terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Os ovos podres do protecionismo fazem mal ao consumidor, Maria Inês Dolci, FSP

 Maria Inês Dolci

As primeiras semanas de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos intensificaram a tendência de protecionismo econômico em contraposição à globalização. E nós com isso, poderia perguntar um leitor desavisado. Se todos os países reagirem com mais restrições ao comércio internacional, a vida vai ficar mais cara também no Brasil. E talvez os ovos sumam dos pratos nos Estados Unidos.

Uma placa amarela em uma prateleira de supermercado informa aos clientes sobre a limitação na compra de ovos. O texto diz: 'Dear Customers, Due to ongoing issues with the supply of EGGS, we kindly ask you to limit your purchase to ONE DOZEN eggs of any kind. We hope to have this resolved soon. Until then, we appreciate your understanding. THANK YOU!'. Ao fundo, há caixas de ovos e outros produtos alimentícios.
Placa em supermercado em Merrick, nos EUA, avisa sobre limite para compra de ovos a uma dúzia por cliente - Shannon Stapleton - 10.fev.2025/REUTERS

Hoje, produtos como automóveis têm sua fabricação dividida em partes e peças de vários países. Isso também ocorre na tecnologia da informação, em vestuário e calçados. Portanto, se todos os países brigarem por superávit na balança comercial, o consumidor vai sofrer pelo mundo afora.

É o caso da resistência de países como a França a um acordo entre União Europeia e Mercosul. Não é raro que países europeus subsidiem seus agricultores e pecuaristas para evitar o êxodo rural. Além disso, dificultam as importações de alimentos de exportadores como o Brasil, encarecendo a comida.

Espero que as ações belicosas de Trump estimulem os europeus a fecharem logo um acordo com o Mercosul. E que a China continue comprando soja, milho, açúcar e carne bovina do Brasil, dentre outros produtos.

O fechamento econômico de um país em suas fronteiras reforça um nacionalismo exagerado e isso também abre as portas para visões menos universalistas do mundo. Ou seja, para conflitos mais ou menos graves.

Isso não significa que um país não possa ou que não deva ter políticas especiais para fortalecer áreas produtivas de acordo com os interesses de sua população. Nem que tenhamos de zerar as tarifas de itens produzidos por países ricos, que detenham alta produtividade e tecnologia, dificultando o crescimento da indústria brasileira.

Trata-se de equilibrar o jogo do comércio sem prejudicar o consumidor, que, evidentemente, quer os melhores produtos por preços mais acessíveis.

Há, também, o aspecto tecnológico, pois, como já observei, diversos produtos demandam itens produzidos em vários países. Taiwan, por exemplo, é responsável pela fabricação da maioria dos chips utilizados mundialmente.

Em situações críticas, fica claro como as nações são interdependentes. Em janeiro último, os Estados Unidos importaram mais 62% de ovos brasileiros, pois sofrem com a queda de abastecimento e com preços elevadíssimos devido à gripe aviária.

Se também fossem protecionistas para proteger os avicultores daquele país, as famílias norte-americanas teriam de excluir ovos de sua dieta.

Por aqui, a propósito, enchentes, secas e o aumento das exportações também dificultam a compra de ovos pelos brasileiros. A Abras (Associação Brasileira de Supermercados) informou que, em algumas regiões do país, os preços dos ovos subiram até 40% desde a segunda quinzena de janeiro último! E temos visto caixas de ovos com menos unidades, vendidas bem caras!

Portanto, governos podem acreditar e gostar do protecionismo, mas, para os consumidores, essa política sempre é sinônimo de altos preços e de redução do poder aquisitivo.

É preciso delimitar o poder das guardas municipais, Editorial FSP

 

Agentes da Guarda Civil Metropoliana durante operação na cracolândia, em São Paulo (SP) - Danilo Verpa - 28.abr.23/Folhapress

Guardas municipais podem atuar como políciadecidiu na quinta-feira (20) o Supremo Tribunal Federal, entretanto o debate sobre o tema ainda não está encerrado.

Como a corte demarcou limites ainda nebulosos, cabe aos demais poderes regular na prática a atribuição de policiamento para evitar conflito de competências com as polícias militares, subordinadas aos governos estaduais.

Na última década, em resposta ao anseio legítimo da sociedade por segurança efetiva, guardas municipais expandiram a função de proteção do patrimônio público, prevista na Constituição. Das 22 atuantes em capitais, 20 estão armadas e algumas, como a de São Paulo, contam até com fuzís.

Em 2023, o STF já havia confirmado que essas corporações integram o Sistema de Segurança Pública. O diferencial de sua última decisão neste mês é que, agora, municípios podem atribuir em lei a competência de segurança a suas guardas, incluindo policiamento ostensivo e comunitário.

Impulsionando essa mudança, há dois movimentos: de um lado, o interesse eleitoral de prefeitos para contar com agentes sob sua autoridade e, de outro, um debate sério sobre como promover políticas integradas no setor.

Mais importante é esclarecer onde começa e onde termina o poder dessas forças no trato com a população e como será sua relação com as polícias estaduais.

Ademais, a ampliação do raio de ação das guardas municipais, por si só, não resolverá os vários problemas em segurança.

Os dados referentes ao trabalho dessas forças ainda são opacos, diferentemente das polícias, que, apesar das falhas, instituíram a divulgação sistemática de números sobre letalidade.

