sábado, 15 de fevereiro de 2025

Desafios do PT seguem parecidos com os da democracia brasileira, Celso Rocha de Barros, FSP

 

O Partido dos Trabalhadores completou 45 anos de idade semana passada. Já escrevi um livro dizendo o que acho de sua história até aqui: em resumo, você pode não achar as propostas do PT boas, mas tem que aceitar que o PT foi ótimo para a democracia brasileira. Discordar disso é desistir de conversar com os fatos.

Mas qual o futuro do PT? O partido sobreviveu a uma crise que parecia fatal entre 2015 e 2018 e ajudou a salvar a democracia brasileira elegendo Lula em 2022. Mas sua sobrevivência como legenda relevante não está garantida.

Os principais desafios diante do Partido dos Trabalhadores são consequência de mudanças da sociedade brasileira nas últimas décadas. O Brasil se tornou um caso clássico do que o economista Dani Rodrik chamou de desindustrialização prematura: deixamos de ser industrializados antes de nos tornarmos ricos. A desindustrialização dificulta a formação de partidos operários clássicos, como o PT parecia destinado a ser em sua origem.

Diante de um painel azul com um mapa verde, uma mulher loira, cabelos curtos, e roupa vermelha, sentada ao lado de um homem de barba e cabelos brancos, com blazer azul escuro e fones nos ouvidos
O presidente Lula e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, durante a abertura do XXVI Encontro do Foro de São Paulo, em um hotel em Brasília - Pedro Ladeira - 26.jun.2023/Folhapress

Os petistas se adaptaram a esse novo quadro graças às políticas de transferência de renda, cotas raciais e aumentos do salário mínimo. Deu muito certo, e o PT se tornou um grande vencedor de eleições presidenciais.

Mas as cotas e as transferências de renda viraram parte do repertório normal da política brasileira: nem Bolsonaro ousou acabar com as cotas, e sua única política pública realmente popular —o auxílio emergencial— era uma homenagem involuntária aos petistas, em especial Eduardo Suplicy.

Com o tempo, essas políticas vão deixando de ser um diferencial petista. E os aumentos do mínimo, com seu impacto fiscal decorrente das vinculações de benefícios sociais, podem se tornar mais difíceis.

O PT também precisa lidar com a virada à direita no ambiente ideológico dos próximos anos. Vai ter que discutir com a nova classe trabalhadora do empreendedorismo popular, vai ter que mediar conflitos culturais difíceis.

São tarefas complexas, mas o PT conta com algo importante a seu favor: a facção Jair-Malafaia jamais entregou qualquer política pública concreta que resolvesse os problemas dessa nova classe trabalhadora em disputa. A direita está muito mais entusiasmada que a esquerda, mas não é porque tenha descoberto soluções para o que quer que seja.

Finalmente, o PT vai ter que lidar com a grande reformulação da política brasileira nas últimas décadas: desde a reforma política de 2017, a direita está construindo máquinas políticas cada vez mais poderosas.

O PT propôs reformas parecidas em seus governos anteriores. Se o PSDB tivesse topado, não estaria prestes a desaparecer. Infelizmente, a reforma aconteceu exatamente no momento em que o centrão reinava absoluto após vencer a batalha da Lava Jato.

Se o PT não conseguir se consolidar entre essas grandes legendas, a política brasileira pode se reduzir à disputa entre o partido do furto (o centrão) e o partido do assalto à mão armada (o bolsonarismo). Parece cada vez mais claro que esse quadro só será evitado por uma federação de esquerda mais ampla. Talvez até, como em 1994, uma esquerda forte ressuscite a direita decente.

Enfim, 45 anos depois, os desafios enfrentados pelo Partido dos Trabalhadores continuam parecidos com os enfrentados pela democracia brasileira.

Petrobras inaugura era das megaplataformas de petróleo no país, FSP

 Nicola Pamplona

RIO DE JANEIRO

Com o início das operações, neste sábado (15), da plataforma Almirante Tamandaré, no pré-sal, a Petrobras estreia uma nova geração de unidades de produção de petróleo no país, bem maiores que as já existentes e com maior esforço para reduzir emissões de gases do efeito estufa.

Instalada no campo de Búzios, no litoral do Rio de Janeiro, a Almirante Tamandaré tem capacidade para produzir até 225 mil barris de petróleo por dia, 25% superior às maiores unidades hoje em operação no Brasil e equivalente às maiores do mundo, instaladas na costa da África.

A imagem mostra uma plataforma de produção de petróleo flutuando no oceano. A estrutura é grande e complexa, com várias seções e equipamentos visíveis. O céu está nublado, e há uma pequena embarcação ao fundo.
A plataforma Almirante Tamandaré, instalada pela Petrobras no campo de Búzios, no pré-sal. - Divulgação SBM

A plataforma é a primeira de uma série de seis unidades gigantes de produção de petróleo previstas para os campos de Búzios, Sépia e Atapu. O objetivo é "monetizar o mais rápido possível" a elevada capacidade dos poços do pré-sal, diz a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da Petrobras, Renata Baruzzi.

A estratégia incluiu a perfuração de poços mais largos, que permitirão a extração de até 60 mil barris de petróleo por dia, o equivalente a dois terços de toda a produção em campos terrestres no Brasil. Serão os primeiros poços com oito polegadas de diâmetro, contra as seis usuais no pré-sal.

"E aí a produtividade é maior ainda", diz Baruzzi. "Por que a gente está fazendo isso? Por que o reservatório é muito bom. A extensão, a coluna do reservatório tem o tamanho do Cristo Redentor", diz a executiva.

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A plataforma tem 351 metros de comprimento e 60 metros de largura, o equivalente a quase três campos de futebol em sequência. Pesa 44 mil toneladas e, por suas características peculiares, não pode ser construída sobre um casco de navio, como costuma ocorrer.

Seu casco foi construído especificamente para suportar todos os equipamentos instalados em seu convés, que incluem sistemas de geração de energia e de separação da mistura de petróleo, gás, água e gás carbônico que chegam dos poços.

A maior parte das obras foi realizada pelo estaleiro chinês CMHI, com parte dos equipamentos do convés construídos em estaleiros no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro e depois enviados à China para montagem.

A Petrobras queria iniciar as operações no início do ano, mas um impasse com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) não permitiu. A agência é responsável por autorizar o funcionamento de unidades de produção de petróleo no país.

Durante a semana, a agência informou à Folha que havia uma pendência relativa a "atendimento a um condicionante relacionado à segurança operacional, que foi estabelecido pela ANP a partir da auditoria de estaleiro realizada em maio de 2024". Na sexta (14), acabou autorizando a operação.

Além dos 225 mil barris de petróleo, a plataforma tem capacidade para processar 12 milhões de metros cúbicos de gás natural, o equivalente a cerca de um quarto do consumo nacional, sem contar térmicas. Em seu casco, pode armazenar 250 mil barris de petróleo.

A Petrobras diz que o projeto prevê uma série de tecnologias para reduzir a pegada de carbono, como a operação sem a chama de segurança no flare, equipamento usado na plataforma para queimar o gás não utilizado no processo, e um sistema de aproveitamento de calor que reduz a necessidade de geração de energia.

Para as próximas unidades, a estatal estuda ampliar a eletrificação das operações, reduzindo ainda o uso de gás natural e diesel.

À época com seis plataformas em operação, o campo de Búzios alcançou em março de 2023 a marca de um bilhão de barris produzidos. A Petrobras tem como sócios no projeto as chinesas CNOOC e CNODC e a estatal PPSA (Pré-sal Petróleo SA), que gere os interesses da União no pré-sal.