quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Madri fecha marco zero para carros e abre áreas a pedestres mesmo após troca de gestão, FSP

 

SÃO PAULO

A Puerta del Sol, no centro de Madri, é o marco zero para contar as distâncias das estradas da Espanha até a capital. Mas, desde 20 de agosto, carros e outros veículos não podem chegar até ali. O lugar passou a ser todo reservado para pedestres e ciclistas.

A medida faz parte de um programa de restrição a carros no centro da cidade, iniciado na gestão anterior, de Manuela Carmena (2015-2019), de esquerda, e que segue no governo de José Martinez-Almeida, de direita.

Estátua do urso, na praça Puerta del Sol, no centro de Madri - Javier Barbancho - 28.jul.20/Reuters

A mudança busca reduzir a poluição do ar, para que Madri possa atingir as metas estabelecidas pela União Europeia.

Apesar do nome, a Puerta del Sol é uma praça, sem vestígios do portal de entrada da cidade que um dia esteve ali, quando a capital era cercada por muros. A partir dela, descendo algumas ruas na direção do sol poente, chega-se ao palácio real.

Hoje há um chafariz, em volta do qual as pessoas sentam nos fins de tarde —que no verão têm luz do dia até 22h. Bandas e artistas de rua se apresentam e buscam atrair a atenção e as moedas de turistas.

A praça tem uma pequena estátua de um urso se apoiando em uma árvore, cena que é símbolo da cidade, e um enorme e antigo anúncio em neon no topo de um prédio, com uma garrafa de vinho sorrindo e usando chapéu. É de Tio Pepe, vinho que promete o “sol da Andaluzia engarrafado”.

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As estátuas da praça serão rearranjadas, como parte de uma reforma que deve começar em 2021 e durar um ano. Mais bancos serão incluídos, para tornar o local mais agradável. Ao todo, foram liberados cerca de 5.000 m² aos pedestres, equivalentes a meio campo de futebol.

No centro de Madri, há várias ruas abertas apenas a pedestres, em um bom exemplo de uso variado: lojas e restaurantes no térreo, com escritórios e moradias acima.

A região passou por várias reformas que foram reduzindo o espaço dos automóveis. Em 2017, sob Carmena, foi iniciada uma ampla reforma no centro. Na vizinha Gran Via, avenida mais famosa da cidade, pistas de carros deram lugar a calçadas e ciclovias mais largas.

No fim de 2018, entrou em vigor um veto a veículos mais antigos e poluentes em uma área de 5 km² do centro. O caminho é livre para automóveis elétricos ou híbridos (que poluem menos), para carros de moradores e em algumas outras situações, como para emergências.

"Este governo entende a sustentabilidade como um compromisso, não como uma carta de intenções", disse o prefeito Martínez-Almeida, ao anunciar a mudança.

Sinais que indicam restrições a carros na região da Puerta del Sol, no centro de Madri
O prefeito José Martinez-Almeida e membros do governo apresentam sinais que indicam restrições a carros na região da Puerta del Sol - Prefeitura de Madri/Divulgação

O Más Madrid, principal coligação de oposição, apoiou a alteração, mas a considera insuficiente e pede que mais partes da cidade recebam intervenções desse tipo.

Já um grupo de moradores da região fez críticas. "Vai aumentar o isolamento dos moradores e criar um entorno desenhado para o turista, e não para a vida diária", reclamou a Associação de Vizinhos de Las Cavas-La Latina, em uma rede social.

Segundo o jornal El Español, a área central concentra dois terços de toda a atividade turística de Madri e soma mais de 700 hotéis e locais de hospedagens. A região tem também vários bares e baladas, que geram movimento até de madrugada.

Uma das queixas dos moradores é que a retirada de linhas de ônibus da região dificulta a circulação de idosos. A região conta com várias estações de metrô, mas usá-las demanda caminhar por mais tempo.

Em um protesto, na segunda (24) um grupo de cerca de 20 idosos ficou parado em um ponto onde já não passa nenhum coletivo. Eles disseram que usavam a linha para tarefas de rotina, como ir a um centro de lazer.

A medida divide os comerciantes, segundo a mídia espanhola. Alguns avaliam que facilitar a circulação dos pedestres trará mais clientes. Outros temem que as melhorias vão gerar aumento nos aluguéis comerciais, o que poderia levar alguns a ter de se mudar.

Em meio à pandemia, várias cidades do mundo têm buscado retirar espaço dos carros para melhorar a circulação dos pedestres e abrir terreno para a colocação de mesas ao ar livre, permitindo a reabertura de restaurantes com mais segurança.

Já o fechamento das áreas centrais para carros é um debate que vem de longe.

