domingo, 23 de fevereiro de 2025

O cravo e a ferradura do Supremo Tribunal Federal, Marcelo Leite, FSP

 Gilmar Mendes iria presidir nesta segunda (24) o último encontro da comissão especial que inventou para relativizar o direito de povos indígenas às suas terras, mas adiou os trabalhos por 30 dias a pedido da AGU. A Constituição diz que tal direito é originário, precede a própria carta, mas o decano do Supremo Tribunal Federal (STF) entende que ela autoriza negociá-lo.


O ministro compilou uma minuta de lei complementar arbitrando o "conflito operado entre as posições do STF", que negou a tese do marco temporal, "do Congresso Nacional, sedimentada na lei 14.701/2023 [marco temporal], e da sociedade brasileira, representada por indígenas e não indígenas".

"Sociedade brasileira" é construção duvidosa, diante das investidas ruralistas contra povos originários. O ministro escreveu que ela "se fez representada e ouvida em escuta ativa e respeito às diversidades culturais, sociais e econômicas de todas as [sic] matizes políticas".

A imagem mostra um homem com óculos e cabelo calvo, vestido com um terno escuro e uma gravata clara, sentado em uma mesa. Ele parece estar em uma reunião ou discussão. Ao fundo, há adereços coloridos, predominantemente amarelos e vermelhos, que estão desfocados, criando um contraste com a expressão séria do homem.
Gilmar Mendes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), durante reunião com indígenas, em Brasília - Adriano Machado - 5.ago.2024/Reuters

Não se pode chamar de "escuta ativa" uma câmara de conciliação em que indígenas seriam minoria e da qual decidiram ausentar-se. Não há conciliação quando as partes não estão em igualdade, com titulares de direitos originais submetidos a interessados em usurpá-los.

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) abandonou as reuniões em agosto. Representando 279 etnias, considerou "que dali poderia sair um dos maiores retrocessos da política indígena desde 1988".

Não chega a configurar excludente de ilicitude que o Ministério dos Povos Indígenas tenha participado das reuniões, pois há muito eles não são mais tutelados pelo Executivo. O MPI, de todo modo, repudiou o projeto de Gilmar por incluir disposições sobre mineração que não resultaram de "construção conjunta".

Soa hipocrisia autocongrulatória, assim, dizer que a comissão buscava a "cocriação de soluções, em uma ambiência de governança colaborativa judicial". É comum o juridiquês pernóstico servir como verniz de justiça, mas tal enormidade merece atenção de Madame Natasha (com a vênia de Elio Gaspari).

Interessados em explorar terras indígenas se apegam à brecha no parágrafo 6º do art. 231 da Constituição: "São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto [...] a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União" (grifo meu).

A minuta de Gilmar define que "constituem relevante interesse público da União [...] as seguintes atividades: atividades de segurança nacional e proteção sanitária; obras de infraestrutura destinadas aos serviços públicos de transporte, sistema viário, saneamento, energia, telecomunicações, radiodifusão e a exploração de recursos minerais estratégicos; e atividades e obras de defesa civil".

Nesses casos, diz a proposta, a Presidência da República poderá decidir seguir com a exploração mesmo quando a comunidade indígena for contrária. Às favas com o "direito à consulta livre, prévia, informada de boa-fé". Bastam a autorização do Congresso e a cobiça de cupinchas em governos municipais e estaduais.

Perpetua-se assim a violência colonial que autoriza detentores do poder maior a atropelar o direito natural de quem os precede na posse e no usufruto do território. É isso que o STF chama de justiça?

Inteligência artificial Poliana: e se tudo der certo?, Ronaldo Lemos, FSP

 Ronaldo Lemos

SÃO PAULO

A maioria das análises sobre IA (inteligência artificial) foca o lado negativo. Mas e se essa tecnologia for realmente benéfica? E se tudo der certo e, à moda Pangloss, vivermos no melhor mundo possível? Em texto recente, chamado "Machines of Loving Grace", Dario Amodei faz esse exercício. Amodei é CEO e cofundador da Anthropic, que desenvolve o Claude, concorrente do ChatGPT.

Na visão dele, a IA traz vários fatores benéficos. O primeiro é acelerar a revolução científica. A IA poderia comprimir um século de avanços científicos em uma década. Um exemplo é sua aplicação para análise de proteínas, com o AlphaFold, do Google. Ou ainda, para desenvolver novos medicamentos, prever interações químicas e criar terapias personalizadas.

Ilustração minimalista em fundo laranja-terroso. Uma mão em silhueta preta aponta para um cursor de mouse branco. Pequenos traços pretos acima do cursor sugerem um clique ou interação.
Ilustração representa interação entre comando humano e cursor digital, nova função do sistema Claude - Anthropic/Divulgação

O impacto aconteceria também na neurociência. Novas interfaces neurais, integradas com IA, poderiam tratar transtornos como depressão, esquizofrenia e distúrbios pós-traumáticos.

