segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Lauro Anhezini Junior - Quem responde pelo descontrole dos vapes?, FSP

 Lauro Anhezini Junior

Diretor do Sindifumo-SP (Sindicato da Indústria do Fumo do Estado de São Paulo)

Muito se fala sobre os efeitos nocivos à saúde do consumo de cigarros eletrônicos no Brasil. Em artigo recente na Folha, o médico e colunista Drauzio Varella atribuiu à indústria do tabaco a culpa por isso ("Não se deixem enganar, os fabricantes de cigarro não querem ajudar viciados", 1º/1). Mas, se a indústria legal é impedida de fabricar e vender cigarros eletrônicos no país, quem responde pelos produtos de procedência desconhecida a que os consumidores estão expostos?

É preciso lembrar que os vapes consumidos no Brasil são 100% ilegais e distribuídos pelo comércio ilícito. A indústria formal não vende cigarro eletrônico em território nacional. Portanto, qualquer pesquisa que os analise —como a citada no texto, com dados do Instituto do Coração— irá coletar os efeitos de produtos ilegais, que não seguem qualquer controle ou padrão sanitário. Reforço: o descontrole do consumo de cigarros eletrônicos no Brasil acontece por causa de uma proibição de fachada, que não cumpre o que propõe.

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Cigarros eletrônicos com diferentes essências são comercializados no Brasil, apesar de proibição - Zanone Fraissat - 15.set.2023/Folhapress

Cerca de 3 milhões de adultos consumidores utilizam vapes 100% contrabandeados e estão expostos a riscos incalculáveis à saúde. A pesquisa do Incor citada no artigo revela uma exposição do organismo à nicotina equivalente a 120 cigarros.

Nesse sentido, é possível perceber que a disponibilização dos produtos sem controle, fiscalização ou informação anula o principal objetivo do cigarro eletrônico, que é a redução de riscos no consumo de nicotina. Apenas com regulamentação é possível envolver a indústria formal e criar políticas públicas que englobem educação, prevenção, segurança e composição conhecida e certificada do produto. Isto para fumantes adultos que deveriam ter o direito de acesso a uma alternativa lícita de menor risco.

Países da União Europeia, Canadá, Estados Unidos, Suécia, Reino Unido e Nova Zelândia, que já regulamentaram os cigarros eletrônicos como instrumento de redução de riscos, estabelecem que o nível máximo de nicotina permitida (total por produto) é, na maioria dos casos, de 20 mg/ml. O excesso visto nos dispositivos eletrônicos no Brasil só acontece porque a proibição abre caminho para fabricantes ilegais, em vez de estabelecer regras que seriam seguidas à risca pela indústria fiscalizada e legal.

É importante destacar que o cigarro eletrônico não é um produto inócuo, mas a experiência internacional mostra que, quando devidamente regulado, é uma alternativa de menor risco para fumantes, desde que haja substituição completa. Essa redução de riscos é comprovada por instituições independentes de renome, como King’s College of London, Royal College of Physicians e Cochrane, padrão ouro em publicações de saúde, bem como são referendadas pelo FDA —Food and Drug Administration, a "Anvisa dos EUA"— e ministérios da Saúde de diversos países.

Não faltam, portanto, exemplos de como tratar o tema. Ao Brasil, restam duas opções: continuar com uma proibição que só beneficia o crime organizado e prejudica o consumidor adulto e jovens que estão tendo acesso indevido a esses produtos ou respeitar o direito de quem opta por consumir alternativas de nicotina, criando regras claras para produção e comercialização dos cigarros eletrônicos, com controle sanitário e fiscalização.

TENDÊNCIAS / DEBATES

João Pereira Coutinho Reagir às propostas de Trump é fazer o jogo dele, FSP

 Foram dias divertidos. Donald Trump começou impondo tarifas de 25% ao Canadá e ao México. Os mercados financeiros não gostaram.

O Donald, talvez espantado, suspendeu as tarifas porque os países vizinhos prometeram controlar melhor as fronteiras e combater o tráfico de drogas.

Eis as perguntas: fronteiras? Drogas? A ideia não era ter uma balança comercial mais equilibrada?

Talvez sim, talvez não. Quem sabe? O protecionismo econômico de Trump pode não ser uma questão de princípio inabalável.

Há quem deplore esse oportunismo. Para mim, é música celestial. Seria bem pior se ele fosse um ideólogo convicto.

Desconfio que não seja. Nunca foi. Aliás, depois da novela com as tarifas, limpei o pó ao seu "The Art of the Deal" e, com olhos mais apurados, reli o livro.

Confirmo. É a obra mais importante para entender aquela cabeça. Pouco importa que ele não a tenha escrito (foi o jornalista Tony Schwartz). O que interessa é que a "arte do negócio" de Trump não se alterou no essencial.

Para começar, Trump representa o oposto da lição liberal clássica. "Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar", escreveu Adam Smith em "A Riqueza das Nações", "mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse".

O Donald não quer saber do interesse dos outros na primeira fase. Só do interesse dele. No início da negociação, é preciso jogar sobre a mesa exigências desmesuradas, a um pequeno passo do delírio ou da extorsão.

A lógica é impoluta: quanto mais delirante for a exigência, maior será a possibilidade de um acordo realista, mas sempre vantajoso para o Donald. Perante a hipótese de ficar sem os dois braços, o adversário até aceita perder só um.