Boa parte do que são hoje os centros metropolitanos foi estabelecida antes do automóvel. Nos anos 1970, as ruas estreitas já não davam conta de comportar a grande quantidade de carros e pedestres ao mesmo tempo. Começou então uma onda de fechar as vias aos veículos, que resolveu um problema mas gerou outros. Nessa época, lugares como São Paulo e Rio de Janeiro ganharam calçadões.

“O fechamento nos anos 1970 foi uma tentativa de ajudar o comércio de rua, em meio ao surgimento dos shopping centers”, conta Angélica Alvim, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie.

Isso ajudou a manter as ruas cheias de frequentadores durante o dia, mas muitas se tornaram desertas e perigosas à noite e nos fins de semana, especialmente por falta de moradores.

“A pedestrianização precisa ser feita como parte de uma ação integrada, que estimule a moradia e as atividades de lazer, para que haja pessoas circulando sempre e, com isso, haja sensação de segurança”, aponta Alvim.

“Nas cidades europeias, há uma tradição de se morar em áreas centrais. Isso não é tão comum nas metrópoles americanas. Em São Paulo, temos muitos prédios vazios, parte deles com ocupações, que poderiam ser adaptados para serem moradias de fato”, aponta Alvim.

Para Renato Cymbalista, professor de urbanismo da USP e da Uninove, a onda atual de abertura a pedestres tem relação com as novas tecnologias, pois elas reduzem a necessidade de ter carro próprio e de fazer deslocamentos diários.

“Posso andar dois quarteirões e chamar um carro por app só quando precisar, em vez de me preocupar em ter uma vaga de garagem. Isso dá um novo fôlego para as vias para pedestres”, avalia.

Cymbalista também ressalta a redescoberta das áreas urbanas como espaço de lazer, como no caso da avenida Paulista e da praça Roosevelt, em São Paulo, que atraíam grandes públicos interessados em curtir o fim de semana ao ar livre, antes da pandemia.

“Mais pessoas têm buscado morar perto de atividades que podem ir a pé, e em lugares bem-servidos de transporte público, que garantem acesso a muitas partes da cidade, de forma mais eficiente do que o automóvel”, compara.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O astrônomo que não encontrou Netuno, FSP

 

Jantar de aniversário de casamento ficou entre George Airy e o astro

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O matemático e astrônomo inglês Sir George Airy (1801- 1892) ocupa um lugar proeminente na história da astronomia, por razões boas e ruins.

Nascido em uma família humilde, aos 18 anos o talento para a matemática lhe abriu as portas do famoso Colégio Trinity, da Universidade de Cambridge. Mas, ao contrário de seus colegas mais endinheirados, Airy precisou trabalhar como servente da universidade para pagar seus estudos.

Uma de suas principais realizações científicas foi a determinação do raio polar e do raio equatorial do planeta Terra. Embora agora existam estimativas melhores, os resultados de Airy ainda são suficientemente bons para certas aplicações práticas.

Imagem da sonda Voyager 2 mostra Netuno
Imagem da sonda Voyager 2 mostra Netuno - AFP

Por mais de 30 anos, ele buscou calcular a densidade média do nosso planeta por meio de medições com pêndulos. Após várias tentativas fracassadas, em 1856 chegou ao valor de 6,6 gramas por centímetro cúbico, um pouco maior do que o valor atual, 5,5 gramas por centímetro cúbico.

A maior parte da reputação científica de Airy está baseada na sua atuação como Astrônomo Real e diretor do Observatório de Greenwich, funções que ocupou de 1835 até 1881.

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Quando assumiu o cargo, o observatório era uma instituição decadente. Ele reorganizou profundamente o seu funcionamento, transformando-o no principal centro mundial de pesquisa em astronomia. É devido a ele a criação, em 1851, do conceito de "meridiano de Greenwich", que serve até hoje como referência na definição da hora oficial (fuso horário) no mundo.

Mas a reputação de Airy acabaria afetada, injustamente, pela controvérsia em torno da descoberta de Netuno. As anomalias observadas pelos astrônomos no movimento de Urano tinham levantado a suspeita de que poderiam ser atribuídas à presença de um oitavo planeta, desconhecido até então. Em 1846, dois matemáticos, o inglês John Couch Adams e o francês Urbain LeVerrier, faziam cálculos complexos para encontrar a posição desse astro.

Segundo o relato usual, Adams teria solicitado que Airy verificasse os seus cálculos e esse não teria sido suficientemente diligente.

Sabemos agora que Adams só tratou do tema com Airy em duas ocasiões. Na primeira, os cálculos estavam incompletos e não havia nada a fazer. Na segunda, Adams apareceu sem avisar na hora do jantar (no dia do aniversário de casamento de Airy!) e o astrônomo exigiu que marcasse outra hora, o que ele nunca fez.

