quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Rui Tavares - Sicofantas que se acham melhores que hipócritas, FSP

 Quem conhece o argumentário da extrema direita sabe que uma das suas acusações mais recorrentes é a de hipocrisia. Trata-se de uma acusação curiosa: se acusamos o nosso adversário de ser hipócrita, estamos implicitamente a reconhecer a superioridade dos seus valores, pois o crime não está em acreditar em coisas erradas, mas sim em não ter um comportamento que esteja à altura das coisas em que se acredita. Se assim é, a suposta vantagem moral de quem faz a acusação não está em ser melhor do que o acusado, mas simplesmente em não se envergonhar de ser pior: ao menos não sou hipócrita!

Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca enquanto escuta Elon Musk falar à imprensa
Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca enquanto escuta Elon Musk falar à imprensa - Jim Watson/AFP

A hipocrisia é uma constante da vida: quem nunca disse gostar do presente (repetido) de Natal que atire a primeira pedra. Não se tratando certamente de uma qualidade, é bastante melhor do que a mentira flagrante, a desonestidade, a perfídia, a perversidade. Tanto que os gregos tinham um termo para quem era pior do que hipócrita: sicofantas. Sicofanta, que vem das palavras gregas para figo (sykon) e revelar ou denunciar (phainein), é a palavra para aquele que acusa os outros de roubar figos, mas que pratica crimes muito piores do que esse.

Infelizmente, o termo é pouco usado e tem um certo ar gongórico que o fez perder a sua força. É pena. Precisaríamos de algo mais do que hipócrita para atirar de volta àqueles que acusam os outros de hipocrisia apenas para disfarçar a sua mais do que profunda desonestidade.

Vejamos: aqui de onde escrevo, poucas coisas mexem mais com a extrema direita do que ideia de que pode estar em curso uma "substituição populacional". A "Grande Substituição" é uma virulenta teoria da conspiração que nas suas versões mais perversas alega que os judeus internacionais estão a favorecer a imigração para que populações muçulmanas, africanas e outras substituam os europeus na Europa.

Vai daí, Donald Trump anuncia que vai remover a população palestina da Faixa de Gaza, fixá-la definitivamente noutros países sem direito de retorno, e reconstruir o território como "Riviera do Oriente Médio" para outras populações, e que dizem os grandes alarmistas da "Grande Substituição"? Que a limpeza étnica é um crime contra a humanidade e que a substituição populacional é inaceitável? Não; dizem que Trump é brilhante. Nem lhes passa pela cabeça que a única pessoa propondo declaradamente uma "substituição populacional" é o seu ídolo.

São conhecidas as diatribes da extrema direita contra a corrupção. Que faz Trump? Cria uma criptomoeda através da qual é possível corrompê-lo direta e assumidamente. São repetidas as denúncias do excesso de poder de burocratas e tecnocratas não eleitos. Que faz Trump? Nomeia Elon Musk para enquanto burocrata e tecnocrata-mor cortar os apoios às pessoas mais miseráveis do mundo, confrontar os tribunais, mexer nos dados pessoais dos estadunidenses sem validação judicial. A extrema direita é contra a "cultura do cancelamento"? Só se for em nome da boa e velha censura.

Poderíamos continuar. Mas a conclusão é clara: as denúncias da extrema direita são provavelmente o guia mais fiável que podemos ter para as suas ações. Só falta serem comunistas.

Acusado de matar CEO em Nova York recebe R$ 2 mi em doações de apoiadores, FSP

 Suzana Petropouleas

São Paulo

Apoiadores do engenheiro de computação Luigi Mangione, 26, angariaram mais de R$ 2 milhões (cerca de US$ 354 mil) em doações para o acusado de matar o CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson.

O fundo foi criado na plataforma GiveSendGo por um grupo de defensores de Mangione após o crime em Nova York em 4 de dezembro. "Não estamos aqui para celebrar a violência, mas acreditamos no direito constitucional de representação legal justa", informa a página de apresentação da campanha.

