segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Sonhos navais, Editorial FSP

 A volta de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez reviverem planos de incentivo à indústria naval do país.

Há uma frente parlamentar de apoio a esse setor; a Petrobras diz que vai novamente fazer encomendas em massa aos estaleiros nacionais; o BNDES estuda meios de facilitar o reerguimento das empresas; o Sinaval, entidade que as representa, mostra esperança de obter ajuda do poder público.

Há, pois, um conjunto de pressões para fazer com que o governo restabeleça uma política industrial para o setor —em crise desde meados da década passada, como se pode constatar em uma série recente de reportagens da Folha.

A dúvida maior é se há motivos bem estudados para que o erário volte a destinar recursos à indústria naval. No mínimo, a experiência assustadora dos programas de incentivo do regime militar e das administrações petistas anteriores deveriam elevar às alturas as exigências para retomar tal projeto.

Nessas tentativas passadas, houve subsídios em excesso, sem proporcionar ganhos de produtividade ou capacidade de competição internacional. Os programas terminaram, de resto, em meio a escândalos de corrupção.

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Políticas industriais podem, em tese, dar resultado. No entanto a gama de instrumentos para levá-las a cabo, a diversidade de situações geográficas, históricas e políticas e a variedade de problemas a serem resolvidos é tão grande que não é possível aceitar como virtuosas, a priori, ações desse tipo.

Decerto a indústria naval foi adiante também, mas não apenas, devido à pesada intervenção estatal no Japão, na Coreia do Sul e na China, países que se tornaram sucessivamente dominantes no setor. No Brasil, a experiência dos estaleiros terminou em desastres.

Aqui, políticas de incentivo estatal obtiveram sucessos em áreas como petróleo, agricultura, etanol e indústria aeronáutica. No caso da agricultura, havia vantagens naturais e comparadas; no dos aviões, não —vantagens foram desenvolvidas por meio de ensino e pesquisa.

O risco maior nessas iniciativas é não atentar para questões básicas como escassez de capital ou mão de obra, deficiência de infraestrutura ou distorções tributárias.

Outro perigo é o de falta de planejamento, avaliação e meio seguro de encerrar o programa, em caso de fracasso. Os lobbies dos favorecidos se entrincheiram a fim de viver de rendas do Estado.

Nada se ouve ainda sobre a possibilidade de a indústria ser capaz de apresentar ganhos de produtividade ou sobre o custo social de desenvolver capacidades produtivas. Inexiste diagnóstico público do desafio a ser enfrentado. Por ora, há apenas lobby e fantasias desenvolvimentistas.

editoriais@grupofolha.com.br

domingo, 22 de outubro de 2023

Antonio Prata - Whindersson e Vinicius de Moraes, FSP

 A notícia é velha, mas eu também, de modo que estamos quites: da noite pro dia, todas as minhas redes sociais passaram a falar sobre os tropeços amorosos de Luísa Sonza e Chico Moedas. Não soubesse eu quem é Luísa Sonza e ia achar que o casal era personagem d’A Praça é Nossa: uma mulher que se faz de desentendida e um homem que só pensa em dinheiro.

O leitor um pouco mais antenado deve ter ficado boquiaberto com o parágrafo anterior. "Não soubesse eu quem é Luísa Sonza" soa assim como se eu estivesse posando de sabido, tipo "não soubesse eu falar alemão" ou "não soubesse eu navegar pela posição das estrelas".

Luísa Sonza é uma das cantoras mais famosas do Brasil: eis aí mais uma notícia velha, mas como já falei, sou velho --velho e de esquerda. Nós, velhos de esquerda, ainda achamos que música popular brasileira é Vinicius cantando com Maria Creuza. Aí morre um sertanejo num acidente de carro, há uma comoção popular e a gente percebe que tem um abismo entre esse "popular" da comoção e o "popular" do LP –o nome desse abismo é Brasil.

