sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Suzana Herculano-Houzel - Todo mundo precisa ter problemas, FSP

 Minha avó ficava ótima quando tinha um problema legítimo de saúde que consumia sua atenção. Em retrospecto, nunca foi nada gravíssimo. Ela tinha bronquite crônica, era hipertensa, tinha artrite e artrose e vivia reclamando da barriga estufada e dolorida quando comia —o que ela atribuía a uma "hérnia de hiato", mas eu tenho convicção de que era intolerância ao glúten dos bolos e biscoitos que ela amava, e que eu herdei.

Os telefonemas no meio da noite com algum surto, em geral benigno e sempre tratável, à exceção do derradeiro, eram frequentes na minha infância, e a gente brincava de dizer que a vovó adorava ver um médico —como meu avô, 22 anos mais velho que ela e que morreu quando ela mal tinha completado 60.

Vovó ficava ótima, sim, quando lidava com seus pequenos e recorrentes revertérios de saúde, que lhe davam oportunidade de se sentir perfeitamente no controle da sua própria vida. Esses eram também os períodos em que a família vivia em paz. Quando a sua saúde estava perfeita, ela voltava sua atenção para a vida alheia, se metia onde não era chamada, e criava problemas para os outros —e assim ela tinha um novo problema para resolver.

Eu hoje, neurocientista, entendo perfeitamente. Aprendi que a chave para o bem-estar está na sensação de controle sobre a própria vida e que, por definição, só há "controle" onde existe algo a ser controlado: um problema ao alcance da nossa competência.

Por isso os tempos de calmaria, teoricamente ideais, nem duram nem são ideais de fato. Se não há problemas para resolver, criamos um, e ainda chamamos de "propósito". Pode ser chamado de hobby, projeto de aposentadoria, mas também neto, nora, vizinho —ou imigrantes e outras pessoas estranhas em aparência, ideias ou religião.

Acho que agora entendo a obsessão de cada vez mais gente mundo afora em controlar a vida dos outros, num flerte global com o autoritarismo que já descamba para a execução. Quem vive cronicamente estressado, com subemprego e exploração socioeconômica, apanhando da vida, precisa da sensação de controle de poder baixar o cacete em alguma outra coisa ou alguém ainda mais na miséria.

Para quem vive cheio de problemas, ir às redes sociais se meter nos direitos alheios oferece o alívio temporário tão necessário à sensação de impotência.

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Reprodução de redes sociais

E quem vive no estado oposto de afluência descansada precisa igualmente de um novo problema para resolver. Com a vantagem de gozar de tempo e dinheiro, muitas dessas pessoas vão se meter a controlar os que vivem situações de merda tão profunda que requerem aborto, emigração ou novas chances, negando-lhes tudo apenas porque elas podem.

Como fazer com que as pessoas parem de se meter na vida alheia? Eu achava que a solução era educar e empoderar, mas agora me dou conta de que isso não basta. É preciso dar a todos problemas superáveis para focarem suas energias. Só deixa os outros em paz, e ainda oferece ajuda, quem tem os meios e também aquela quantidade saudável de seus próprios problemas por resolver.

Nas sociedades saudáveis, os indivíduos têm problemas contornáveis, competências construtivas e oportunidades para criar, não para cercear.

Vovó morreu aos quase 91 anos completos sem nunca ter tido um único câncer ou qualquer sinal de demência. Não foi da pneumonia nem do infarto, que ela achava sempre estarem à espreita: foi de obstrução intestinal, coisa mais besta.

Alguns problemas são insuperáveis, mas a vida é feita de todos os outros.

Controladoria de SP apura se armadilhas da prefeitura levaram ao aumento da dengue, Agência Pública

 José Cícero/ Agência Pública

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Por Amanda Audi — Agência Pública 

A Controladoria-Geral do Município (CGM) de São Paulo iniciou uma sindicância sigilosa, em 22 de janeiro, para apurar suspeitas de irregularidades no uso de armadilhas contra a dengue pela prefeitura, segundo documentos obtidos pela Agência Pública. O órgão suspeita que a falta de manutenção possa ter transformado as armadilhas em criadouros de mosquito — o que pode ter contribuído para o aumento de casos em meio à pior epidemia de dengue que a cidade já enfrentou.

A investigação foi aberta depois que reportagens da Pública mostraram que a prefeitura comprou armadilhas com indícios de superfaturamento de uma empresa dirigida por uma pessoa próxima ao prefeito Ricardo Nunes (MDB).

