quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Rodrigo Toniol O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo, FSP

 Rodrigo Toniol

Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências

Na semana passada, a psicanalista Maria Rita Kehl foi alvo de um linchamento virtual, após críticas ao que chamou de "movimento identitário". A reação à fala dela incluiu um argumento que lembra os piores crimes da humanidade: a ideia de que ela deveria se calar por conta de uma "herança moral" transmitida geneticamente.

Os acusadores se referiam ao fato de o avô de Kehl ter sido um eugenista no início do século 20, sugerindo, portanto, que ela teria herdado, pelos genes, a "paleta moral" dele. A história nos mostra que, quando biologia e julgamento moral se juntam em um mesmo argumento, o ovo da serpente já foi chocado.

Os ataques tomaram conta de perfis nas redes sociais e ainda estimularam pessoas a editar a biografia de Kehl na Wikipédia, sublinhando sua ‘degenerescência hereditária’ —para usar um termo caro às teorias eugenistas.

A imagem mostra uma mulher sorrindo, com cabelo cacheado e curto, vestindo um vestido preto com detalhes em prata. Ela está de pé, com as mãos unidas na frente do corpo, em um fundo escuro.
A psicanalista Maria Rita Kehl foi alvo de um linchamento virtual, após críticas ao que chamou de 'movimento identitário' - Marcus Leoni - 19.out.18/Folhapress

A crítica feita pela psicanalista que motivou o ataque virtual foi que o movimento identitarista é um "nicho narcísico". Segundo ela, na dinâmica deste movimento, apenas quem pertence ao grupo pode falar sobre ele. Eles têm o "lugar de fala". Para todos os outros, resta apenas o "lugar de cale-se", conforme Kehl propôs.

Maria Rita Kehl é uma das maiores psicanalistas do Brasil e atuou junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra por décadas. Convidada por Dilma Rousseff, compôs a Comissão Nacional da Verdade, que apurou os crimes contra os direitos humanos durante a ditadura. Na semana passada, porém, sua biografia foi reduzida à "neta do pai da eugenia brasileira".

É tão comum quanto preocupante que os movimentos identitaristas, associados ao campo progressista, ataquem aqueles que também estão neste campo. Foi assim também com Lilia Schwarcz que, apesar de sua extensa obra sobre racismo e eugenia no Brasil, foi execrada por uma crítica que fez à Beyoncé. Transformar sistematicamente antigos aliados em inimigos faz com que a autoimplosão seja apenas questão de tempo.

No massacre virtual contra Kehl, subtraiu-se da psicanalista a autoria de sua própria vida. Sua biografia foi ignorada ou então reduzida às suas heranças genéticas.

Ora, a luta antirracista não é exatamente contra a acusação de hereditariedade de comportamentos morais? A lógica de que impurezas morais são transmitidas por laços sanguíneos levou os regimes mais autoritários do século 20 ao extermínio de milhões. Cobrar Kehl pelas atitudes de seu avô perigosamente revive a fórmula da moral biológica essencializante.

Se autorizada, passaremos a cobrar os descendentes de um criminoso pelos crimes de seus pais, tios e avós?

Na mitologia grega, a qual Kehl fez referência, Narciso era um jovem muito belo que fora amaldiçoado pela deusa Nêmesis. Seu castigo foi que nunca se apaixonasse por ninguém além de seu próprio reflexo e sempre desprezasse os outros por não serem tão belos quanto ele.

Esse é o paradoxo do identitarismo, embora tenha surgido como um movimento para tratar da diferença, ele mesmo não consegue lidar com o diferente. Tal e qual Narciso.

É oportuno lembrar que uma das figuras que foi perdidamente apaixonada por Narciso foi a ninfa Eco. Essa ninfa também foi amaldiçoada. No seu caso, a punição que recebeu foi que nunca pudesse iniciar qualquer diálogo e estivesse condenada a sempre dar a última palavra na forma de eco. Tal e qual o movimento identitarista.

Narciso, apaixonado por si mesmo, se afogou ao ver seu reflexo nas águas e tentar agarrá-lo. Eco terminou a vida isolada em uma caverna, sem nunca poder conversar com ninguém. Assim como Maria Rita Kehl, temo pelo risco que o campo progressista democrático corre ao ser capturado por movimentos que nos levarão para o fundo do rio ou para as profundezas da solidão em uma caverna.

