vingar dos trabalhos que fora forçado a realizar durante o dia com distração barata —quanto mais acéfala, melhor.
Recentemente, meus momentos de insônia ganharam um hiperfoco: o esbanjamento de Daniel Vorcaro. O banqueiro picareta, dono do Banco Master, que está preso sob suspeita de uma série de crimes, entre eles fraude, lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção, obstrução de justiça e manutenção de milícia privada, era famoso por ostentar um estilo de vida condizente com os R$ 12 bilhões que ele é acusado de ter abocanhado.
Foi no noticiário, mais precisamente no podcast "O Assunto", da GloboNews, que ouvi Natuza Nery descrever o estilo de vida de Vorcaro como nababesco. Mas foi nas redes sociais que dei de cara com a materialização do estilo de vida opulento ou, como diria Milton Cunha, faraônico de Vorcaro.
Tratava-se do vídeo de seu noivado com a influenciadora digital Martha Graeff. O vídeo que circula nas redes mostra o casal apaixonado andando por um palácio na Itália: eles dançam ao som de espetáculos de música, desviam de malabaristas montados em pernas de pau, admiram fogos de artifício e se abraçam enquanto drones coreografados revelam declarações de amor no céu.
Meu choque ao ver o vídeo foi tamanho que permaneci nele bem mais tempo do que normalmente permaneceria. Meu algoritmo então tomou isso como um sinal de aprovação e passou a encher a minha timeline com vídeos de outros eventos igualmente nababescos promovidos pelo banqueiro vigarista.
Ao ver os registros, senti raiva de Vorcaro, em parte por atrapalhar meu sono, em parte pela facilidade com que transitou pelo poder, com que se beneficiou do sistema, com que enriqueceu às custas dos outros. No entanto, brasileira que sou, sinto que, no que diz respeito à falcatrua, não me surpreendo com mais nada.
De tudo o que vi, o que me chocou mesmo foi o nível de mau gosto com o qual me deparei. Nada poderia ter me preparado para tamanha cafonice. Era um tal de músculos explodindo na camisa apertada, marmanjos sem nenhum molho dançando em cima de mesas enquanto rodavam guardanapos no ar, garrafas de champanhe douradas que soltavam fogo.
Me choquei, mas, pensando bem, não deveria. Vorcaro apenas mirou no senso estético deste grupo do qual queria tanto fazer parte: o de bilionários. Talvez tenha se inspirado em Jeff Bezos, dono da Amazon, que consegue, com sua mulher, se vestir de alta costura dos pés à cabeça e ainda assim estar mal vestido.
O denominador comum dessa galera parece ser a máxima: tão pobre que a única coisa que tinha era dinheiro. No caso de Vorcaro, ainda pior: dinheiro que nem era dele.

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