Leio na imprensa que os Emirados Árabes Unidos pretendem limitar o número de jovens apoiados pelo Estado que desejam estudar no Reino Unido. Quais as razões?
A Irmandade Muçulmana, grupo radical sunita que advoga a islamização da sociedade e do Estado. Os Emirados temem que, chegados a Londres, os estudantes sejam radicalizados pelos "irmãos". Melhor estudar em outras latitudes —ou, então, ficar em casa.
Confesso que ri ao ler a notícia. Pode haver exagero aqui, "ma non troppo". Qualquer pessoa que acompanhe a vida acadêmica —e cultural— nesta parte do mundo não pode deixar de notar a simpatia que uma parcela da "intelligentsia" radical nutre pelo islamismo político.
À primeira vista, é uma simpatia estranha. Se existe uma encarnação perfeita do reacionarismo em política, ela está nas teocracias do Oriente Médio ou nos movimentos integristas islâmicos, negações absolutas da cartilha emancipatória das esquerdas revolucionárias.
Mas quando raspamos a superfície, encontramos os pontos de concórdia. Dois, para ser preciso —o anti-imperialismo e o culto da alteridade radical.
O anti-imperialismo é anterior às aventuras militares de Donald Trump na América Latina. Funciona segundo a máxima —o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Se o radicalismo islâmico elege o grande Satã (os Estados Unidos) e o pequeno Satã (Israel) como alvos prioritários, isso cria uma cumplicidade programática que seria desperdício não explorar.
O proletariado, por sua vez, só trouxe decepções. Ele, o suposto agente revolucionário da história, sucumbiu às ilusões burguesas e abandonou a luta de classes. É preciso buscar fora do Ocidente esse anjo vingador, puro, intocado pelas sereias liberais. E disposto a pegar em armas.
Nesse mundo às avessas, a burca deixa de ser um símbolo de submissão feminina para virar emblema de resistência cultural. A sharia já não aparece como negação do laicismo, mas como expressão autêntica de antiocidentalismo.
Foi com essa "forma mentis" que os herdeiros do Maio de 68 celebraram a Revolução Iraniana de 1979. É fato que o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi não se recomendava. Por isso mesmo, a revolução reuniu uma coligação ampla e heterogênea —clero, comunistas, liberais— contra a ditadura.
As ilusões, porém, duraram pouco. Em quatro anos, a teocracia prendeu, torturou ou executou as forças progressistas que haviam ajudado a levá-la ao poder. O amor da esquerda radical pelos aiatolás não era correspondido.
Essas lições devem ser relembradas agora que os iranianos, com coragem inaudita, voltam às ruas para exigir o fim da tirania. A mídia ocidental, sempre rápida na cobertura do Oriente Médio, desta vez demorou a despertar. E, quando despertou, arrastou os pés, como uma criança emburrada que se recusa a ir para a escola.
Pobres crianças! Por mais simpáticos que pareçam os aiatolás, eles nem hesitariam em aplicar a prisão ou a forca aos seus admiradores ocasionais.

