quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Morrendo de véspera, Ruy Castro - FSP

 Meus amigos têm a mania de morrer antes da hora. Telmo Martino me ligava e dizia: "Ruy Castro, aqui é Telmo Martino, vivendo seus últimos dias". Telmo, uma celebridade da imprensa de São Paulo nos anos 1970 e 80, sofria mesmo de uma depressão braba. Mas só morreria em 2013, dez anos depois daqueles telefonemas. E Carlos Heitor Cony adorava assustar as pessoas dizendo-se "um homem terminal", apenas porque acabara de extrair um tumor de próstata. O ano era 1988 e Cony viveria mais 30 anos.

Em 1988, eu era colaborador numa revista de companhia aérea. Por algum motivo, precisei citar num artigo o imperador japonês Hiroíto, então com 87 anos e nas últimas, cotado a fechar o quimono a qualquer momento. Como a revista era trimestral e feita com muita antecedência, calculei que, nos quatro ou cinco meses até que ela chegasse aos aviões, ele já estaria mais do que morto. Daí tratei-o no texto como o "recentemente falecido imperador Hiroíto". Pois não é que Hiroíto sobreviveu ao meu artigo e só foi morrer meses depois de saída a revista?

Em 1989, a Folha me pediu um obituário de Dercy Gonçalves. É uma praxe da imprensa: deixar preparados artigos sobre celebridades mais idosas resumindo sua vida e obra para saírem quando o inevitável acontecer. Naquele ano, Dercy já estava com 84 anos. Bem, ela não apenas ainda desfilou com os (bonitos) peitos de fora pela Viradouro no Carnaval de 1991 como só foi morrer em 2008, aos 103. Eu é que quase bati as botas em 2005 —três anos antes dela.

O único a escolher a hora certa foi o livreiro Manuel Pinho, dono do sebo Elizart, na avenida Marechal Floriano, aqui no Rio de Janeiro. Em 2012, Manel, grande carioca e Flamengo, sabia que estava por dias. Mas não queria ir embora antes da partida do Flamengo na quarta-feira contra o argentino Lanús, pela Libertadores. E se segurou. Poucos minutos antes do jogo, me telefonou: "Imagine se eu ia morrer de véspera que nem peru!". Assistiu ao jogo pela TV e, uma hora depois, partiu, feliz da vida.

O Flamengo vencera por 3x0.

Parcela da população com ensino superior quase triplica; índice é inferior a 20% no Brasil, diz Censo, FSP

 Leonardo Vieceli

RIO DE JANEIRO

A parcela da população brasileira com ensino superior completo quase triplicou desde 2000, mas ainda é inferior a 20% do total de habitantes de 25 anos ou mais, apontam novos dados do Censo Demográfico 2022 divulgados nesta quarta-feira (26) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em 2000, 6,8% das pessoas dessa faixa etária tinham concluído a graduação. A parcela com ensino superior completo avançou a 11,3% em 2010 e seguiu em crescimento na década seguinte, até alcançar a marca de 18,4% em 2022.

Esse percentual significa que, de um total de 133,1 milhões de pessoas de 25 anos ou mais no país, 24,5 milhões haviam concluído a graduação —mais do que a população inteira de Minas Gerais no mesmo ano (20,5 milhões). O grupo era de 5,8 milhões em 2000 e de 12,5 milhões em 2010.

Ao mesmo tempo, diminuiu a proporção de pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto. Essa fatia representava 63,2% da população de 25 anos ou mais em 2000 (mais da metade). O percentual caiu para 49,3% em 2010 e 35,2% em 2022.

Ainda assim, o grupo segue mais representativo. Em 2022, voltou a superar as parcelas com fundamental completo e médio incompleto (14%), com médio completo e superior incompleto (32,3%) e com superior completo (18,4%).

"É bastante evidente que houve uma expansão [do ensino superior], mas esse grupo ainda é minoritário", afirmou Bruno Perez, analista do IBGE responsável pela apresentação dos dados.

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O pesquisador destacou que pessoas mais velhas tiveram mais dificuldades no acesso à área de educação no passado. Isso, segundo Perez, ajuda a entender o fato de o ensino superior completo ainda permanecer abaixo de 20% da população de 25 anos ou mais.