A imagem mostra um jovem vestido com um macacão laranja, sendo escoltado por um policial que usa um colete à prova de balas e um boné com a sigla NYPD. Ao fundo, há outras pessoas, incluindo um homem com um terno. O ambiente parece ser uma área pública, possivelmente uma delegacia ou tribunal.
Luigi Mangione, acusado pelo assassinato do executivo do UnitedHealth Group Brian Thompson - Eduardo Munoz/19.dez.24/Reuters

O assassinato a tiros, cujas imagens de câmeras de segurança rodaram o mundo, acabou provocando debate sobre o sistema de saúde americano, que muitos consideram injusto. Mangione sofria de dores crônicas nas costas que afetavam sua vida diária, de acordo com amigos e publicações em mídias sociais, apesar de não estar claro se o fato tem relação com o homicídio pelo qual é investigado. Segundo a UnitedHealth, Mangione não era seu cliente.

O dinheiro arrecadado por meio da plataforma foi aceito pelo time jurídico do suspeito nesta semana e será usado para pagar sua defesa legal, diz o grupo. Mangione é representado nos tribunais por Karen Agnifilo, ex-promotora do estado de Nova York, e por seu marido, Marc Agnifilo, que também representa o rapper Diddy Combs. O engenheiro e o músico estão presos no Metropolitan Detention Center, no Brooklyn.

As doações vão de US$ 5 a US$ 5.000 (R$ 29 a R$ 29 mil), com média inferior a US$ 30 (R$ 173), segundo o grupo. A maioria das mais de 11,5 mil colaborações individuais registradas até agora na plataforma é anônima, mas doadores têm aproveitado a visibilidade do site para enviar junto às doações mensagens públicas de apoio a Mangione e críticas ao sistema de saúde americano.

Um usuário que se identifica como Ken Richter doou US$ 10 e compartilhou: "Em nome de minha esposa com câncer de mama. E por terem me falado que o anestesiologista dela não era coberto. E por terem negado uma ressonância magnética que era necessária para saber se o câncer voltou. E por cobrarem mais de US$ 300 por uma consulta via telefone. Liberdade ao Luigi!".

Levantamento divulgado pela YouGov em dezembro mostra que 61% dos americanos têm uma visão muito ou um pouco desfavorável da indústria de planos de saúde. Estudo recente do Pew Research Center mostrou ainda que o acesso a tratamentos de saúde é considerado o segundo maior problema dos EUA pelos americanos, atrás apenas da inflação e à frente de temas como violência armada e imigração ilegal.

Em comunicado divulgado dias após o assassinato de Brian Thompson, a UnitedHealthcare disse que aprova e paga 90% dos pedidos de pagamento ou reembolso médico solicitados.

"Importante destacar que, entre aquelas solicitações que requerem análise adicional, cerca de 0,5% são devido a razões médicas ou clínicas. Informações altamente imprecisas e grosseiramente enganosas têm sido divulgadas sobre o tratamento de reivindicações de seguros pela nossa empresa", escreveu a companhia.

A insatisfação com as seguradoras de saúde do país é mencionada em diversas das centenas de mensagens que apoiam a vaquinha online de Mangione.

"Para minha mãe, que teve que esperar tempo demais pela aprovação de uma exame de tomografia. Que ela descanse em paz", relatou um usuário que doou US$ 5. Outro usuário anônimo que doou a mesma quantia escreveu: "Estou fazendo essa pequena doação em nome de meu irmão falecido, que ainda estaria vivo se não fosse pela ganância insaciável do sistema de saúde dos EUA".

Apoiadores de Luigi Mangione, suspeito pela morte do CEO Brian Thompson, fazem doações e compartilham críticas ao sistema de saúde americano online - GiveSendGo

As seguradoras são apenas uma parte do cenário de saúde dos EUA. Cerca de 60% dos americanos obtêm cobertura por meio do trabalho, no qual o empregador subsidia parte do seguro, de acordo com a Kaiser Family Foundation. No Brasil, essa modalidade é chamada de coparticipação.

Os outros dependem de programas federais ou estaduais, como o Medicare para idosos e o Medicaid para indivíduos de baixa renda.

A maior mudança recente no seguro de saúde dos EUA ocorreu com a promulgação da Lei de Cuidados Acessíveis, conhecida como Obamacare, em 2010, que expandiu a cobertura do Medicaid. Também criou mercados de seguros de saúde administrados pelo governo e restringiu as seguradoras de negar cobertura com base em condições preexistentes.