A prefeitura demorou em média sete meses para trocar o veneno das armadilhas, diz a CGM, enquanto o fabricante recomendava o prazo máximo de quatro semanas, e a própria Secretaria de Saúde estipulava o intervalo máximo de três meses. Os dados constam em relatórios emitidos pela própria secretaria e acessados pela corregedoria municipal.

A Secretaria de Saúde registrou 50,8 mil visitas dos agentes da prefeitura às armadilhas entre 5 de janeiro de 2023 e 17 de junho de 2024. Ou seja, cada equipamento foi vistoriado 2,5 vezes no período de 18 meses, ou uma vez a cada sete meses, em média.

A controladoria diz que irá realizar uma série de ações para verificar se “a discrepância entre os prazos definidos pelo fabricante e os efetivamente praticados (média de sete meses) podem ter causado efeito inverso, ou seja, proliferação de mosquitos ao invés de sua supressão”.

Entre as ações listadas, estão a inspeção in loco, ainda sem datas estabelecidas, para ver se há larvas ou pupas vivas nos recipientes, ouvir especialistas sobre o tema, esclarecer se o contingente de agentes é suficiente e ouvir profissionais da Secretaria de Saúde.

Segundo a CGM, o possível aumento da população de mosquitos pode ter causado mais danos do que apenas a disseminação da dengue, entre eles o “maior custo ao poder público”, “prejuízo ao setor produtivo” e, mais importante, “o óbito nos casos mais graves”.

“É inegável que no ano de 2024, já com as armadilhas disseminadoras em pleno funcionamento, houve uma explosão de casos de dengue no município de São Paulo”, diz o documento.

O ano de 2024 foi, de longe, o mais mortífero em casos de dengue na capital. Foram 522 óbitos no período, um aumento de mais de 5.000% em relação ao ano anterior — e muito superior a todos os outros da série histórica, que começa em 2007. Apesar de os números de 2025 até agora serem menores em comparação com os do ano passado, é esperado que este seja mais um ano epidêmico.

Gráfico mostra a evolução anual dos casos e dos óbitos por dengue. (Foto: Arte/ Agência Pública)

As armadilhas deveriam servir para atrair as fêmeas do mosquito Aedes aegypti, contaminá-las com veneno e matar suas larvas. Mas, sem manutenção, a água evapora e o inseticida perde sua eficácia. Além disso, os mosquitos podem botar os ovos ali.

A CGM perguntou à Secretaria de Saúde se o desrespeito ao prazo de manutenção poderia transformar as armadilhas em criadouros. A resposta foi não porque o veneno continuaria tendo efeito por “até seis meses ou mais”. No entanto, a controladoria cita que esse prazo não apareceu antes nem nas recomendações do fabricante, nem da secretaria, causando “incerteza” sobre os dados, e que a própria prefeitura fez uma compra de sachês inseticidas para que a troca ocorresse a cada dois meses.

Procuramos a prefeitura, mas não tivemos resposta até a publicação.

No ano passado, a Pública já havia mostrado que a empresa contratada para a venda das armadilhas, a Biovec, pertence a um velho amigo do prefeito Ricardo Nunes (MDB), Marco Antonio Bertussi. Nunes e Bertussi são fundadores de uma associação de empresas de tratamento fitossanitário. Na época, o prefeito negou que tenha havido favorecimento ao amigo.

Ainda como vereador, Nunes intermediou reuniões na Secretaria de Saúde para o amigo apresentar as armadilhas. Em uma delas, foi negociada uma doação de armadilhas por R$ 118 mil para o município testar a sua eficácia. O resultado foi inconclusivo, mas ainda assim a prefeitura o usou como justificativa para abrir um edital de licitação. O valor final, de R$ 19 milhões, representou um terço do orçamento da Covisa (Coordenadoria de Vigilância em Saúde) da prefeitura de São Paulo no ano.

Três empresas apresentaram proposta de preço para participar da licitação. Duas delas são ligadas diretamente a Bertussi. A terceira é ligada a um sócio dele, conforme também foi revelado pela Pública.

Os fatos motivaram a abertura de uma investigação no Ministério Público de São Paulo, que recentemente foi prorrogada por um ano. Bertussi está sendo procurado há mais de quatro meses para prestar depoimento, mas não foi encontrado.