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 22 de Outubro de 2023, mostra o desenho de um homem de boné e camiseta listrada conversando com uma mulher de cabelos loiros em um praça, aludindo à uma cena genérica do programa "A Praça é Nossa"
Adams Carvalho

Curiosamente, em vez de fazer desses acontecimentos momentos epifânicos e nos debruçarmos sobre o país para tentar entender quem são essas pessoas e as pessoas que gostam dessas pessoas, torcemos o nariz. Depois o Bolsonaro é eleito e a gente fica que nem barata tonta: "meu Deus! Meu Deus! O que aconteceu?!". Aconteceu que enquanto lamentávamos que o proletariado não ouve Vinicius de Moraes com Maria Creuza, "Lá fora, amor/ Uma rosa morreu/ Uma festa acabou/ Nosso barco partiu/(...) O tempo passou na janela/ E só Carolina não viu".

Podem me chamar de Carolina. Pensando bem, a esquerda hoje tem mesmo algo de carola. O Gregório Duvivier disse algo assim numa entrevista. Antigamente a direita era séria e a esquerda puxava o tapete. Agora é a esquerda quem faz o papel de bedel do mundo: enquanto discutimos pronomes masculinos e femininos com nossos umbigos, a direita se diverte. ("Não têm graça nenhuma esses humoristas politicamente incorretos!", bradamos. Não têm mesmo. Mas os que os assistem pensam diferente. Já a esquerda não empolga ninguém, só enquadra).

A notícia da Luísa Sonza me levou pro verbete dela na Wikipedia, onde fui dar com o Whindersson. Me dei conta de que sei, há muitos anos, quem é o Whindersson, mas nunca tinha visto nada dele. Com uma década de atraso, fui assistir a um de seus stand-ups no Netflix.

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É bom demais. Mistura de certa narrativa popular nordestina com aquela turma do stand-up americano que não monta piada como quem faz um origami perfeito (nada contra o origami perfeito), mas usa a vida como material, muitas vezes sem punch-line, expondo as próprias misérias diante da multidão. Lenny Bruce. George Carlin. Richard Pryor. (Com menos violência, verdade). Como é que eu não conhecia o Whindersson?!

Não conhecia porque vivo nessa bolha meio intelectual, meio de esquerda da zona oeste de São Paulo/ zona sul do Rio que venera um sujeito que fez um curta mudo preto e branco assistido por 37 pessoas e ignora um dos maiores comediantes do Brasil. Nada contra os curtas mudos preto e branco vistos por 37 pessoas, o problema é essas 37 pessoas (36 mais eu) não conhecerem o Whindersson. Vamos acordar, Carolina? Já passou da hora: o mundo continua passando na janela e só Carolina não vê.


Cidades são suspeitas de criar turmas fantasma de alunos para desviar verba da educação, FSP

 


CUSTÓDIA (PE), NOVO TRIUNFO (BA) e MARAVILHA (AL)

Dezenas de cidades do país podem estar recebendo mais recursos públicos do que deveriam por meio de matrículas fantasmas em cursos de EJA (Ensino de Jovem e Adulto). A suspeita é que os municípios aumentaram artificialmente o número de estudantes nesta etapa para conseguir mais verbas federais.

Folha identificou 108 cidades que tiveram grande variação na quantidade de matrículas no programa de 2021 a 2022 e que informaram ter mais de 10% da sua população na modalidade.

Num município de Alagoas, a prefeitura sorteou três motos para incentivar o cadastro de alunos, mas muitos não vão às aulas. Em uma cidade da Bahia que tem 20% de sua população matriculada no EJA, a verba do programa já representa metade das receitas locais. Procuradas, a maioria das prefeituras negou irregularidades.

Escola Municipal Quilombola José Henrique de Melo, em Custódia (PE), visitada pela reportagem em 16 de agosto de 2023
Escola Municipal Quilombola José Henrique de Melo, em Custódia (PE), em horário em que deveria estar repleta de alunos do EJA (Ensino de Jovem e Adulto) - Lucas Marchesini/Folhapress

O caso envolve as disputas por verbas do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), que é financiado por um cesto de impostos.

Os recursos do fundo são distribuídos para estados e municípios de acordo com a quantidade e tipo de matrículas em cada localidade. Assim, se uma cidade aumentar de maneira artificial o número de alunos, vai conseguir receber mais dinheiro, prejudicando outras.