Na economia, tudo também pode dar certo, com a IA promovendo crescimento especialmente nas regiões mais pobres. O argumento de Amodei é que a história tem muitos casos em que novas tecnologias estão por trás das ondas de desenvolvimento. A IA poderia otimizar cadeias de suprimentos, melhorar a produtividade agrícola, reduzir desperdícios e tornar infraestruturas mais eficientes.

Na educação, a IA funcionaria como um "tutor" personalizado para o aprendizado, democratizando o acesso ao conhecimento e acelerando a qualificação de mão de obra em países em que o sistema educacional é fraco (alô, Brasil). Outro benefício seria sua capacidade de combater a corrupção ao aumentar a fiscalização e a eficácia dos gastos públicos.

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Na versão otimista de Amodei, a IA estabiliza a política. A tecnologia poderia fortalecer a democracia, combatendo a desinformação e melhorando a tomada de decisões. A IA poderia também ajudar a desenvolver políticas públicas baseadas em dados e evidências reais.

No entanto, Amodei alerta para o risco de a IA também poder ser usada como ferramenta de opressão. Sistemas de vigilância massiva e manipulação da informação seriam o avesso de tudo isso. O desafio é garantir que democracias usem a tecnologia para proteger direitos e liberdades, em vez de miná-los.

Até no trabalho o impacto seria positivo. Amodei acredita que, a curto prazo, a IA aumentará a produtividade e criará novas ocupações. A longo prazo, porém, a economia vai precisar de uma nova estrutura, com modelos de renda básica universal e formas de distribuição de riqueza.

Nesse contexto, o significado do trabalho precisará ser repensado. As pessoas terão de encontrar propósito fora dele (algo que o Brasil já faz bem e pode ensinar para o mundo). E será necessário pensar em um mundo onde o trabalho tradicional pode se tornar opcional.

Amodei acredita que a IA pode ser a maior força de progresso da humanidade. Para ele, se conseguirmos guiar a IA no caminho certo, a próxima década trará um salto único, sem precedentes na história.

Assinado: Poliana.

Reader

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Inflação para presidentes: um curso em quatro módulos sobre como evitá-la, Fabio Gallo, OESP

 


Esta semana tivemos a feliz surpresa com a inflação de janeiro. O IPCA foi de 0,16%, a menor taxa para o mês desde o início do Plano Real, em 1994. O índice caiu principalmente devido à redução de tarifas de energia elétrica resultante do bônus de Itaipu. Mas não podemos nos enganar, acreditando que a fera foi dominada – o IPCA de janeiro está escondendo problemas estruturais, que irão manter a inflação alta nos próximos meses.

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Por seu lado, o presidente Lula e outras autoridades culpam os supermercados pela alta dos alimentos e dão dicas de como reutilizar pó de café e de outras mudanças de hábitos alimentares. Noutra frente, culpam o Banco Central pela alta de juros. Dizem que o governo está ajudando no controle da inflação com medidas sociais e incentivo ao crescimento econômico. Esquecem de falar nos gastos elevados do governo e desconsideram a inflação de serviços.

Mas esse hábito de culpar os outros pelos problemas não existe somente aqui. Nos EUA, o presidente Trump diz que a inflação é culpa de Biden e começa a aumentar as tarifas de importação para proteger os americanos da alta dos preços. Quer também cortar impostos para estimular a economia sem aumentar o endividamento e, ainda, diz que o Fed (banco central americano) tem de baixar os juros. Em resumo, Trump promete acabar com a inflação, mas suas políticas protecionistas e de cortes de impostos vão, na prática, aumentar os preços e pressionar o Fed.

Isso nos leva a pensar que poderia ser criado um curso bem didático, até com desenhos, para ensinar presidentes a combater a inflação. O título seria: Inflação para Presidentes: Como Não destruir a economia.

O curso seria composto de módulos:

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  1. O que é inflação e por que ela é um problema;
  2. O que REALMENTE causa inflação;
  3. Como NÃO combater a inflação (mas muitos presidentes insistem!);
  4. Como REALMENTE combater a inflação.
Aos supermercados, autoridades atribuem a alta dos alimentos, mas há outras razões ocultas
Aos supermercados, autoridades atribuem a alta dos alimentos, mas há outras razões ocultas Foto: Alex Silva/Estadão

Este último seria o módulo mais importante e trataria de temas como:

  • a) manter a disciplina fiscal (se o Congresso deixar);
  • b) garantir a independência do Banco Central;
  • c) estimular o aumento da produtividade;
  • d) garantir previsibilidade e estabilidade.

O fato é que a inflação não é uma força da natureza, mas resultado de decisões econômicas ruins e políticas públicas frágeis. Inflação é a febre da economia, não a doença. Controlá-la é difícil, exige ações concretas e pensadas. Mas, se os presidentes e outras autoridades evitarem declarações que assustam os mercados e tomarem decisões técnicas, ao invés de populistas, é possível garantir crescimento sustentável e estabilidade econômica. Pronto, quem completar esse programa está pronto para liderar com responsabilidade e manter a inflação sob controle!