"Tem uma população envelhecida para a qual o acesso à educação foi mais difícil na juventude. Essa população mais velha também pesa no estoque", disse.

Em 2022, o número médio de anos de estudo foi calculado em 11,8 para as pessoas de 25 a 29 anos de idade. Trata-se de um patamar bem acima dos 4,9 anos de estudo da população mais envelhecida (80 anos ou mais de idade).

"Tem ocorrido uma melhora dos indicadores educacionais no Brasil nas últimas décadas. O filme é positivo, porque a escolaridade vem crescendo, mas a fotografia ainda é muito ruim", diz André Salata, coordenador do laboratório de estudos PUCRS Data Social, a partir de outras pesquisas já realizadas na área.

"A fotografia é ruim porque, se a gente fizer uma comparação com outros países de desenvolvimento similar, o nível educacional da população brasileira ainda é mais baixo", completa.

Na visão de Salata, diferentes programas contribuíram para ampliar o acesso ao ensino superior no Brasil nas últimas décadas.

Alguns exemplos, segundo ele, são o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), o Sisu (Sistema de Seleção Unificada), o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o Prouni (Programa Universidade para Todos) e a política de cotas em universidades.

expansão da modalidade EAD (educação a distância), diz o pesquisador, também teve um impacto mais recente. A proliferação de cursos do tipo "sem muita regulação", no entanto, acende alerta sobre a qualidade da aprendizagem, afirma Salata.

A imagem mostra um ambiente de estudo com várias mesas. Em primeiro plano, uma mulher com cabelo cacheado está sentada e concentrada em seu trabalho. Ao fundo, outras pessoas também estão sentadas. O espaço é bem iluminado.
Movimentação no prédio de ciências sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP - Pedro Affonso - 27.nov.24/Folhapress

DESIGUALDADE ENTRE BRANCOS E PRETOS E PARDOS

Mesmo com os avanços, os números do Censo sinalizam que o ensino superior ainda apresenta desigualdades no Brasil. Entre os brancos, a parcela da população de 25 anos ou mais que havia concluído a graduação aumentou de 9,9% em 2000 para 25,8% em 2022.

O percentual de 25,8% é mais que o dobro dos registrados entre pretos (11,7%) e pardos (12,3%) no mesmo ano. Em 2000, a parcela com ensino superior era de apenas 2,1% entre os pretos e de 2,4% entre os pardos.

"Expansão do sistema de ensino não significa, necessariamente, democratização. Isso acontece porque quem se aproveita mais e primeiro das oportunidades abertas são jovens e crianças de famílias com mais recursos econômicos e culturais, que permitem a eles boas notas no Enem e no vestibular, por exemplo", aponta Salata.

Desigualdades regionais também aparecem nos números do IBGE. Em 2022, o Centro-Oeste mostrou a maior proporção de habitantes de 25 anos ou mais com graduação (21,8%), superando o Sudeste (21%), que estava à frente em 2010, e o Sul (20,2%). O trio tem percentuais maiores do que os verificados no Norte (14,4%) e no Nordeste (13%).

ENSINO SUPERIOR ALCANÇA 37% NO DF E 11,1% NO MA

No recorte das unidades da Federação, a liderança fica com o Distrito Federal. Em 2022, 37% da população local de 25 anos ou mais tinha ensino superior. São Paulo é o segundo da lista, com 23,3%.

O outro extremo do ranking é ocupado pelo Maranhão, que tem a menor taxa do país: 11,1%. Em 2000, o percentual local era de 1,9%.

Em outro estado nordestino, o Piauí, 49,1% da população de 25 anos ou mais (quase a metade) não tinha instrução ou contava com o fundamental incompleto em 2022, aponta o IBGE. É a maior proporção do país. A menor foi verificada no Distrito Federal (19,2%).

Ainda de acordo com o levantamento, em 3.008 cidades, ou seja, na maioria dos municípios brasileiros, mais da metade da população de 25 anos ou mais não tinha instrução ou apresentava somente o fundamental incompleto.

Outro recorte destacado pelo IBGE abrange os municípios com mais de 100 mil habitantes no país. Nessa comparação, São Caetano do Sul, no ABC Paulista, teve a maior proporção de moradores de 25 anos ou mais com ensino superior concluído: 48,2%. Já o menor patamar foi de 5,7% em Belford Roxo, região metropolitana do Rio.