A nova maioria e o autoengano progressista, Wilson Gomes- FSP

 

"Até quando teremos que pisar em ovos ao defender nossas pautas para não provocar os eleitores de direita?"

Essa foi uma das objeções mais interessantes que me foram apresentadas nas últimas semanas. "Pisar em ovos", vocês sabem, significa agir com cautela e delicadeza para evitar conflitos, problemas ou consequências negativas.

Não foi propriamente uma pergunta, mas sim o protesto de alguém já exausto da sensação de que os progressistas deixaram de ser a maioria política e de ocupar a posição dominante na esfera pública.

A resposta óbvia seria: "Até quando este país for uma democracia, um regime em que a maioria governa".

Claro, pode-se argumentar que, sendo o Brasil governado por um presidente de esquerda, a maioria eleitoral já escolheu um lado. Mas não é bem assim. Em 2022, o eleitor brasileiro deu a Presidência a Lula, mas entregou o Legislativo à oposição, justamente em um momento em que o poder do presidente da República é minguante, enquanto o dos presidentes das casas legislativas federais é crescente.

Se isso já é grave o bastante para a esquerda, há ainda outro fator: a opinião pública brasileira não é mais aquele ambiente onde ideias progressistas, mesmo as mais radicais, predominavam. Opinião pública, nos ensinou Elisabeth Noelle-Neumann, é aquilo que se pode expressar em público sem medo de sanções.

Na ilustração de Ariel Severino, duas escadas. A esquerda uma escada de cimento em dois lances. Vem de cima da ilustração e chega ao chão toda deteriorada, aos cacos. No chão, um grande buraco que tem seu perímetro com a forma do perfil de Lula com seu característico chapéu. Ao lado, sobre a tela verde amarela de um grande telefone celular apoiado no chão, uma escada rolante. Na sua lateral externa o reflexo do céu azul com algumas nuvens brancas. O contraste dentre as escadas é patente. Uma, precária, que mal se segura em pé e a outra, com sua base na comunicação digital das mídias sociais.
Ariel Severino/Folhapress

Durante algumas décadas, as posições conservadoras e as ideias da direita radical penavam na esfera pública, mas agora o jogo virou. Não vou detalhar aqui os efeitos da transformação digital no debate público, mas o fato é que, hoje, nenhuma posição goza de imunidade –muito menos as progressistas. Sobretudo aquelas que se tornaram bandeiras da guerra política, como as pautas identitárias da esquerda ou as posições morais ultraconservadoras.

A irritação expressa na pergunta indica que a ficha dos progressistas está demorando a cair. O Brasil de hoje é um país muito mais conservador, antipetista, de direita e intolerante à retórica identitária do que era há dez anos. E os progressistas não deveriam se iludir confundindo a cumplicidade que recebem das Redações da grande mídia, da universidade, do mundo editorial e da cultura com a opinião pública predominante. Por mais relevantes que essas instituições sejam, elas têm cada vez menos influência na formação da opinião e da vontade políticas da maioria dos cidadãos. Não passam de bolhas minoritárias, que criam a falsa impressão de refletir a realidade, quando, na verdade, expressam a visão dominante de uma elite cada vez mais restrita e menos influente.

Achei que isso tivesse ficado evidente quando o jornalismo de referência e o governo uniram esforços para tentar modificar a percepção pública sobre o Pix propagada pelas redes da direita –e fracassaram. Aparentemente, não.

Enquanto isso, no mundo real, temos um presidente governando precariamente com uma minoria parlamentar, acossado por uma inflação de alimentos que, semana após semana, relembra aos brasileiros que sua vida está ruim. Lula chegou à metade do mandato com queda de apoio popular e sob ameaça de dissidências no Congresso. E, como o José da poesia de Drummond, está sem discurso, embora fale demais.

Um presidente que não consegue oferecer respostas convincentes para problemas como a carestia ("Se estiver caro, não compre" chega a ser ofensivo), o crescimento assombroso da criminalidade, a falta de perspectivas que nos tornou um país que exporta cidadãos e os recebe, humilhados, em correntes, pode realmente alimentar expectativas de reeleição?

Além disso, Lula sabe que continua em estágio probatório para parte do eleitorado que votou nele apenas para evitar o outro lado, e que a extrema direita espera na tocaia que o governo sangre, ainda mais agora, energizada com a vitória de Trump.

