terça-feira, 28 de setembro de 2021

A SAUDADE DE UM BAR, Leandro Sarmatz, Gama Revista

 Esse negócio de bar chegou relativamente tarde para mim. Eu era foca na redação de um jornal em Porto Alegre e, com 22 anos recém-feitos, passei a bater ponto no boteco perto do trabalho com a turma das antigas. Antes disso, eu sobretudo frequentava as danceterias arrumadinhas: pagava a consumação e bebia Natu Nobilis ou tequila. Tentava empurrar a timidez para longe da pista. Mas bar mesmo, aquele ritual de sentar, puxar conversa e beber direitinho (ou seja, até quase desmaiar ou pelo menos fechar o estabelecimento), foi a partir dessa experiência jornalística.

Não se bebia na minha casa. Meus pais mantinham um pequeno bar destinado apenas às visitas: Passport, uma garrafa de vinho do Porto que em mais de vinte anos eu jamais vi ter sido aberta e geralmente um saco de amendoim japonês ou outro tira-gosto crocante. Era o paradigma do lar de classe-média judaica de pais sem diploma universitário que passaram incólumes (porque já entrados nos 30) por 1968. Fumavam à beça, contudo. Carlton e LS nunca faltavam, assim como as dezenas de cinzeiro espalhados pelo apartamento.

Não se bebia na minha casa. Meus pais mantinham um pequeno bar destinado apenas às visitas: Passport, uma garrafa de vinho do Porto que eu jamais vi ter sido aberta

Beber para ficar bêbado era, para eles, anátema. Bebiam “socialmente” em casamentos e festividades, voltando para casa muito mais relaxados e divertidos. Isso eu percebi desde muito cedo, embora não tenha associado diretamente às libações. O habitual repertório matrimonial de discussões, culpas, remorsos e acusações mútuas desaparecia como que magicamente nesses momentos de leve embriaguez. O fato é que eles pareciam não perceber isso. Se o tivessem, a vida na família S. teria sido um tantinho mais suportável. Para todos.

Era feio sentar-se num bar para passar as horas seguintes enchendo a cara. Era coisa de “sheigetz”, termo que, sinto informar, é alguns quilômetros ainda mais depreciativo que “goy”, ou não-judeu. Somente pessoas descuidadas poderiam ter alguma satisfação nisso, comentavam. Adoravam lembrar da história do filho do amigo médico, um geniozinho na matemática (tirou primeiro lugar na faculdade de Engenharia) que se gabava de nunca ter sentado num bar ao longo da vida universitária.

Pobre coitado.

*

A vida não precisa estar dura – e nem tão abundante demais — para nos conduzir ao bar. Basta ela ainda estar pulsante em nós. O grande desiludido e o nababo, reparem, costumam beber no beco escuro ou no palácio de cristal. Sozinhos na desgraça ou reservados na afluência. No bar, não: a alegre malta que se acotovela num Ugues (evito usar o pretérito, pois logo estaremos todos de volta), em Santa Cecília, tem, como você e eu, sua dose diária de angústias, sua cota mensal de altos e baixos, sua anuidade incontornável de vida real. Os boletos emocionais que todos, mesmo com certo atraso, haveremos de quitar um dia. Conosco e com aqueles do nosso círculo íntimo. Juros que no bar serão amortizados conforme o grau alcoólico de cada bebedor.

No seu bar ideal a conversa flui e muitas questões certamente estarão a um copo de serem resolvidas – ou de melarem inapelavelmente

Um bar em que você se sente perfeitamente em casa é como deslizar suavemente entre idiomas. Você se torna bilíngue, mas não pelo método de imersão da Berlitz — embora não deixe de ser uma imersão. Porque há a língua da vida e aquela do seu bar. Na vida, com dolorosa frequência, nossas conversas costumam ser pinterescas: a frase entrecortada, o não-dito, o buraco fundo da incompreensão mútua. Há certo grau inerente de incomunicabilidade entre duas pessoas sobre o qual parecemos esquecer às vezes, afinal somos bípedes, lemos Ana Martins Marques e – pelo menos para alguns — sempre haverá Paris. Não lembramos de que somos bicho, besta-fera, e fazemos nossos ruídos ininteligíveis enquanto afiamos os dentes. Mas no seu bar ideal a conversa flui e, se não é o caso de armar um psicodrama ali, entre mesas, garçom passando e o alarido generalizado, muitas questões certamente estarão a um copo de serem resolvidas – ou de melarem inapelavelmente. Porque o bar tem esse quê de ONU presidida por terapeutas.

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Minha filha frequenta o bar desde os 4 meses de idade. Com 5 anos em casa, dirigindo-se à varanda e verificando o calor da noite de São Paulo, costumava propor: “Vamos num barzinho? Vocês tomam drinque e eu tomo um suco”. Agora aos 10 segue sendo uma deliciosa companhia enquanto sorve seu suco de melancia e belisca uma porção de fritas. Reparo que gosta da noite e se diverte com as conversas que nascem e morrem na mesa de bar. Na minha precária (porque sem método) paideia há espaço para poesia, Tom Jobim, filmes e muitas visitas às livrarias. E a hora e a vez do bar. É aquilo que poderia ser chamado de “formação ampla”. Tentamos dar aos filhos aquilo que não foi ofertado por nossos pais.