Em segundo lugar, nunca mostrar verdadeiro interesse no negócio. É só mais um entre vários. Isso explica o tom blasé, quase desprendido, com que Trump propõe as maiores inanidades.

"A pior coisa que você pode fazer em uma negociação é parecer desesperado para fechá-la", escreve ele no livro. "Isso faz o outro cara sentir cheiro de sangue e então você está morto."

Depois, é preciso mostrar imprevisibilidade em todo processo. Essa imprevisibilidade pode implicar exigências de última hora, capazes de sabotar o negócio.

Como explicar essa atitude aparentemente suicida?

Uma vez mais, a lógica é impoluta: quando o outro lado já investiu bastante numa negociação difícil, a última coisa que deseja é um fracasso. Exigências de última hora serão mais bem toleradas por um adversário desgastado.

"Braço de homem vestindo paletó aperta uma mão falsa, com braço de pau."
Angelo Abu/Folhapress

Finalmente, há negócios que não se realizam mesmo. Neste caso, é preciso ter uma saída vitoriosa, ou aparentemente vitoriosa. Exemplo: os mercados financeiros afundaram com as tarifas? Não. O Canadá e o México concordaram em fazer mais nas fronteiras.

E quem fala em tarifas fala da proposta de Trump para Gaza. Uma Riviera no Oriente Médio e dois milhões de palestinos expulsos do território?

É preciso rir para não chorar. Mas há método nessa loucura: em 2020, quando Trump apresentou o seu plano para a paz, ele manteve-se dentro do figurino dos "dois Estados".

Fato: os palestinos jamais aceitariam 70% de uma Cisjordânia retalhada, muito menos a perda definitiva de Jerusalém. O próprio Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, declarou que não ficaria na história como o líder árabe que vendeu a cidade santa.

Agora, Trump não perdeu tempo com o paradigma dos dois Estados, talvez por suspeitar de que não haverá Estado palestino enquanto o Hamas existir.

Partiu direto para a ameaça negocial: fazer de Gaza um balneário, e o Estado palestino que se dane.

Será para levar a sério?

Não creio. Ocupar Gaza implicaria envolver tropas americanas no terreno. Uma nova repetição do Iraque ou do Afeganistão, dois pesadelos que Trump sempre condenou.

A ideia, suspeito, é obrigar os palestinos moderados e os Estados árabes a confrontarem-se com o pior cenário, na esperança de aceitarem o que foi recusado em 2020.

Moral da história?

Reagir às primeiras propostas de Trump é fazer o jogo dele, amplificando a sua posição negocial. Também vem no livro. "De um ponto de vista puramente comercial, as vantagens de ser objeto de uma notícia ultrapassam de longe os inconvenientes".

Tradução: boa imprensa é ótimo, mas má imprensa pode ser ainda melhor.

Por mais que isso custe ao auditório, talvez o caminho seja não seguir o primeiro impulso com as jogadas de Trump. Como lembrava Talleyrand, o problema dos primeiros impulsos é serem sempre generosos.

Bolsonaro trabalha como nunca na vida para evitar prisão, Alvaro Costa e Silva, FSP

 "Uh, vai ser preso!", gritaram torcedores do Vasco para Bolsonaro quarta-feira (6) no estádio Mané Garrincha, em Brasília. É um assunto inflamável, que irá pautar os passos da política em 2025. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, deve apresentar sua conclusão sobre a trama golpista até o fim do mês, podendo coincidir com o Carnaval —já imaginou? Depois o caso passará para análise do ministro Alexandre de Moraes, do STF.

O capitão nunca trabalhou tanto na vida como agora, ao tentar evitar a sua prisão. São várias as frentes de luta. No Congresso nacional, há as tentativas de anistia aos participantes do 8/1 e de aprovação de um projeto que praticamente acaba com a Lei da Ficha Limpa, reduzindo de oito para dois anos a punição aos condenados. Quem fortalece essa cartada —como Hugo Motta, o presidente da Câmara— não pode reclamar de ser chamado de golpista.

No front jurídico, a ministra Cármen Lúcia negou o pedido da defesa do ex-presidente para anular o inquérito sobre a fraude em certificados de vacinação contra Covid. Foi a partir da investigação da PF que o pesadelo da cadeia começou, com a apreensão dos celulares de Mauro Cid, em maio de 2023. Para o êxito do plano de refugiar-se nos EUA, Bolsonaro teria sido mais inteligente se tivesse tomado a vacina. Não tomou e hoje virou um jacaré acuado.

É preciso alimentar a tese da perseguição política e da possibilidade de concorrer à Presidência em 2026, mantendo a claque das redes sempre a postos. Para isso, Bolsonaro tem se utilizado de entrevistas do tipo ventríloquo.

Os perguntadores levantam a bola e ele consegue até verter alguma lágrima (de jacaré?), sem abandonar os ares já conhecidos de bufão. Enfileira críticas e restrições a todos os candidatos da direita, da extrema direita e da ala dos influencers. Só existe o inelegível, que chegou a comemorar a recente pesquisa que coloca Lula à frente dos principais adversários.

Se o pior acontecer, resta um último ato: acampamentos para pedir intervenção a Trump e Musk.