quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Escassez de energia e a pressão sobre a Petrobras, Celso Ming , OESP (tempestade perfeita)

 Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 20h26

As projeções mais ousadas sobre o avanço dos preços internacionais do petróleo estão sendo confirmadas. Na última terça-feira, a cotação do barril (196 litros) de óleo tipo Brent (referência do Mar do Norte) ultrapassou os US$ 80 pela primeira vez em três anos. E a tendência é de alta.

  

De repente, ficou evidenciada uma forte escassez de combustíveis, principalmente de gás natural – com que a maioria dos analistas não contava.

Por toda a parte, sobreveio uma crise de energia. Não foi apenas o aumento do calor no Hemisfério Norte no último verão que exigiu mais dos aparelhos de ar-condicionado e do consumo de energia elétrica. A recuperação da pandemia, especialmente na China e nos Estados Unidos, passou a exigir mais energia. Muitas unidades de produção foram paralisadas na Europa para atender às novas exigências ambientais.

Nos Estados Unidos, a produção de óleo e gás de xisto vem sendo desestimulada pela nova política empreendida pelo presidente Joe Biden. Aqui no Brasil, as autoridades se viram na contingência de canalizar mais gás natural para a operação das termoelétricas, para compensar, nesta crise hídrica, a redução da geração de energia pelas hidrelétricas. Enfim, por motivos vários, estamos diante de uma escassez global de energia, que pode ser temporária, mas que não tem data para acabar.

O governo Bolsonaro parece não ter desistido de adotar soluções populistas para estancar a alta dos combustíveis. Desta vez, não é apenas o presidente Jair Bolsonaro que pretende segurar ou reverter artificialmente os preços. O presidente da Câmara dos DeputadosArthur Lira (PP-AL), advertiu que: “O Brasil não pode tolerar gasolina a quase R$ 7 por litro e gás de cozinha a R$ 120”. Mas ainda não explicou como pretende impedir o intolerável.

gasolina
A Petrobras nesta terça-feira, 28, reajustou em 8,9% o valor do óleo diesel em suas refinarias; valor saiu de R$ 2,81 para R$ 3,06. Foto: Nilton Fukuda/Estadão. 

O impacto da alta dos combustíveis sobre o custo de vida é muito forte. Apenas neste ano, os preços da gasolina subiram 31,0%; os do óleo diesel, 28,0%; e os do gás de cozinha, 23,7%.

As pressões para conter os preços não vêm sendo feitas apenas sobre a Petrobras. O governo quer que os Estados abandonem a sistemática atual que prevê determinada porcentagem sobre os preços dos combustíveis e que passem a adotar um valor fixo, independentemente das variações de preços, que hoje são determinadas pelas cotações internacionais e pela variação do câmbio.

No gráfico, você tem a alíquota de Imposto sobre circulação de mercadorias e prestação de serviços (ICMS) cobrada em cada Estado sobre os preços da gasolina comum ou aditivada. Atualmente, cada Estado tem competência para definir a alíquota, que hoje varia entre 25% e 34%.

  

A ideia de definir um imposto fixo por litro parece aproveitável. O problema aí é convencer os Estados (e sete municípios que têm participação nessa receita) a abrir mão de arrecadação, que é relevante. Em 2020, dos 522,57 bilhões arrecadados no País com o ICMS, cerca de 15,41% (80,51 bilhões) foram arrecadados com a tributação de combustíveis. No Estado do Tocantins, a arrecadação com combustíveis representou 31,7% da arrecadação total do imposto. O Piauí obteve 29,7%; o Amapá, 29,0%; e o Pará, 26,7%, segundo dados do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). 

Mas a motivação do presidente da Câmara parece tão populista quanto a do presidente Bolsonaro. Ambos querem ganhar as eleições com uma tampa nos preços dos combustíveis. E Arthur Lira quer colocar uma pedra no sapato do seu adversário político em Alagoas, o filho do senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da CovidRenan Filho (MDB).

A alta interna dos combustíveis não se deve apenas à escalada dos preços do petróleo. Deve-se, também, como já observado, ao avanço das cotações do dólar, que, por sua vez, tem a ver com o aumento das incertezas que provêm dos erros e omissões da política econômica. Não basta cobrar da Petrobras e dos governadores. É preciso colocar o governo na linha para que as cotações do dólar possam cair. E isso parece complicado.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA


Trilhos do Trem do Vinho servem como teste para VLT no Sul do país- FSP

 Marcelo Toledo

A linha férrea utilizada para o turismo entre Bento Gonçalves e Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha, está servindo como campo de testes para um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) que deverá ser usado num novo roteiro na região.

Os testes começaram na última semana e fazem parte de uma parceria entre a Marcopolo Rail, fabricante do VLT, e a Giordani Turismo, que opera o Trem do Vinho entre as cidades do Rio Grande do Sul.

O acordo foi anunciado em dezembro e os testes fazem parte das etapas para registro do VLT. O objetivo agora, na fase chamada de comissionamento, é fazer uma avaliação geral sobre o funcionamento dos sistemas, principalmente freios, tração, parte elétrica e itens de segurança.