Apenas aumentar o efetivo de homens não reduz a criminalidade. É necessário implementar protocolos de uso da força, cadeias de comando e responsabilidade, distribuir agentes no território das cidades com base em evidências, além de investir em tecnologias e inteligência investigativa —subutilizada em prol de grandes operações que não raro descambam em violência.

Ações de zeladoria das prefeituras em iluminação, sinalização e pavimentação, principalmente em regiões mais vulneráveis, também se mostram positivas para a segurança da população.

Embora o Supremo afirme que as competências das guardas municipais não podem se sobrepor às atribuições investigativas e ostensivas das polícias civil e militar, é preciso atenção para que guardas civis, cada vez mais armadas, não se tornem uma versão menos treinada das polícias.

editoriais@grupofolha.com.br

A direita radical cresce mesmo onde parecia improvável, Wlison Gomes, FSP (definitivo) Estado do Mundo.

 A eleição de domingo para o Parlamento Alemão deve, enfim, encerrar qualquer dúvida sobre o fato de que, nas grandes democracias da América e da Europa, o voto na extrema direita está consolidado. Ou não?

Não há dúvida de que a AfD —que dobrou de tamanho entre uma eleição e outra e foi a legenda preferida de um em cada cinco alemães— é um partido extremista de direita, tanto no discurso eleitoral quanto na proposta política. Dificilmente se pode ser mais radical à direita do que ele, dentro dos limites das regras da democracia liberal. Além disso, não se pode subestimar o fato de que esse crescimento ocorreu na Alemanha, um país onde, devido à memória de sua tragédia política no século 20, qualquer discurso extremista de direita dispara mil alarmes.

Nem mesmo se pode recorrer, com a mesma plausibilidade, à hipótese de uma manipulação digital desgovernada das pobres almas iletradas e desinformadas pelos discursos extremistas. Os alemães nunca revelaram a mesma paixão de brasileiros e americanos pela plataformização das interações sociais. Além disso, mantêm alguns poucos jornais e telejornais como principal fonte de informação e possuem uma das legislações mais rigorosas do mundo sobre dados e comportamento online.

Claro, ainda há quem explique mudanças eleitorais e viradas políticas exclusivamente com base em fatores econômicos. A percepção de uma crise econômica sem precedentes nesta geração certamente bagunçou os cálculos eleitorais dos alemães. Também há fatores sociais importantes, como a leitura coletiva, amplamente disseminada, sobre o impacto da convivência com tantos migrantes. Mas, se isso explica por que houve uma mudança, não ajuda a entender por que essa mudança resultou em uma guinada para a ultradireita nem por que a maior democracia europeia deixou de ser uma resistência ao canto da sereia da direita radical.

Na ilustração em bico de pena em tons marrons, um braço direito (do cotovelo para abaixo) segura uma alça de mala, é um outro braço também direito, bem maior, na horizontal. O braço-mala está apontando com o dedo índice para a direita... com a unha pintada nas cores da bandeira de Alemanha. A ilustração não tem fundo.
Ariel Severino/Folhapress

Se nem a Alemanha, com suas rigorosas cláusulas de barreira, que evitam surtos de aventureirismo político e protegem suas instituições, conseguiu resistir ao impacto dos novos ventos, talvez seja hora de considerar seriamente que o extremismo de direita entrou no sistema das democracias liberais. Falta ainda alguma coisa para que se possa dizer que as populações desses países decidiram considerar a extrema direita como uma alternativa política normal em seu consumo eleitoral?

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Além disso, na Alemanha e na França, duas coisas curiosas aconteceram. De um lado, foram os tradicionais partidos de direita que apareceram como principal contenção eleitoral às ofertas radicais, enquanto os partidos de centro-esquerda se tornaram opções esquecidas. Essa contenção implica, no entanto, assumir algum compromisso com pautas populares dos radicais, ainda que de forma mitigada.

De outro lado, há um voto de esquerda que também se radicaliza, principalmente entre os mais jovens —embora em menor escala do que a virada à ultradireita. Isso sinaliza que, mais do que uma guinada conservadora, há um movimento em direção ao radicalismo, ao antissistema e à rejeição do convencionalismo político.

A esta altura, a questão importante já não pode mais ser se é legítimo considerar natural a extrema direita como alternativa eleitoral e política. Os eleitores de quase todas as maiores democracias dos dois continentes já decidiram que sim, independentemente de o quanto colunistas e intelectuais vejam nisso um crime de lesa-democracia.

A realidade é quem põe os pratos na mesa e escolhe o cardápio, não o nosso desejo. O que realmente importa, para quem se ocupa da extrema direita como fato político, é se as pessoas estão de fato apostando em saídas políticas não convencionais e radicais, seja de direita, seja de esquerda, ou se simplesmente preferem explicações, interpretações e narrativas radicais e não convencionais —ainda que nem todas impliquem, deliberadamente, uma aposta em soluções antidemocráticas.

Caso esta última hipótese seja considerada, então as perguntas a serem feitas são: em que problemas da ordem da realidade esses eleitores estão prestando atenção e por que nós não? Por que eles preferem as explicações e interpretações fornecidas pelos extremos e não os diagnósticos convencionais da direita e da esquerda? Por que a defesa dos combinados democráticos está sendo negligenciada ou subestimada em suas preferências eleitorais diante das narrativas e interpretações radicais?

Não basta rejeitar e condenar o radicalismo —é preciso entender por que seus diagnósticos e propostas ressoam tão profundamente e o que eles enxergam que os demais insistem em ignorar.