DADOS SÃO AMOSTRAIS

Os dados divulgados nesta quarta foram levantados de modo preliminar a partir do questionário da amostra do Censo. Esse questionário coleta informações mais detalhadas e é aplicado junto a uma parcela de cerca de 10% dos habitantes.

Os resultados amostrais exigem uma ponderação, recebendo diferentes pesos por meio de técnicas estatísticas para que se tornem representativos da população total. Os números, conforme o IBGE, ainda estão sujeitos a pequenos ajustes, mas sem grandes mudanças no cenário já revelado.

Machado de Assis e os 125 anos de 'Dom Casmurro', o romance de sua origem, Tom Farias - FSP

 Sou leitor de Machado de Assis desde a minha juventude. Li praticamente todos os seus livros –alguns relidos por tão saborosos e criativos. Comecei essa jornada com os 31 volumes deixados por meu pai Enes de Oliveira Alves. Meu pai morreu quando eu tinha oito anos, em 1969, nem sei se chegou a ler todos esses livros, relíquias que guardo até os dias de hoje, coleção luxuosa publicada pela editora W. M. Jakson, de capa dura verde, da década de 1950.

Adentrei o universo machadiano e dele jamais saí. Os livros do Machado passaram a pertencer em minha vida à categoria de obras universais, que são lidas por qualquer geração, em qualquer tempo de nossa história.

Fotografia em preto e branco é retrato de Machado de Assis , visto da cintura para cima. ele é um homem negro, de cabelos pretos curtos e ondulados. ele tem uma barba preta espessa.
Machado de Assis, em foto feita por Marc Ferrez em 1890 - Marc Ferrez/Domínio público

Um desses livros é o romance "Dom Casmurro", publicado por Machado em 1900, embora o livro tenha sido impresso no ano anterior, em Paris, pela editora francesa H. Garnier, uma das mais prestigiadas daquela época, que tinha sede na chamada Corte do Rio de Janeiro.

O romance "Dom Casmurro" completa agora 125 anos de publicado, mas é, certamente, um dos livros mais atuais de nossa moderna literatura. É impossível não o ler sobre indagações e questionamentos, dúvidas e elucubrações a partir da relação de Bentinho, Capitu e Escobar.

A ideia central da narrativa se dá pelo fato se Capitu (Capitolina) traiu ou não Bentinho, ou Bento Santiago, com quem a personagem se casa e tem um filho, Ezequiel, sobre quem o marido carrega a suspeição de ser não natural dele, mas do melhor amigo Escobar.

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Este enredo é mais forte do que toda a história em si, daí seu cunho universal. Machado de Assis, sob a lógica patriarcal do século 19, coloca o testemunho dos acontecimentos na boca do marido traído –ou seria um ciumento contumaz?

Trazendo para o âmbito da psicologia do casal, o autor aloca toda dúvida sobre a fidelidade do relacionamento sob a suspeição de Capitu, recaindo em Bentinho a pecha do "marido traído", e não, fora de dúvidas, do homem obsessivo atrás de uma prova que não tem condições de sustentação.

Se Capitu fosse uma mulher do século 21, ela iria para as redes sociais e saberia dar as respostas necessárias às desconfianças de Betinho e, obviamente, mudaria o curso da história.

Então, na perspectiva da visão de Capitu, certamente, teríamos de fato outra história –talvez um novo livro, quem sabe com título também diferente. Ao mesmo tempo, "Dom Casmurro" tem algo de nebuloso, confessional e cínico: Machado de Assis desde sua juventude assemelha-se um pouco a Bentinho e Capitu –um misto de homem "caramujo" e "olhos de ressaca".

Mas eu tenho que respeitar o que disse alhures Marco Lucchesi sobre o Bruxo do Cosme Velho: "Cada um de nós traz uma ideia vaga de Machado". Eu trago a minha ideia; o leitor desta coluna, com certeza, traz a dele.

Machado de Assis morreu no mês de setembro de 1908, aos 69 anos, na sua casa do bairro do Cosme Velho, quatro anos depois de sua esposa e companheira, Carolina Augusta Xavier de Novais.

O certo que Machado de Assis é autor de todos os tempos. Seu gênio literário é captado por nós já na primeira leitura de seus textos, sobretudo nos contos e romances.