terça-feira, 17 de outubro de 2023

RICARDO SOARES E MARCUS VINICIUS MACEDO PESSANHA Mudanças climáticas e tributação de carros elétricos: o desafio da sustentabilidade no Brasil, FSP

 Em meio ao cenário de intensas mudanças climáticas e a urgência por soluções sustentáveis, o Brasil enfrenta debates sobre a tributação da venda de carros elétricos importados e das respectivas recargas. Enquanto especialistas alertam para os perigos do aquecimento global, a indústria automobilística nacional propõe medidas que podem frear a adoção de veículos mais limpos.

O Brasil tem vivenciado eventos climáticos extremos, com ondas de calor que colocam em risco a saúde da população. Estudos indicam que tais eventos, incluindo chuvas intensas e secas prolongadas, estão se tornando mais frequentes devido também ao aquecimento global. Além disso, a urbanização acelerada contribui para a formação de ilhas de calor nas cidades.

Por outro lado, o país também se depara com a chegada de montadoras chinesas que oferecem carros elétricos a preços mais acessíveis. No entanto, montadoras nacionais têm proposto a taxação desses veículos importados, uma medida que vai contra os esforços de sustentabilidade. Vale ressaltar que o market share dos carros importados no Brasil ainda é inferior a 5%.

O aquecimento global está fazendo com que eventos extremos se tornem cada vez mais frequentes. Muitas vezes subestimamos o impacto de um aumento de 1ºC ou 1,5ºC na temperatura média do planeta, mas isso resulta em uma maior ocorrência de eventos extremos que afetam diretamente nossa vida cotidiana. O calor persistente mata, e as ondas de calor são um desastre negligenciado.

Sob o aspecto legal, o tratamento tributário do carro elétrico é objeto de profundas controvérsias, a insegurança é ainda maior em se tratando das recargas comerciais dos referidos veículos. Os preços praticados costumam compreender uma tarifa básica em troca de um carregamento somado a um valor variável por volume medido em Kwh ou por tempo utilizado. É rotineira, também, a prática de shopping centers e condomínios comerciais disponibilizarem carregamento gratuito como forma de atrair a clientela, atualmente, de alto poder aquisitivo.

Neste cenário, paira grande insegurança jurídica em relação a incidência do ICMS e do ISS nas recargas dos carros elétricos considerando a caracterização tributária da energia elétrica nestas atividades. Caso a atividade de recarga seja um serviço, onde a energia elétrica seja um insumo, teríamos a incidência do ISS. Por outro lado, se a recarga for definida como uma forma de venda de energia elétrica, ocorreria a incidência do ICMS. Além disso, a lista de anexos da Lei Complementar nº 116/03, promulgada para dispor sobre o ISS, de competência dos municípios e do Distrito Federal, é bastante imprecisa ao tratar da base de cálculo destas operações.

Fica bastante claro, portanto, que o panorama regulatório e tributário das importações dos veículos elétricos, bem como das atividades de recarga, estão envoltas em aguda insegurança jurídica, o que prejudica a expansão da frota nacional. São necessárias, portanto, modificações legislativas expressivas de forma a proporcionar estabilidade nas relações e negócios dos agentes econômicos.

Com essas perspectivas, fica evidente a necessidade de políticas públicas alinhadas com a sustentabilidade e que considerem os impactos das mudanças climáticas globais. A adoção de carros elétricos e a busca por fontes renováveis de energia são passos essenciais nesse caminho. Precisamos incentivar, e não dificultar, a adoção de soluções mais limpas e sustentáveis.

Tarcísio promete que Sabesp manterá o mesmo nome após privatização, FSP

 

SÃO PAULO

Em reunião com deputados que formam a sua base aliada na Assembleia Legislativa de São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse nesta terça-feira (17) que a Sabesp manterá seu nome, objeto social e sede mesmo caso seja privatizada.

O governador vai enviar o projeto de lei em regime de urgência aos parlamentares nesta terça-feira (17).

Segundo o que foi apresentado aos parlamentares, o projeto de lei deverá incluir esses vetos a mudanças no nome, no objeto social e na sede da empresa. A medida tem sido referida pelo governador como "golden share", ação preferencial que dá poder de veto à administração pública.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante cerimônia no batalhão da Rota, em São Paulo
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante cerimônia no batalhão da Rota, em São Paulo - Zanone Fraissat-16.out.2023/Folhapress

O projeto dará autorização ao governo para que prossiga com o processo de desestatização da empresa. Como mostrou o Painel, a gestão Tarcísio quer a aprovação do projeto de venda ainda em 2023, para que o leilão seja realizado no primeiro semestre do ano que vem.