O dinheiro só pode ser usado na educação. A única exigência para a verba recebida via Fundeb é que 60% do total sejam utilizados para pagar o salário de professores. Além disso, os valores não podem ser usados para pagar merenda escolar e para remunerar profissionais da Educação em desvio de função.

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As 108 cidades com grande variação informaram ao governo federal ter tido um crescimento médio de 14,4% nas matrículas de EJA de 2021 para 2022, sendo que no país como um todo teve uma queda de 6,3% no período.

Com isso, elas receberam quase R$ 1,2 bilhão a mais do que teriam se a situação informada fosse similar à tendência nacional.

A quase totalidade dessas cidades está no Mapa de Risco do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, ligado ao Ministério da Educação), indicador que agrega 520 cidades em que há indícios de problemas nas declarações feitas ao Censo Escolar.

O presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou que quando são detectadas grandes discrepâncias nas informações os casos deixam de figurar como suspeitos de erro de preenchimento e "entram na esfera criminal".

Procurado, o Ministério da Educação disse que as denúncias são tratadas e investigadas. "Isso não significa a ausência de falhas. São mais de 5.500 sistemas de ensino compartilhando um fundo de financiamento. Mas é preciso ter em conta que o Brasil produziu uma belíssima arquitetura institucional de financiamento da Educação".

Folha visitou em agosto três das cidades com variações suspeitas na quantidade de alunos.

Uma delas é Novo Triunfo (BA), que tem 10.660 habitantes e 2.151 matrículas no EJA, ou seja, 20% da sua população. Um salto em relação a 2020, quando tinha 30 alunos na modalidade.

Com isso, elevou sua verba para uma projeção de R$ 30,4 milhões, o que representa cerca de metade das receitas do município.

Nos períodos em que visitou as três escolas municipais da cidade, a Folha não encontrou movimentação de alunos do EJA que tenha chegado perto dos números informados ao Ministério da Educação.

Na maior escola da cidade em número de matrícula de jovens e adultos em 2022, a Maria Simões, havia presença apenas de alunos de ensino fundamental ensaiando para o desfile do 7 de Setembro, mas não turmas do EJA —pelos números informados, deveria haver 315 alunos.

De acordo com a diretora da escola, Liliane Moreira, a unidade estava sem aulas porque os alunos estavam trabalhando na colheita.

Funcionários dessa escola e da segunda maior da cidade na área urbana (253 matrículas), a Tia Arcanja, relataram, sob condição de anonimato, que a média de alunos do EJA em cada escola é de 80 alunos, bem abaixo do que foi informado no Censo Escolar.

Fachada da Escola Municipal Professora Maria Simões, em Novo Triunfo (BA)
Escola Professora Maria Simões, uma das três escolas municipais de Novo Triunfo (BA) - Lucas Marchesini/Folha

Procuradas, a prefeitura e a Secretaria de Educação não responderam aos questionamentos da reportagem.

Já a cidade alagoana de Maravilha tem um terço de sua população inscrita no EJA, de acordo com os registro oficiais —3.071 pessoas de um tota de 9.500 habitantes.

De acordo com relatos colhidos na cidade, todos na condição de anonimato, muitos dos alunos não assistiram a nenhuma aula.

A Secretaria de Educação da cidade paga uma bolsa para estimular a permanência no EJA e organizou o sorteio de três motos no início do ano passado para estimular a população a informar nome e CPF, passos necessários para a matrícula no programa.

A cidade é comandada por um clã político influente em Alagoas. A prefeita, Maria da Conceição de Albuquerque, é irmã do deputado estadual Antonio de Albuquerque (Republicanos), que está no parlamento estadual há oito mandatos. Outra irmã, Rosa de Albuquerque, é conselheira do Tribunal de Contas.

Um dos filhos de Antonio, Nivaldo Albuquerque (Republicanos), foi deputado federal entre 2018 e 2022. Outro, Arthur Albuquerque, (Republicanos), foi candidato a vice-governador na chapa de Rui Palmeira (PSD).

A prefeita não quis responder aos questionamentos e indicou a secretária de Educação da cidade, Adriana Paulino. Ela negou que o sorteio de motos tenha sido uma tentativa de inflar artificialmente as matrículas. "[Foi] uma forma de valorizar as matrículas de todas as etapas e modalidades de ensino realizadas na rede pública municipal", disse.

