quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Projeto banaliza terrorismo, esvazia o Ministério Público e ameaça o cidadão, FSP

 Frederico Vasconcelos

É preocupante, para dizer o mínimo, o projeto contra ações terroristas aprovado, nesta sexta-feira (17), pela comissão especial da Câmara Federal, por 22 votos a 7.

A proposta –que institui o Sistema Nacional Contraterrorista– é de autoria do deputado bolsonarista Major Vitor Hugo (PSL-GO), ex-líder do governo na Câmara. Recebeu contribuições de integrantes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), do gabinete do Comandante da Marinha e de outras instituições.

Como a Folha registrou, o deputado Alexandre Leite (DEM-SP), membro da comissão, entende que o projeto pode levar a uma banalização do termo terrorismo.

Segundo estabelece o PL, a diferença entre um ato terrorista e crimes comuns residiria em consequências genéricas como “perigo para a vida humana” e “afetar a definição de políticas públicas”, bastando a “aparente intenção” de causá-las.

É lícito imaginar quais teriam sido os efeitos dessa proposta se a lei sugerida por Vitor Hugo estivesse em vigor em 1988, quando Bolsonaro foi acusado –e absolvido pelo Superior Tribunal Militar– de planejar a explosão de bombas em quartéis e no sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro.

Para a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), “há um risco de recrudescimento na atuação de forças de segurança, com concentração de poderes nas mãos do Presidente da República, e possibilidade de perseguição a movimentos sociais e defensores de direitos humanos”.

Os laços cada vez mais estreitos entre a Abin e o Ministério Público –na gestão do procurador-geral da República Augusto Aras– devem desestimular manifestações isoladas de membros do Parquet sobre os riscos de retrocesso no controle externo da atividade policial.

Nota técnica da APNR enfatiza que, na Constituição Federal, “foi reservado ao Ministério Público um papel especial na garantia de que a atividade policial seja exercida em respeito aos direitos fundamentais”.

“Esse papel não foi devidamente considerado no projeto de lei, que não contém qualquer previsão, menção ou ressalva acerca da atuação do Ministério Público no controle externo, apenas reservando espaço para a manifestação, como fiscal da ordem jurídica, nas hipóteses em que se mostrar necessário o acesso ao Poder Judiciário.”

“Titular privativo da promoção da ação penal, compete ao Ministério Público, na estrutura do Estado brasileiro, a provocação da atuação do Poder Judiciário, resguardada para a advocacia pública apenas as hipóteses de atuação como assistente.”

A ANPR observa que “a previsão de excludente de ilicitude (art. 13) do agente público contraterrorista, feita em uma forma geral e apriorística, traz de volta o debate acerca dos limites do uso da força, que havia sido enfrentado na Lei nº 13.694/2019”.

A título de proteger a identidade de “agentes públicos contraterroristas quando empregados nas ações contraterroristas”, o projeto abre exceções temerárias. Por exemplo, “[é] facultado ao juiz da instrução criminal referente ao ato terrorista, deixar de tomar o depoimento dos agentes públicos que participaram da captura, prisão ou eliminação dos perpetradores, quando puder formar seu convencimento pelos demais elementos probatórios constantes dos autos”.

Esse excesso de cautela, para evitar a exposição de agentes públicos, conflita com a proposta de criação da “Medalha do Mérito Contraterrorista, a ser conferida pelo presidente da República”.

 

Gestão Doria esvazia Complexo do Ibirapuera enquanto não pode privatizá-lo, FSP

 SÃO PAULO

Enquanto praticamente todas as atividades esportivas estão liberadas no estado de São Paulo e se discute a volta das torcidas aos estádios de futebol, no Complexo do Ibirapuera, tradicional berço do esporte olímpico brasileiro, a situação é diferente.

Impedido pela Justiça de abrir o edital para a concessão do local à iniciativa privada, o governo Doria trabalha para esvaziá-lo. A academia de musculação, por exemplo, não está autorizada a atender pessoas e os treinamentos esportivos não conseguiram o aval para retornar ao local ou foram realocados para outras praças.

Vale lembrar que as academias estão liberadas para funcionar, com restrições, desde abril. Funcionários do ginásio disseram à Folha, em condição de anonimato, que as inscrições para os treinos funcionais (que atendem sobretudo a população do bairro) até chegaram a ser abertas.

Vista aérea do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, onde fica o ginásio do Ibirapuera, em São Paulo
Vista aérea do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, onde fica o ginásio do Ibirapuera, em São Paulo - Gabriel Cabral - 22.out.2019/Folhapress

Eles contam que, no fim de agosto, após iniciar os cadastros para quem quisesse utilizar o espaço, seus superiores avisaram por Whatsapp que as inscrições deveriam ser suspensas até nova ordem da direção do complexo.

Questionada, a Secretaria de Esportes do estado afirmou que os protocolos para retorno das atividades no local foram aprovados no último dia 14.

"Desde então, a pasta está organizando todos os procedimentos de distanciamento, sinalização, álcool gel e demais ações para promover um retorno seguro das atividades na academia e quadras cobertas do Ibirapuera", disse o órgão, em nota.

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A reportagem visitou o local, que já abrigou o Centro de Excelência Esportiva (antigo Projeto Futuro) e foi casa de medalhistas olímpicos como Maurren Maggi (ouro no salto em distância) e os judocas Tiago Camilo (prata e bronze), Felipe Kitadai (bronze), Rafael Silva (dois bronzes) e Henrique Guimarães (bronze).