A gestão estadual prevê a injeção de R$ 66 bilhões em investimentos privados para antecipar a universalização o acesso à água e esgoto coletado e tratado de 2033 para 2029. Além disso, tem planos para que a Sabesp expanda a sua atuação internacionalmente, especialmente em outros países da América do Sul, nos quais poderia participar de leilões.

Um provável empecilho à aprovação célere do projeto é o fato de que a gestão estadual só definirá nos primeiros meses de 2024 parâmetros fundamentais da venda.

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Entre eles está o cálculo de qual o montante dos recursos da privatização será utilizado para reduzir as contas de água e esgoto e qual será o tamanho da diminuição tarifária. Também será decidido ainda o percentual acionário minoritário que o estado manterá na empresa.


Entre Israel e Palestina, quem está certo?, Joel Pinheiro da Fonseca, FSP

 Bilhões de pessoas depositam em Israel as esperanças e medos apocalípticos de suas tradições religiosas. No centro dela está Jerusalém, onde um dia já funcionou o Templo de Salomão, até ser destruído pelo Império Romano. Nessa mesma cidade Jesus pregou, morreu e —acreditam os cristãos— ressuscitou. É ela também um lugar sagrado para muçulmanos, lembrando que Maomé honrava os profetas judeus e cristãos e inicialmente rezava com seus seguidores não voltado a Meca, e sim a Jerusalém.

É por essa razão que ela sempre ocupou o centro das atenções de reinos e impérios muçulmanos e cristãos (dos cruzados medievais ao Império Britânico e EUA) e da diáspora judaica.

Trazendo para o plano secular, a criação de Israel em 1947 respondeu a uma demanda histórica de judeus, que sofriam perseguição onde quer que morassem, até culminar no crime monstruoso do Holocausto. Não havia um país árabe no território, que fora parte do Império Turco-Otomano e, depois da Primeira Guerra, mandato imperial britânico. Mas havia povo. E centenas de milhares de árabes foram desalojados e expulsos para que a nova nação se consolidasse.

Ataque aéreo de Israel em Rafah, ao sul da Faixa de Gaza, nesta segunda-feira (16) - Said Khatib/AFP

Ao mesmo tempo, não faz sentido tratar os israelenses judeus como colonizadores, representantes do poder de alguma metrópole que lá os mandou. Em sua maioria (e fora os que já moravam na região antes do Estado de Israel), vieram fugindo da perseguição que sofriam. Cerca de metade de sua população, aliás, é —ou descende— de judeus que foram expulsos de países árabes e do Irã e que morreriam caso tentassem "voltar" para suas terras de origem.

Enfatizar mais um lado ou outro —israelenses ou palestinos— é compreensível. Dito isso, há uma linha mínima de humanidade que, se violada, acaba com qualquer pretensão de justiça. O Hamas está em um nível diferente do Estado de Israel e da Autoridade Palestina. É uma organização cujo objetivo é o genocídio e cujo meio é o terrorismo. Deveria ser tratado igual ao Estado Islâmico —uma entidade espúria com a qual não cabe diálogo, apenas o combate sem trégua.

Se porventura o governo de Israel der uma guinada ainda mais extremista e mirar o extermínio do povo palestino, buscando aumentar e não reduzir as mortes de civis, daí sim será equivalente ao Hamas. Não é o que ocorre hoje. Essas distinções são importantes, pois mesmo na guerra existe o aceitável e o desumano.

Dentro do minimamente humano, quem negará que é justa a demanda dos israelenses por proteger seu país e não serem exterminados? E quem negará que também é justa a reivindicação de milhares de palestinos cujos ancestrais foram desalojados e que hoje vivem diversas formas de opressão?

Enquanto discutimos quem tem razão, chegam a nós os vídeos de meninas implorando por suas vidas em Israel e na Palestina. Vemos pais que perderam seus filhos, corpos de bebês e de idosos que não traziam perigo algum, judeus e árabes. Subitamente, todos os mitos e justificativas parecem tão pequenos, e mesmo as distinções morais parecem secundárias perto do imperativo de acabar com a tragédia.

Não há acordo possível, dizia Hobbes, sobre qual é o bem supremo. A condição humana é variável, bem como as culturas, as histórias e os temperamentos. Quanto ao mal supremo, contudo, aí sim há acordo. Ele está ali, nessas fotos e vídeos: o horror da morte violenta. Essa repulsa à morte generalizada pode e deve fazer arrefecer as crenças em mitos apocalípticos e ideais puros de justiça, em nome da única coisa que permitirá a vida: o compromisso pragmático. É nossa única esperança.