terça-feira, 27 de outubro de 2026

Final feliz?, Helio Schwartsman, FSP

 Ao conquistar seu quarto mandato, Lula foi abençoado ou amaldiçoado pelos deuses da política? A resposta não é óbvia, e não apenas porque o futuro é contingente.

Atribui-se a Sólon a máxima segundo a qual, diante das reviravoltas da vida, não podemos afirmar que uma pessoa foi feliz até que ela tenha morrido. Divirjo de Sólon. Imaginemos um indivíduo que tenha vivido 80 anos desfrutando de todos os prazeres carnais e intelectuais e em pleno êxtase moral, mas que, em seu último dia de existência, tenha sido torturado e depois degolado. Penso que, objetivamente, pelas métricas mais razoáveis, esse homem foi mais feliz do que infeliz. Falamos de 29.220 dias de bem-aventurança contra algumas horas de dor. Reconheço, porém, e aí convergindo com o sábio grego, que, para efeitos biográficos e de narrativa, finais fazem toda a diferença. E política é narrativa.

Homem de cabelos brancos e camisa azul levanta a mão direita acenando para uma grande multidão reunida ao ar livre durante a noite. A multidão ocupa todo o espaço visível, com muitas pessoas segurando celulares para registrar o momento. O cenário é iluminado por luzes artificiais e há árvores ao fundo.
Reeleito, o presidente Lula discursa na avenida Paulista - Ricardo Stuckert - 26.out.26/Divulgação Lula Oficial

A essa altura, com 81 anos e se preparando para uma nova administração, Lula não deve mais ter ambições relativas a cargos. O que de mais realista ele pode esperar é lustrar a própria biografia. O destino lhe sorriu ao evitar que encerrasse sua carreira perdendo para "o pior dos Bolsonaros". Teria sido um final ruim. Mas, se essa armadilha foi evitada, restam outras pela frente. Para ficar bem nos livros de história, Lula precisaria fazer um último mandato, se não excelente, pelo menos razoável. É aí que os deuses podem ter lhe pregado uma peça.

Lula assumirá seu último mandato em condições bem piores do que as de 2023. Ele não apenas pegará uma economia mais fragilizada, em larga medida devido a excessos fiscais que ele próprio cometeu, como ainda terá de lidar com um Legislativo bem mais bolsonarista. O Senado, em particular, virá com ímpetos revanchistas. Como a situação global tampouco ajuda, não dá para descartar a possibilidade de recessão em 2027, o que poderia deixar Lula num cenário semelhante ao de Dilma Rousseff. Não seria um fecho legal para ele.

Nos próximos quatro anos, a proverbial sorte de Lula será definitivamente testada.

Bomba-relógio da nova classe trabalhadora quase estourou nesta eleição - FSP

 

Rosana Pinheiro-Machado

Professora titular de estudos globais da University College Dublin, na Irlanda, onde dirige o laboratório Digital Economy and Extreme Politics

As novas classes aspiracionais são fundamentais para entender o cenário político brasileiro. Elas são a base ascendente da pirâmide. Qualquer mudança de um lado ou de outro impacta as urnas.

Argumentei em artigo na Ilustríssima que o Brasil ia às urnas dividido entre aqueles que viram sua vida melhorar com políticas públicas sustentáveis dos anos lulistas, e aqueles que se ressentem e projetaram seus sonhos em projetos políticos ultraindividualistas e alinhados à extrema direita.

Mão segura sinalizador que emite fumaça vermelha densa em primeiro plano. Ao fundo, grupo de pessoas com capacetes e coletes refletores, algumas com braços erguidos, em ambiente noturno e desfocado.
Entregadores de aplicativos participam de motociata em apoio à candidatura de Lula (PT), em São Paulo - Danilo Verpa - 21.out.26/Folhapress

Em uma das minhas últimas pesquisas sobre as aspirações de quem saiu da pobreza por meio de políticas sociais, encontrei uma nova geração que rejeita o extremismo. Em um dos maiores processos de mobilização social já vistos na história do país, essas pessoas lutaram pela democracia nas últimas semanas e levaram seus avós às urnas.

Elas entendem que as aspirações alcançadas são resultado de esforço individual e de políticas públicas combinadas ao longo de gerações. Veem o Estado como aliado nessa trajetória. Sabem que as melhorias vêm com o tempo e não são garantidas. Sem essa memória viva do que significa mobilidade social na prática, não haveria André Janones que pudesse resolver a eleição.