"É minha quarta doação, porque enquanto o governo está tentando tirar o Medicaid de uma pessoa que eu amo e é tetraplégica e depende de respirador, as companhias de saúde estão nos mantendo mais doentes e mais pobres. Esse sistema é uma bagunça, e eu acredito em justiça", escreveu um apoiador de Mangione.

"As centenas de milhares de dólares que arrecadamos revelam que uma massa considerável da população está exausta desse sistema de saúde que nos mantém doentes, pobres e amedrontados", diz a escritora e podcaster Jamie Peck, uma das porta-vozes do grupo organizador da campanha.

Parte dos doadores também critica o que vê como excessos dos procuradores no caso. Mangione responde a três processos criminais em dois estados diferentes, Pensilvânia e Nova York, e um na esfera federal, na qual pode ser condenado à pena de morte por terrorismo. Para o grupo que organiza a arrecadação, a pena em questão visa fazer do engenheiro um exemplo e é mais rigorosa do que àquela buscada pela Promotoria em casos de ataques em massa à escolas, com diversas vítimas, ou nos processos contra autores do ataque de 6 de Janeiro ao Capitólio.

A maior doação na plataforma, no valor de US$ 5.000, é de um usuário que diz se opor firmemente à pena de morte e considerar "a politização da potencial morte de qualquer pessoa" um ato "profundamente perturbador".

Mangione deve voltar às cortes americanas na próxima semana, para audiência no estado de Nova York em 21 de fevereiro.

Com Financial Times.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Baixa produtividade explica o atraso brasileiro, FSP editorial

 Há muito tempo o país permanece preso em discussões econômicas conjunturais sobre temas que deveriam estar resolvidos no meio político, como a necessidade de equilíbrio orçamentário para impulsionar o desenvolvimento sustentável.

Enquanto isso, perdem-se de vista o diagnóstico amplo e medidas efetivas a respeito da questão mais essencial para o progresso —como reverter a estagnação da produtividade do trabalho que já perdura por quatro décadas.

Se no início dos anos 1980 a produtividade do trabalhador brasileiro chegou a quase 40% da americana, desde então, e de maneira continuada, foi se ampliando o distanciamento.

Segundo dados da organização de pesquisa Conference Board, em 2024 a produtividade por hora trabalhada no Brasil foi de cerca de US$ 21,44 (numa paridade de poder de compra que evita distorções de movimentos cambiais), o que coloca o país na vexatória 78ª posição e abaixo da média numa amostra de 131 países.

A má colocação brasileira deve-se à combinação de paralisia doméstica com avanço continuado nos países desenvolvidos e em outras regiões, notadamente a Ásia. Mesmo na América do Sul, estão na nossa frente Uruguai (48º lugar), Argentina (56º) e Chile (59º), o que sugere predominância de explicações locais para o fenômeno.

As causas são muitas e devem ser consideradas no conjunto de suas interações. Uma óbvia, com implicações de longo prazo, é a baixa qualidade da educação básica, além da insuficiente conexão entre centros de pesquisa e o mercado de trabalho.

Outro problema grave é a insuficiência de infraestrutura, que eleva o custo da produção local. O protecionismo excessivo, com altas tarifas de importação, também prejudica a competitividade e dificulta a inserção de empresas brasileiras no mercado mundial.

O sistema tributário também é prejudicial. Com a reforma que criou o imposto sobre valor agregado, ao menos, devem ser minimizados os maus incentivos à estrutura produtiva das empresas, hoje não raro norteadas apenas pelo acesso a benefícios fiscais.

É necessário, ainda, rever os regimes especiais, como o Simples, que levam à atomização de negócios em unidades menores e menos produtivas. O debate sobre esse tema deve superar o populismo e lidar com o fato de que escala e inserção nas cadeias globais são essenciais.

O alto custo de contratação de mão de obra com carteira assinada é outro empecilho, pois incentiva a informalidade.

Por fim, é preciso reorientar as prioridades do Estado, o que depende de um ajuste fiscal e gerencial que permita manter os gastos sociais, aprimorar a qualidade do ensino e expandir aportes em infraestrutura e pesquisa.

Levar a cabo tal agenda demanda alinhamento de lideranças empresariais, sindicais e do setor público, o que ocorre de forma lentíssima devido a resistências setoriais e corporativistas.

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