O responsável pela Covisa, Eduardo de Masi, prestou depoimento no fim de janeiro e defendeu que a opção pelo uso das armadilhas foi uma decisão técnica. De Masi negou que tenha havido falhas de manutenção, “exceto em casos pontuais”. Disse ainda que a Covisa avaliou com testes em laboratórios que o inseticida continua ativo por até 90 dias. Ele não foi questionado sobre o prazo de até sete meses que foi feito na prática.

Controladoria investiga se houve corrupção nas contratações

A CGM também investiga outros pontos relacionados ao edital e ao uso dos equipamentos. Um deles é esclarecer se houve “justificativa plausível” para a contratação das armadilhas diante dos resultados dos estudos da prefeitura. Os testes concluíram que houve uma redução da população de Aedes aegypti, mas em “níveis baixos”. Um segundo estudo, que seria realizado em 2021, não foi concluído.

A controladoria também quer esclarecer se, durante a pesquisa de preços, teria havido ajuste entre as empresas participantes “com o intuito de aumentar o valor médio da contratação”, o que indicaria prática de corrupção contra a administração pública, uma vez que as três empresas participantes teriam ligações entre si.

Por fim, a CGM também quer esclarecer se houve prejuízo ao erário com a compra de sachês inseticida e avaliar as responsabilidades administrativas.

Mesmo após a revelação das possíveis irregularidades na compra das armadilhas, a prefeitura de São Paulo continuou fazendo negócios com a Biovec. A última compra foi de 50 mil unidades de sachê inseticida, ao custo total de R$ 5,4 milhões, em dezembro de 2024. Ao todo, a empresa do amigo de Nunes já recebeu mais de R$ 40 milhões dos cofres públicos.

Goiás também investiga Biovec

A Delegacia de Combate à Corrupção da Polícia Civil de Goiás também iniciou uma investigação sobre a compra de armadilhas contra a dengue da Biovec pela prefeitura de Goiânia, ao custo de R$ 12,2 milhões. De acordo com a apuração, algumas exigências do edital podem ser consideradas “desproporcionais” e, em tese, “direcionadas ao favorecimento da empresa contratada”. O edital de Goiás é bem parecido com o de São Paulo.

Por nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia afirmou que as armadilhas para dengue foram adquiridas pela gestão anterior e que não possui atualmente nenhum processo em andamento para aquisição do produto.

 

Corrupção em alta no país é resultado da farra das emendas, Alvaro Costa e Silva, FSP

 O Brasil está empatado com Argélia, Nepal, Tailândia, Maláui e Níger no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional. Exibe a pontuação 34, sua pior posição e nota desde 2012, o começo da série histórica. Está nove pontos abaixo da média global e oito abaixo da média das Américas. Mesmo assim, espanta que o país não tenha caído ainda mais quando se sabe que a Polícia Federal investiga uma empresa suspeita de fraude em licitações contratada pela própria Polícia Federal.

A principal evidência de corrupção, segundo a Transparência Internacional, é a presença cada vez maior do crime organizado nas instituições estatais. O assassinato do delator do PCC Vinicius Gritzbach foi mais do que um aviso. As investigações resultaram na prisão ou afastamento de nove integrantes da Polícia Civil de São Paulo; e a Corregedoria indiciou 17 policiais militares.

Há outro fator que, por enquanto, deixa visível apenas a ponta do iceberg: o descontrole no pagamento das emendas parlamentares. Os valores são, como nas atrações circenses, incríveis, fantásticos, extraordinários: mais de R$ 148,9 bilhões em cinco anos. Sem transparência ou rastreamento.

Os casos têm pipocado aqui e ali, mas devem crescer à medida que a PF aprofundar as investigações. A existência do corretor de emendas, com prefeituras pagando a funcionários de gabinetes da Câmara e do Senado para ajudá-las a receber as verbas sob responsabilidade de seus chefes, já era conhecida. Agora descobriram os vendedores de emendas.

O ministro do STF Cristiano Zanin determinou que a denúncia contra os deputados federais Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL do Maranhão, além do suplente Bosco Costa (PL-SE), seja incluída na pauta de julgamento do Supremo. Os três são acusados de pertencer a uma organização que fazia ameaças com armas para comercializar os recursos públicos.

Só a apuração sobre o esquema liderado pelo empresário conhecido como Rei do Lixo acumula 54 celulares e 33 computadores. Um mundo a ser periciado.

Índice de Percepção da Corrupção, feito pela Transparência Internacional
Transparência Internacional