Mas eu ainda quero falar sobre a outra metade da base ascendente da pirâmide social. Aquela que tem aspirações legítimas de ascensão, mas percebe o Estado como ausente nesse projeto. A que votou em Flávio Bolsonaro (PL) ou simplesmente não foi votar por não estar mobilizada. Essas pessoas ainda estarão no centro das disputas ideológicas nos próximos anos.

A força da mobilização política venceu. Mas a transformação da classe trabalhadora continua a avançar rapidamente, com tecnologia alienante, desagregação social e fé na meritocracia vazia. O sonho da prosperidade pelo empreendedorismo e da autonomia também cresce.

Para esses segmentos, há um ecossistema digital gigantesco de coaches e influenciadores de extrema direita que vendem sonhos e valores políticos a esses novos empreendedores e trabalhadores plataformizados.

O Brasil mostrou uma força contra a extrema direita que deve ser copiada em todo o mundo, mas isso não anula o fato de que a subjetividade antidemocrática —com tendências libertárias, conservadoras e autoritárias— continua conquistando corações e mentes, ganhando espaço entre as classes trabalhadoras, ainda que silenciosamente.

Esses grupos continuam representando milhões de pessoas insatisfeitas com o governo, vendo o Estado como inimigo e abraçando narrativas autoritárias e populistas que atendem à sua raiva e aos seus sonhos de ascensão por suposto mérito próprio.

A vitória do fim da escala 6x1 foi uma das maiores conquistas da sociedade brasileira das últimas décadas. Transforma a vida de trabalhadores formais, dá dignidade e liberdade a milhões de trabalhadores. É preciso, agora, que o governo expanda seu olhar para os informais, os autônomos e os aspirantes a empreendedores.

A alternativa mais eficaz, no médio e no longo prazos, é gerar empregos bem-remunerados e gratificantes. Mas há uma multidão autônoma que quer permanecer autônoma. O perdão de dívidas e a ampliação da cobertura de MEIs (microempreendedores individuais), por exemplo, são políticas importantes e merecem ser comunicadas da forma devida.

É preciso também oferecer capacitação empreendedora, por meio de plataformas digitais governamentais, que alcance milhões de pessoas gratuitamente e transmita valores coletivos e democráticos —ao contrário do que recebem milhões de aspirantes a empreendedores, que hoje estão completamente à mercê de influenciadores alinhados à extrema direita, que cobram por cursos que prometem muito e entregam pouco.

Mas, principalmente, diferentes ministérios devem trabalhar juntos, promovendo maior diálogo entre as pastas, para criar sistemas integrados de interesses comuns que atenuem a desproteção dessa nova classe trabalhadora.

É preciso mostrar, de forma mais enfática, a esse novo trabalhador que há um governo atento às suas aspirações e que produz políticas públicas concretas, para além do discurso de raiva e das falsas promessas que coaches de internet tentam vender —e que foram reproduzidas na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro nos debates.

A partir de minhas conversas com diversos segmentos do governo, seria injusto dizer que o governo não tem se preocupado com a transformação da classe trabalhadora, bem como com suas aspirações, sonhos e frustrações.

O PT voltou ao poder após um golpe, uma prisão injusta e um governo bolsonarista, após uma pandemia que devastou o país. Nesse meio-tempo, o Brasil se uberizou, e isso teve efeitos políticos sobre as maiorias. O PT retornou ao poder tentando olhar para esses segmentos e recuperar o tempo perdido. Mas é preciso urgência.

Para uma democracia mais estável, o governo deve priorizar esses segmentos nos próximos quatro anos, para que haja não apenas uma eleição menos sufocante, mas também uma sociedade menos dividida ideologicamente. É preciso atenuar a sanha individualista por meio de mudanças concretas.

Os efeitos da plataformização do trabalho são uma bomba-relógio política que não estourou nessas eleições, mas ensaiou estourar e está sempre prestes a explodir. É preciso, agora, olhar para os trabalhadores informais e autônomos como prioridade e mostrar que o Partido dos Trabalhadores é de todos os trabalhadores. Nos ensinaram os que tomaram as ruas e as redes que a proteção do Estado é o maior antídoto contra a extrema direita.