Muito ocupado com suas obrigações, Adams não voltou ao tema. Os cálculos de Leverrier foram confirmados primeiro pelo astrônomo alemão Johann Gottfired Galle, em 23 de setembro de 1846, fazendo com que a glória fosse para a rival França. As críticas, tanto de ingleses quanto de franceses, amarguraram os últimos anos da vida de Airy.

Marcelo Viana

Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France.

Morre o jornalista e documentarista Washington Novaes aos 86 anos, FSP

 Ana Carolina Amaral

SÃO PAULO

Referência no jornalismo ambiental no Brasil, o jornalista Washington Novaes morreu na noite da segunda-feira (24) em Aparecida de Goiânia (GO), em decorrência de uma infecção após uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Ele havia descoberto o tumor em março e estava internado desde a semana passada.

Nascido em Vargem Grande do Sul (SP) em 1934, Washington Novaes se formou em direito, mas atuou como jornalista por mais de 50 anos. Nunca parou de escrever artigos, publicados recentemente para os jornais O Estado de S. Paulo e O Popular, de Goiânia (GO), onde viveu nos últimos 30 anos.

O jornalista Washington Novaes, que morreu na noite de segunda-feira (24) - Reprodução /TV Anhanguera

Sua carreira foi marcada pela série de documentários "Xingu, a Terra Mágica", exibida na extinta TV Manchete em 1985. A série faz uma imersão no modo de vida de diversas etnias da região do Xingu, na Amazônia, e ganhou prêmios em festivais internacionais de cinema.

Novaes voltou à região em 2007 para filmar "Xingu, a Terra Ameaçada", que contou com um episódio sobre a liderança do cacique Raoni Metuktire, porta-voz global dos indígenas.

O jornalista foi editor-chefe do Globo Repórter (TV Globo), que sob seu comando levou a medalha de prata do festival de cinema de Nova York em 1982 pelo episódio “Amazonas, Pátria da Água”. Também foi editor do Jornal Nacional e comentarista do programa Globo Ecologia.

Ainda na televisão, Novaes foi comentarista e supervisor geral do Repórter Eco, na TV Cultura, e consultor de meio ambiente do canal.

Ele ainda passou pelas redações dos principais jornais do país, como O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Última Hora, Correio da Manhã, Veja e pela Folha, onde foi secretário de Redação.

Foi autor de diversos livros, entre eles "Xingu" (Brasiliense), "A Quem Pertence a Informação" (Vozes) , "A Terra Pede Água" (Sematec/BSB) e "A Década do Impasse" (Editora Estação Liberdade).

O jornalista Washington Novaes, que fez muitos trabalhos sobre os índios do Xingu - Reprodução /TV Anhanguera

Embora fosse um dos precursores do jornalismo ambiental, Novaes criticava o termo e preferia ser chamado apenas de jornalista.

“Chamá-lo de jornalista ambiental seria reduzi-lo a uma papel secundário. Foi um grande Jornalista, com inicial maiúscula, e uma grande referência para meu jornalismo”, diz o jornalista Dal Marcondes, fundador do site Envolverde e presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental.

Em uma breve passagem pelo governo, Novaes assumiu o cargo de secretário de meio ambiente do Distrito Federal entre 1991 e 1992. Ele dizia que deixou o posto assim que vislumbrou limites para sua atuação.

Retornou ao exercício do jornalismo e, no mesmo ano, ganhou o Prêmio Esso por uma série de artigos sobre a Eco-92, a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável ocorrida no Rio de Janeiro, publicados no Jornal do Brasil.

Ainda nos anos 1990, foi consultor do primeiro relatório brasileiro para a Convenção da Diversidade Biológica da ONU.

“Washington Novaes é o responsável por eu, hoje, dentro do jornalismo, ter esse engajamento, esse interesse profissional pelos assuntos ambientais”, contou o jornalista da TV Globo André Trigueiro em live nas redes sociais.

“Ele me deu um nó na cabeça ao participar no centro do Roda Viva respondendo a perguntas como jornalista. Sem prejuízo da isenção e da imparcialidade, ele se posicionava com muito destemor, mostrando o que não estava sendo objeto da devida atenção e cuidado”, conta Trigueiro. “Foi valente."

Entrevistado pelo programa Roda Viva (TV Cultura) no ano 2000, Washington Novaes foi questionado pelo então senador Blairo Maggi sobre se ele achava que todos deveríamos viver como índios. “Não, nós não teríamos competência para isso”, respondeu Novaes. “Mas nós poderíamos aprender com eles."

Novaes deixa os filhos Pedro, Marcelo, Guilherme e João, a mulher, Virgínia, e sete netos.