Bebi – bebemos – muito em casa ao longo da pandemia. Nas últimas semanas voltei às caminhadas, estou cuidando mais do corpo, cortei o consumo diário de álcool. Quero estar pronto para o novo mundo que surgir depois de todo esse horror a que fomos submetidos. E quero mais ainda estar saudável e bem-disposto para voltar ao meu intimíssimo pátio de milagres, ele mesmo, o meu bar.

LEANDRO SARMATZ é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

Empresa lança cosmético feito a partir de bagaço de maracujá, Pesquisa Fapesp

 


28 de setembro de 2021

Fábio de Castro  |  Pesquisa para Inovação – O bagaço de maracujá, geralmente descartado pela indústria de sucos, possui compostos bioativos cujas propriedades têm aplicações promissoras no mercado de cosméticos. Esse resíduo industrial agora é a matéria-prima de um produto antienvelhecimento para a pele, produzido de forma sustentável, com atuação antioxidante testada e comprovada.

Com apoio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), a empresa Rubian Extratos desenvolveu uma miniemulsão que é a base do complexo antioxidante Rejuvenate. A inovação também tem potencial para várias outras rotas de aplicação.

De acordo com o engenheiro químico Eduardo Aledo, um dos sócios da empresa, o projeto incluiu uma bateria de testes que comprovaram a performance e a segurança do produto.

"O bagaço do maracujá é um resíduo da indústria de sucos que é descartado ou, na melhor das hipóteses, utilizado na produção de ração animal. Nosso objetivo era transformar esse rejeito em algo de valor, com um propósito de sustentabilidade", diz Aledo.

Os pesquisadores conseguiram recombinar os extratos presentes no bagaço na forma de uma miniemulsão – um tipo de emulsão cujas gotículas têm escala micrométrica – e realizar testes in vitro para identificar marcadores de poder antioxidante e de inibição de enzimas que causam degradação do colágeno e da elastina na pele.

"Com base nisso conseguimos comprovar as rotas metabólicas de atuação e os mecanismos celulares envolvidos naqueles bioativos", afirma o engenheiro de alimentos Philipe dos Santos, também sócio da empresa.

Redução de manchas e rugas

A atuação dos bioativos presentes no bagaço de maracujá no combate de manchas da pele também foi mapeada e, a partir daí, os pesquisadores comprovaram uma rota específica de atuação do Rejuvenate na inibição da enzima responsável pela produção de melanina. Foi ainda identificado aumento da expressão gênica de marcadores relacionados a longevidade celular.

"Além disso, em fevereiro, fizemos um teste clínico com 16 mulheres selecionadas e conseguimos comprovar algumas das propriedades do produto, como a redução de manchas, uma redução significativa no nível de rugas e aumento da hidratação facial", diz Santos.

Segundo Aledo, a empresa nasceu em 2015, após o Desafio Unicamp – uma competição que estimula a criação de negócios a partir de tecnologias e patentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"A empresa surgiu como uma iniciativa de graduandos, dentro do desafio da Unicamp, que é um estímulo ao empreendedorismo no qual a universidade disponibiliza seu portfólio de patentes para que os alunos escolham uma tecnologia e, com ela, desenvolvam um modelo de negócios", explica Aledo.

Inicialmente, a empresa desenvolveu uma tecnologia de produção de um extrato da semente de urucum, para o qual também teve um projeto apoiado pelo PIPE-FAPESP. Em seguida, passou a trabalhar no desenvolvimento do produto com base no bagaço de maracujá.

"Estabelecemos nosso modelo de negócios com base em quatro pilares: reconhecer as matrizes vegetais e seus bioativos funcionais; a utilização de processos limpos e verdes; a caracterização dos produtos e a demonstração de que são eficientes e seguros e, por fim, o trabalha fundamentado em uma proposta de sustentabilidade", afirma Aledo.

Como ponto de partida da inovação, os pesquisadores se dedicaram ao aprimoramento de um processo de produção limpa dos compostos de bagaço de maracujá, que havia sido patenteado em 2011 pelos professores Julian Martínez e Juliane Viaganó, da Unicamp.

"Em 2017, fui chamado para trabalhar com a empresa e, partindo dessa patente, trabalhamos na emulsificação desses bioativos para uso no mercado cosmético. Ainda em 2017 submetemos um projeto ao Programa PIPE-FAPESP e obtivemos apoio", diz Santos, que se tornou sócio da empresa em 2021.

Na fase 1 do PIPE-FAPESP, os pesquisadores fizeram a validação do protótipo para verificar se os extratos tinham bioatividade e poderiam ser utilizados como cosméticos. Na fase 2, trabalharam na padronização e elaboração dos extratos.

