quarta-feira, 18 de outubro de 2023

O golpe do juiz plantonista, Elio Gaspari, FSP

 

Com um voto cirúrgico do corregedor nacional de Justiça, ministro Luis Felipe Salomão, por unanimidade, o CNJ afastou de suas funções o desembargador baiano Luiz Fernando Lima. No dia 30 de setembro passado, ele determinou a transferência do bandido Dadá para o regime de prisão domiciliar.

Dadá não era um bandido qualquer, e o afastamento do desembargador baiano torna-se um exemplo de rapidez e rigor. O CNJ feriu o velho golpe do recurso ao juiz plantonista, praticado há décadas em todas as instâncias do Judiciário. Ele funciona assim: espera-se o fim de semana (ou o recesso), leva-se o pedido ao sensível magistrado que assumiu o plantão e, bingo, resolve-se o problema.

Fachada da sede do CNJ, em Brasília - Gil Ferreira/Agência CNJ

No caso do bandido Ednaldo Freire Ferreira, o Dadá, o desembargador Luiz Fernando Lima seguiu a escrita, mas exagerou.

Dadá é um dos fundadores do Bonde do Maluco, o BDM, e estava numa prisão de segurança máxima desde setembro. Tinha sido capturado pela Polícia Rodoviária Federal e cumpria uma pena de 15 anos, imposta em 2008. O BDM é a maior facção criminosa da Bahia.

O desembargador-plantonista recebeu o pedido de conversão para o regime de prisão domiciliar às 20h42 do sábado dia 30 e canetou a concessão do benefício na madrugada seguinte. Dadá deveria ir para casa para cuidar de um filho autista. Se essa criança existe, os negócios do Bonde do Maluco nunca permitiram a Dadá que cuidasse do filho. Horas depois, outro magistrado cassou a medida. Era tarde, Dadá havia sido libertado e, como era de se prever, não foi para casa. Escafedeu-se.

Em seu voto, o corregedor Salomão lembrou:

PUBLICIDADE

"O desembargador Luiz Fernando Lima recebeu o pedido somente algumas horas antes do início do expediente judiciário normal, situação que, por si só, já ensejaria uma análise minimamente cuidadosa acerca do caso. (...) Não houve mínima análise acerca do perfil e antecedentes do requerente".

Em setembro, quando Dadá foi capturado, estava ao volante de um SW4 Diamond, avaliado em R$ 400 mil. Naquele mês, a guerra entre as quadrilhas baianas e a ação da polícia resultou na morte de 70 pessoas, inclusive um agente da Polícia Federal.

Ao canetar a libertação de Dadá, o desembargador sabia o que estava fazendo. Num plantão anterior, tratando de um caso semelhante, com antecedentes diversos, Lima indeferiu o pedido, indicando que não se tratava de matéria para ser decidida por um plantonista. O corregedor Salomão lembrou que, naquele caso, o Ministério Público havia recomendado a concessão da medida. O juiz severo de ontem virou um doce na madrugada em que soltou Dadá.

Afastado, o desembargador poderá se defender. Pelas suas contas, está próximo da aposentadoria, mas talvez possa responder a uma pergunta: o senhor realmente achava que Dadá cumpriria as condições da prisão domiciliar?

A unânime, rápida e severa decisão do Conselho Nacional de Justiça talvez iniba a turma que recorre ao golpe do plantonista, até porque há a suspeita de que o crime organizado passou a aplicá-lo. Existem uns cinco casos em que deu certo.

No caso do desembargador baiano, funcionou para o bandido, mas custou ao magistrado.

Prefeito de Santos troca o PSDB pelo Republicanos, FSP

 Guilherme Seto

SÃO PAULO

O prefeito de Santos (SP), Rogério Santos, decidiu trocar o PSDB pelo Republicanos. O ato de filiação foi marcado para 28 de outubro, na cidade do litoral paulista.

No material de divulgação do evento, Rogério aparece ao lado de Marcos Pereira, presidente do partido, e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.

Rogério Santos, prefeito de Santos, durante evento na cidade litorânea
Rogério Santos, prefeito de Santos, durante evento na cidade litorânea - Reprodução-25.abr.2022/@rogeriosantos.stos

A migração é simbólica da gangorra partidária em São Paulo, onde o PSDB perdeu o governo de São Paulo pela primeira vez em 28 anos, viu sua influência diminuir e abriu espaço para o crescimento de siglas que orbitam Tarcísio, como Republicanos, PSD e PP.

A mudança do PSDB para o Republicanos faz parte de estratégia do grupo do atual prefeito para tentar enfraquecer uma possível concorrente em sua busca pela reeleição em 2024, a deputada federal Rosana Valle (PL).

Caso decida concorrer no ano que vem, ela contará com o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas agora deverá ficar sem Tarcísio, que estará vinculado partidariamente a Rogério Santos.

PUBLICIDADE

Deirdre Nansen McCloskey - Regulando uma ordem espontânea, FSP

 Minha prima Anne, muito inteligente, bem-intencionada e atenta, me disse um dia: "Uma economia moderna complexa precisa de regulamentação complexa".

A maioria das pessoas atentas acredita nisso. Essas pessoas acreditam que a única maneira de uma economia alcançar a ordem é a forma como uma pessoa sozinha alcança a ordem, ou uma família, ou um exército.

Você coloca leite na sua tigela de cereal para o desjejum da manhã e isso funciona (tome cuidado: não ponha demais). Mamãe organiza o que haverá no jantar e ele aparece (atenção: sempre compre os ingredientes antes). Napoleão ordena que a sua Grande Armée vire à esquerda, e ela imediatamente vira à esquerda (atenção: não tente conquistar a Rússia).

É verdade que nas nossas vidas pessoais cada uma de nós organiza a seu modo as meias em sua gaveta. No nível do grupo, às vezes alcançamos a ordem obedecendo às ordens de generais, senhores, maridos, reis, planejadores, reguladores.

Mas mesmo pessoas atentas como minha prima Anne observam a ordem do grupo sem ordens humanas em grande parte da nossa vida, mesmo na família, no exército e na economia.

Mulheres do Exército norte-coreano marcham na comemoração do centenário de nascimento do regime ditatorial da Coreia do Norte - Pedro Ugarte - 15.abr.12/AFP

O filósofo escocês Adam Ferguson observou, em 1767, que grande parte do futuro é "o resultado da ação humana, mas não a execução de algum desígnio humano".

PUBLICIDADE

Ninguém designa a língua portuguesa que você vai usar para construir a próxima frase. E ainda assim o português tem uma gramática e um vocabulário ordenados e efeitos práticos na utilização.
Mesmo numa família pequena, as pessoas passam umas pelas outras no corredor sem se esbarrar, mas ninguém lhes ordena que o façam.

Mesmo num grande exército, numa grande corporação ou num grande país, as ordens do topo não determinam totalmente o resultado.

O escritor russo Liev Tolstói (1828-1910), que havia sido soldado, disse-o sabiamente em "Guerra e Paz" e também sobre a própria Grande Armée de Napoleão.

As economias de mercado são organizadas espontaneamente e, como Ferguson também disse, frequentemente levam ao progresso. No entanto, ao longo do último século, cresceu a convicção de que o Estado deve assumir a responsabilidade pela solução de todos os "problemas", porque tem ordens para resolvê-los.

Mas nós, em nossas ações interativas, alcançamos resultados que não são desígnios humanos, como o infinitivo flexionado, peculiar ao português, ou o preço da feijoada, peculiar a São Paulo.

Talvez seja uma tarefa inútil o Estado regular.