Segundo a Giordani, que opera 23 quilômetros de trilhos entre Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, os testes prosseguirão até o final de outubro e serão realizados das 22h às 6h no percurso da maria-fumaça que integra o Trem do Vinho.

A proposta não é que o VLT substitua o tradicional roteiro com a locomotiva a vapor, mas que seja utilizado num novo roteiro turístico na região Sul, ainda não anunciado e sem data prevista para início.

Por isso, o Trem do Vinho segue em operação normal, durante a manhã e tarde.

O VLT foi desenvolvido pela divisão da Marcopolo destinada ao setor metroferroviário e foi produzido no complexo industrial de Caxias do Sul (RS), numa planta específica para trens.

É a primeira vez que a empresa coloca em circulação um veículo sobre trilhos desenvolvido por ela, que teve desenvolvimento baseado em baixos custos de implementação ou recuperação de sistemas existentes. Pode ter quatro versões: diesel, diesel e elétrico, híbrido (baterias ou capacitores) e elétrico.

A composição, que em sua versão intercidades tem capacidade de transportar 280 passageiros, tem 2,7 m de largura, três portas laterais em cada carro, quatro saídas de emergência e um posto para cadeirante em cada veículo.

Composição está em fase de testes entre Bento Gonçalves e Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha (Divulgação/Marcopolo)
Composição está em fase de testes entre Bento Gonçalves e Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha (Divulgação/Marcopolo)

PALAVRA ABERTA JORNALISMO Por que acesso à informação ainda é um problema global - FSP

 


Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

SÃO PAULO

A imensurável quantidade de conteúdo despejado na internet por segundo nos dá a sensação de que, diferentemente de décadas atrás, o acesso à informação talvez seja um problema superado ou, quem sabe, uma questão de menor gravidade.

Contudo, dentre todas as desigualdades que a pandemia de Covid-19 evidenciou, no Brasil e no mundo, emergiram também as disparidades no acesso a tecnologias, na interpretação de discursos científicos, no combate à desinformação e na transparência de dados de interesse público.

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Este último é um problema extremamente complexo cuja solução não está em uma política pública isolada. Mesmo com garantias jurídicas e morais —o direito à informação consta na Constituição Federal e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, por exemplo, além de se fazer presente em diversos tratados e convenções internacionais—, a equação para que ele se efetive na prática envolve diversas variáveis.

Programador durante desenvolvimento de software
Programador durante desenvolvimento de software - Unsplash

Depende, por exemplo, de governos comprometidos com os preceitos democráticos e com a divulgação de informações que impactam a vida dos cidadãos direta e indiretamente a curto, médio e longo prazos. Portanto, é preciso que as instituições políticas proporcionem o acesso livre a dados que, em grande parte das vezes, preferem esconder do controle social, e que também se comprometam com a qualidade e a confiabilidade das informações.

Também depende de uma sociedade civil organizada bastante atuante e vigilante que pressione por políticas públicas eficientes e pelo cumprimento da legislação, como a Lei de Acesso à Informação. Nesse sentido, o trabalho de organizações como a Fiquem Sabendo e a Open Knowledge é fundamental para cobrar medidas mais transparentes de entidades públicas e privadas e incentivar na população a consciência de que o conhecimento é um bem comum que deve ser construído de forma colaborativa.

Isso nos leva, consequentemente, às empresas de tecnologia, que estão totalmente imbricadas nesse processo. As formas com que as “big techs” coletam, utilizam e distribuem dados dos seus usuários, provocam uma discussão que vai além de algoritmos e bolhas informacionais, pois engloba o direito à privacidade, disseminação de desinformação e ódio e ameaças à própria democracia.

Outro elemento fundamental para que o direito à informação de uma sociedade seja garantido é uma imprensa verdadeiramente comprometida com os fatos e com o interesse público. Dar visibilidade para o processo jornalístico, nesse sentido, é muito importante, uma vez que o letramento informacional e midiático da população ainda é baixo.

Assim, iniciativas como as do Instituto Palavra Aberta, que lançou nesta semana um documentário sobre os bastidores do jornalismo em cooperação com a da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), são de grande valia para toda a sociedade, especialmente para educar crianças e jovens.

Por fim, cabe a cada cidadão demandar e acompanhar tudo o que foi descrito aqui de forma consciente, o que parece um pouco utópico quando pensamos numa sociedade tão desigual quanto a nossa.

Incentivar o desenvolvimento de habilidades de cultura digital e pensamento crítico desde a educação básica é um compromisso de Estado, e ainda estamos bastante longe disso quando olharmos para dados como os do último Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) no Brasil: 67% dos jovens não sabem diferenciar fatos de opiniões.

Em síntese, não se escapa do clichê: o esforço deve ser coletivo e multidisciplinar. Não à toa, para a UNESCO, o acesso à informação, cujo dia internacional foi comemorado nesta terça (28), caminha lado a lado de iniciativas educacionais e culturais que dêem conta de incluir diferentes grupos sociais, já que esse é um problema que pode custar vidas —como a pandemia tem infelizmente nos mostrado todos os dias há mais de um ano.