Com uso exclusivo de técnicas limpas, o bagaço que sobra da indústria passa por um processamento, é padronizado e submetido às duas extrações que haviam sido patenteadas. Dois extratos são obtidos, um lipídico e um aquoso. "Ambos têm bioativos de interesse: o extrato lipídico apresenta tocotrienóis, carotenoides e ácidos graxos e o extrato aquoso possui polifenóis", explica Santos.

Em seguida os extratos são emulsificados. "O que fazemos é basicamente desconstruir o bagaço do maracujá e reconstruí-lo em uma forma emulsionada, de acordo com a necessidade do cliente", diz.

Por ser um resíduo, há uma dificuldade muito grande na padronização, segundo Santos. Foi nisso que os pesquisadores trabalharam na fase 2 do projeto, a fim de se aproximarem do produto final voltado ao consumidor.

"Desenvolvemos um método de padronização, removendo o que não queremos – caules, folhas, pedaços de casca – e deixamos um pouco de polpa e semente. A partir de imagens, utilizamos um algoritmo que nos permite predizer a qualidade do material e se está apto a ser utilizado no processo extrativo", afirma Santos.

A miniemulsão foi submetida a testes de citotoxicidade, genotoxicidade, fototoxicidade e a testes de sensibilização dérmica. Como a miniemulsão é um ativo utilizado em uma fórmula cosmética, foi preciso também realizar inúmeros ensaios de protótipos com diferentes concentrações. Assim, o produto foi testado em fórmulas de hidratantes faciais, loções de limpeza e em fórmulas utilizadas em farmácias de manipulação.

"A miniemulsão mostrou um amplo espectro de aplicação. É um produto minimalista, vegano, 100% natural e em toda sua produção não é utilizado nenhum insumo de origem sintética. Por isso há um grande número de rotas de aplicação", afirma Santos.

Os testes mostraram também que o produto possui piceatanol, uma molécula que é da mesma classe do resveratrol, uma substância conhecida como "molécula da longevidade", que é amplamente aplicada em cosméticos e alimentos. "É um resultado importante, porque o piceatanol é melhor que o resveratrol e o mercado cosmético sempre busca inovação", compara Santos.

De acordo com o pesquisador, o produto pode ter aplicação também dentro de um conceito de alimentação. "De fato, é um produto que se pode comer. Ele pode ser considerado não apenas para a suplementação tópica, como para suplementação oral. Hoje o mercado ligado aos cuidados com a pele tem um modelo muito associado à saúde e alimentação, então também pensamos nas duas vias – como produto para a pele e alimento", explica.

Palavras-chave: Cosméticos, miniemulsão de bagaço de maracujá, anti-rugas, anti-manchas

Como sua empresa pode (e deve) buscar a neutralidade em carbono, Época Negócios

 

Fonte: Época Negócios Online -22.09.2021
São Paulo - A pressão contra governos e empresas em relação a medidas que contenham o aquecimento global e as mudanças climáticas tem tornado cada vez mais recorrente o conceito de “emissões líquidas zero” (“Net-zero emissions”, em inglês), ou simplesmente “neutralidade em carbono”.

Em artigo publicado no site The Conversation, o professor-assistente de Gerência de Operações da Universidade de Indiana, Amrou Awaysheh, explica quais os caminhos que o setor privado têm para reduzir os impactos de suas atividades, em busca da neutralidade de carbono. O pesquisador defende que o caminho para neutralidade em carbono de uma empresa envolve algumas etapas.

Conheça três caminhos que ajudam na busca pela neutralidade de carbono:

1. Mais eficiência energética

Primeiro, é preciso adequar-se à eficiência energética. Awaysheh lembra que os países cortam a maior parte de suas emissões de gases de efeito estufa por meio da eficiência energética, além do aumento do uso fontes renováveis. A simples troca de lâmpadas incandescentes pelas de LED, lembra ele, é uma maneira de começar esse processo.

2. Fontes limpas de energia

Um segundo passo seria a busca pela substituição dos combustíveis fósseis para o uso maior de energias renováveis, como a energia solar ou eólica, que não eliminam gases responsáveis por agravar o aquecimento global. As companhias podem adquirir uma frota de veículos elétricos, cortando suas emissões de carbono, por exemplo, ou buscar a instalação de painéis de energia solar.

3. Mercado de carbono e projetos sustentáveis

Uma alternativa para as empresas tem sido a compra de créditos de carbono. Nesse caso, as empresas compram crédito de negócios ou países que têm contribuído de alguma forma para redução de emissão gases poluentes na atmosfera, como a preservação de florestas. Esse, aliás, é um mercado que tem crescido no mundo.

Por fim, o pesquisador lembra que as corporações podem buscar a neutralidade em carbono a partir do engajamento em projetos sustentáveis, como aqueles que promovem a instalação de equipamentos para geração de energia solar ou eólica.

Esta notícia não é de autoria do Procel Inf