"Todos os pagamentos de bolsa de auxílio permanência para os estudantes da educação de jovens, adultos e idosos são realizados sob análise e garantia dos requisitos previstos na lei municipal, não ocorrendo a possibilidade de pessoas receberem sem a matrícula na rede e sem a participação efetiva em sala de aula."

O sorteio não foi realizado novamente em 2023 e com isso o número de matrículas caiu para 1.500 este ano, em números preliminares.

Folha localizou pessoas inscritas pela cidade, mas que dizem não frequentar as aulas.

Um casal da zona rural da cidade se matriculou no EJA no início deste ano, por exemplo, mas afirma não ter ido a nenhuma aula. Em outro relato, a mãe de uma professora também disse que está matriculada sem nunca ter frequentado o curso.

Apesar disso, ambos receberam a bolsa permanência criada pela prefeitura em julho, que paga R$ 50 a cada pessoa pela matrícula, mais R$ 100 por mês.

A reportagem visitou duas escolas da zona urbana da cidade e conversou com integrantes da diretoria de ambas. Uma servidora afirmou que a cidade como um todo tem cerca de 400 alunos regulares de EJA, número bem distante dos 1.500 declarados ao Inep.

A coordenadora do EJA em outra escola, Vandilma Silva, disse que o número de matriculados reais no local onde trabalha era menor ainda, 173 matrículas, mas que somente 40 compareciam às aulas regularmente. A reportagem contou 32 alunos entrando na escola quando esteve lá.

Pequena sala de aula improvisada, com algumas carteiras e cartazes na parede. Ao fundo, uma pqquena lousa
Sala de aula de EJA improvisada na zona rural de Maravilha (AL); a média informada é de 43 alunos por sala, na cidade - Lucas Marchesini/Folha

MINISTÉRIO PÚBLICO DISSE TER DETECTADO QUASE 10 MIL ALUNOS FANTASMAS EM PE

O MPF (Ministério Público Federal) moveu no ano passado uma ação que levou a cidade de Custódia (PE) a depositar em juízo cerca de R$ 35 milhões, pouco mais da metade do orçamento do município. Segundo a ação, a gestão teria aumentado de maneira artificial a quantidade de alunos no EJA para conseguir mais verbas.

Com isso, segundo a petição dos procuradores, houve a criação de "um amplo cabide de empregos para professores sem capacitação mínima, contratos sem impessoalidade, por meio de indicação política ou com base em arregimentação de alunos, e que não exerciam regularmente suas funções letivas".

Em 2021, o Inep realizou uma visita ao município, e excluiu 8.779 das 9.500 matrículas de EJA da cidade, reduzindo o contingente de alunos para 739.

Apesar disso, há indícios de que a situação continue. No ano passado, foram 4.100 matrículas, ou 11% da população da cidade, que é de 37,7 mil pessoas. Em 2023, são 3.400 matrículas.

Uma professora, que não se identificou com medo de ser punida pela administração local, relatou que no meio do ano passado recebeu uma lista da prefeitura com 60 alunos, dos quais somente 19 foram localizados e 13 frequentaram as aulas.

No fim do ano letivo, ela diz ter sido obrigada pela direção a fazer uma caderneta aprovando os 60 alunos da listagem original.

Há na cidade um quilombo chamado Buenos Aires. Nele estão duas escolas que juntas deveriam ter mais de 1.500 alunos de EJA. Na noite em que a reportagem esteve lá, as duas unidades estavam fechadas apesar de ser um horário de aula.

A reportagem conversou com duas mulheres que estavam matriculadas no curso, mas disseram nunca ter frequentado nenhuma aula.

Sob anonimato, elas disseram ter sido procuradas por professores de EJA para se matricularem em troca de cestas básicas mensais que seriam dadas mesmo se elas não fossem às aulas.

Elas receberam somente uma cesta com alimentos estragados, afirmam.

O secretário de Educação de Custódia, Alysson de Yolanda, disse que na cidade "não tem nenhum caso de alunos fictícios" e que desconhece suspeitas nesse sentido.