Se ao menos a esquerda e os progressistas entendessem que são minoria e que o governo já tem problemas demais, perceberiam que precisam construir pontes, honrar alianças, negociar pautas e aplainar arestas, como prometeram na campanha de 2022. Talvez assim houvesse alguma esperança para 2026. Qual o quê? Dedicam-se a dobrar as apostas, radicalizar pautas, abandonar aliados e pisar nos calos de todos, de modo que o caminho, que já era árduo, se torna impossível.

Ah, sim, as belas almas garantem que eleição não é tudo, que o importante é ter os valores certos. Pois bem, perguntem aos progressistas americanos se a convicção da própria superioridade moral oferece algum consolo diante do que Trump anda aprontando por lá.

De Pedro2º@edu para Lula@gov, - Elio Gaspari, FSP

 Estimado presidente,

Li que vosmecê prepara uma reforma do ministério e resolvi lhe escrever, com um aviso amargo: as trocas de ministros são um pesadelo inútil e, ao cabo, de nada adiantam.

Imagine que, na manhã de 23 de julho de 1890, acordei bem, mas havia me sucedido uma coisa que não acontecia há anos. Eu havia sonhado, e mal infelizmente, com a maçada da organização ministerial. Em quase 50 anos, passei por aquilo 36 vezes.

Naquele dia, se eu não tivesse sido deposto e desterrado, teria completado 50 anos de reinado em nossa terra. A maçada da organização do ministério assombrou-me quando levava uma vida de paz e rotina na Riviera francesa. Meus dias eram cronometrados.

homem branco de cabelo, barba e bigode branco, de terno e gravata, olha para a frente prestando atenção em algo
O presidente Lula em entrevista no Palácio do Planalto - Gabriela Biló - 30.jan.25/Folhapress

Acordava, lia e logo tomava uma ducha. Passeava e, sempre à mesma senhora, comprava um ramalhete de flores para minha filha Isabel. Almoçava no hotel, fazia uns versos, jogava bilhar, lia de novo, tomava chá e ia para a cama. Com uma vida dessas, não sonhava, mas logo nessa noite veio-me o pesadelo da maçante organização ministerial.

Os gabinetes do meu reinado diferiam dos seus, como presidente, mas, na essência, tinham o mesmo objetivo: assegurar a maioria no Parlamento.

Certas atitudes de ministros podem surpreendê-lo. Como me contou o Caxias em 1862, eles concordam conosco durante as audiências e depois queixam-se nos corredores. Eu nomeava ministros para uma pasta, pedindo-lhes que cuidassem do bem público, mas, uma vez na cadeira, buscavam criar patotas.

No meu tempo, os partidos eram só dois, consigo, são 29. Não posso imaginar situação mais infernal, mas hoje, como antes, todos esperam que o atual ministério caia e qualquer deles, subindo ao poder, tenha meios de eleger facilmente sua gente.

Outro dia, joguei bilhar com o general João Baptista Figueiredo e ele contou-me uma curiosidade. Nas organizações ministeriais, todos oferecem nomes de amigos, sócios, ou mesmo patrões, mas, na conta dele, só houve um caso de o cidadão oferecer seu próprio nome. Foi o Roberto Campos, querendo ser ministro do exterior. (Vosmecê implica injustamente com o neto dele.)

Os jornais dizem que o senhor se tranca nas conversas sobre mudanças no ministério. Faz muito bem, dissimule sempre. Eu não revelava meus pensamentos nem aos meus cadernos e cheguei a registrar isso. Nunca perdoei ao Getúlio Vargas pelas indiscrições de seu diário, quer pelo que fazia com os ministros, quer pelas escapulidas para ver a bem-amada.

Vosmecê mexerá no ministério, mas esteja certo de que adiantará pouco para seus planos. Veja meu caso, tive 36 gabinetes e tudo continuou na mesma. As grandes questões do meu tempo, o fim do contrabando de negros e a abolição da escravatura foram resolvidas atropelando-se o ministério e o Parlamento. A primeira, pela ação da Inglaterra. A segunda, pelo clamor do mundo, das ruas, pelos vazios do campo e pela conduta da Isabel.

Despeço-me desejando-lhe sucesso e pedindo-lhe que cuide de sua saúde. Tenho-o achado um pouco avelhantado. O Mota Maia e o Charcot, que cuidavam de mim, dizem que o senhor vai bem, ressalvando o perigo do abatimento ou de se acreditar naqueles que nos dizem que podemos fazer o que bem entendemos.

Do seu patrício,

Pedro de Alcântara