segunda-feira, 9 de março de 2026

Com a multiplicação de motos, pedestres não têm vez, Alvaro Costa e Silva FSP

 

No início do ano, Julian Barnes publicou "Departure(s)", mistura de ensaio e ficção tematizando memória, vida e morte. O escritor inglês tem 80 anos e sofre de uma forma rara e incurável de câncer no sangue. Em entrevista ao jornal Observador, de Portugal, ele brincou ao falar da obra que marca sua despedida da literatura: "Sinto um certo alívio por ter escrito o meu último livro como queria e por não ter sido atropelado por uma bicicleta elétrica".

Barnes tem sorte, mora em Londres. Se vivesse em uma grande cidade brasileira, com tanto trabalho para desviar-se de motos na contramão e nas calçadas, talvez não conseguisse concluir seu livro.

Levantamento do Departamento de Trânsito de São Paulo encomendado pela Folha mostrou o aumento de mortes de pedestres atropelados por motocicletas. No estado, o número entre 2022 e 2025 passou de 145 a 202; na capital, o total subiu de 38 mortes em 2023 para 66 em 2025.

No Rio de Janeiro, ciclovias, ruas e calçadas são espaços anárquicos, onde motos, bicicletas e autopropelidos —patinetes e motinhas elétricas de rodas pequenas, muitas das quais usadas por adolescentes e marmanjões descuidados— disputam centímetros com outros veículos e com pedestres de olhos arregalados de atenção e medo.

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Moto sobre faixa de pedestres no cruzamento da avenida Rebouças com a Henrique Schaumann, em São Paulo - Zanone Fraissat - 28.jan.26/Folhapress

Quem manda é quem está sobre duas rodas, desrespeitando os sinais de trânsito, os limites de velocidade e a mão de direção. Não há fiscalização, mesmo com todo o aparato de varredura digital, multiplicação de câmeras de monitoramento e incorporação de tecnologias de inteligência artificial. Os olhos eletrônicos, garantem as autoridades, são armas a favor da segurança pública. Mas não valem para a segurança urbana.

Velozes donos das ruas, motociclistas não só matam como principalmente morrem. Segundo dados do Ministério da Saúde, pessoas em motos representaram 41,7% do total de mortes no trânsito em 2024 ante 39% em 2023. Quantas delas trabalham em serviços de entrega por aplicativos, tarefa que obriga chegar mais rápido ao destino para ganhar mais?

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