Durante a visita, a Folha testemunhou a academia vazia e não viu treinos de alto rendimento. Também observou que os problemas de infraestrutura, que há anos são uma demanda dos atletas que utilizam o espaço, se agravaram.

Parede interna da piscina de saltos do Complexo do Ibirapuera caiu e não foi arrumada pelo governo do estado de SP
Parede interna da piscina de saltos do Complexo do Ibirapuera caiu durante a pandemia - Arquivo Pessoal

Atualmente funciona no local um posto do laboratório privado Fleury para testes de Covid. O estádio de atletismo, que abrigou um hospital de campanha durante vários meses na pandemia, está em pior estado do que antes da chegada do coronavírus ao Brasil —com a pista em péssimas condições e o gramado também ruim.

A parede da piscina de saltos cedeu dentro do tanque. Relatos dão conta também de que o sistema de aquecimento de água quebrou.

Os funcionários reclamam ainda que a paralisação das atividades em razão da pandemia era o momento perfeito para que fosse feita a manutenção das instalações, que há anos se deterioram pela falta de cuidado. Não aconteceu.

Pista do atletismo do Complexo do Ibirapuera tem bolhas enormes e pedaços do piso faltando
Pista do atletismo do Complexo do Ibirapuera tem bolhas enormes e pedaços do piso faltando - João Gabriel - 31.ago.2021/Folhapress

O governo de João Doria (PSDB) realocou as equipes de treinamento do atletismo e do judô para o recém inaugurado Centro Excelência Esportiva em São Bernardo do Campo. Segundo os relatos, o local tem alojamento e estrutura de ponta e é excelente para a prática esportiva.

Já o vôlei não foi realocado para nenhum lugar. O projeto já recebeu autorização da Prefeitura de São Paulo para realizar treinos, mas há meses aguarda aval do governo do estado para retornar ao Ibirapuera. Enquanto não pode utilizar o lugar, gasta R$ 2.000 por mês para alugar horários em uma quadra particular e não consegue manter nem metade das 100 atletas que tinha antes da pandemia.

Questionada, a secretaria afirmou que "está investindo também R$ 30 milhões na modernização do Complexo Baby Barioni [na Barra Funda], que vai contar com academia completa e aulas em diversas modalidades".

Há na pasta a expectativa de que o complexo seja concedido à iniciativa privada em breve e que uma empresa invista R$ 1 bilhão no local, por isso não faria sentido o investimento em obras e infraestrutura.

A concessão do Complexo do Ibirapuera é um desejo antigo das gestões tucanas em São Paulo, mas enfrenta forte resistência de atletas, ex-atletas, moradores e entidades culturais e vem sofrendo derrotas em diversos âmbitos.

Mortes: Despediu-se da vida fazendo o que mais amava, Patrícia Pasquini, FSP

 



SÃO PAULO

Assim como o roteirista de um filme, a vida compôs a cena da partida do desembargador Cláudio Antônio Soares Levada. Foi num cenário paradisíaco em Cananeia, perto da Ilha do Cardoso, no litoral sul paulista, praticando o que mais amava: a pesca.

Segundo o filho que o acompanhava na viagem, o juiz Filipe Antônio Marchi Levada, 38, Cláudio sofreu um mal súbito.

Pai e filho haviam estendido a parceria na vida e no barco de pesca para a produção de um artigo sobre o direito ao esquecimento.

Cláudio Antonio Soares Levada (1958-2021)
Cláudio Antonio Soares Levada (1958-2021) - Claudio Levada no Facebook

“Todo ser tem o poder da própria evolução. Em um tempo impermanente, nenhum ser existe como ser acabado. Todo ser é um vir a ser. O direito de ser compreende o de tornar-se. Direito ao futuro. Direito à paz. Direito de, no entardecer, lançar-se serenamente às águas sempre novas do rio”, afirma o texto, escrito há mais ou menos um ano.

Cláudio gostava de repetir aos quatro cantos, em inglês e português, que “a vida é muito curta para ser pequena”. A sua existência foi uma fonte de alegria e energia, pois ele contagiava os ambientes por onde passava. Sua grande paixão foi a família. Além de pescar, gostava do clube Paulista de Jundiaí, do qual era o presidente de honra.

Jundiaiense, formou-se em direito na USP, ingressou na magistratura em 1983 e foi nomeado juiz substituto para a 8ª circunscrição judiciária, com sede em Campinas (a 93 km de SP).

Segundo o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Claudio também passou pelas comarcas de Jundiaí, Jacupiranga, Jales e Barueri. Foi removido para o cargo de juiz substituto em 2º Grau, em 1997, e em 2005 tornou-se desembargador do TJ-SP. Atualmente, integrava o Órgão Especial do TJ-SP e coordenava a Faculdade de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta, de Jundiaí.

Em 2020, durante a pandemia, as críticas ao isolamento social e a decisão de autorizar uma academia particular de tênis e uma concessionária de veículos a funcionarem, contrariando a quarentena imposta pela gestão João Doria (PSDB), na época, projetaram seu nome para o país.

Cláudio morreu dia 5 de setembro, aos 63 anos. Deixa a esposa, seis filhos e cinco netos.