quinta-feira, 30 de abril de 2026

França apresenta 'mapa do caminho' para abandonar combustíveis fósseis, FSP

 Enquanto todos os olhos estavam voltados para os anfitriões colombianos, quem roubou a cena durante a conferência de Santa Marta para discutir o abandono dos combustíveis fósseis foram os franceses.

Na última terça-feira (28), o país apresentou um plano para eliminar progressivamente os combustíveis fósseis —o primeiro "mapa do caminho" nacional detalhado, segundo especialistas.

Embora não apresente novos compromissos, o plano reúne as políticas e objetivos climáticos já existentes sob um mesmo guarda-chuva. O carvão será eliminado progressivamente até 2030, o petróleo até 2045 e o gás até 2050.

Sol se põe no horizonte com céu em tons intensos de vermelho e laranja. Silhueta escura de navio cargueiro com guindastes visível em primeiro plano.
Navio-tanque ancorado próximo ao centro petrolífero do porto de Fos-Lavera, perto de Marselha, sul da França; país quer abrir mão do petróleo até 2045 - Manon Cruz - 14.abr.26/Reuters

Analistas apontaram que nenhum outro país havia publicado um plano tão exaustivo e que isso envia um sinal importante em um momento no qual governos estão reavaliando sua dependência dos combustíveis fósseis devido à guerra no Irã.

"É o primeiro desse tipo", disse à AFP Leo Roberts, do think tank E3G, focado na transição energética. O objetivo final do plano é alcançar a neutralidade de carbono na metade deste século —ou seja, em 24 anos.

"[O mapa do caminho] é bastante original, porque provavelmente somos um dos poucos países que tem um prazo claro para todas as energias fósseis", disse o enviado da França à conferência de Santa Marta, Benoit Faraco.

Apesar disso, a redução das emissões de gases do efeito estufa desacelerou na França pelo segundo ano consecutivo em 2025. Os índices do país seguem muito abaixo do necessário para o cumprimento de suas metas climáticas.

Faraco disse que a França decidiu seguir adiante por conta própria depois que uma proposta para um "mapa do caminho" global sobre os combustíveis fósseis foi bloqueada na cúpula climática COP30, realizada em Belém, em novembro do ano passado.

Em seu lugar, o Brasil, que presidia as negociações, aceitou lançar um processo voluntário para este fim e pediu aos países interessados que apresentassem suas propostas.

Contudo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não cumpriu sua meta de apresentar o seu próprio plano nacional em fevereiro.

Aliados defendem Messias na Justiça e demissão de ministro de Jaques Wagner por traição, FSP

 Mônica Bergamo

Aliados de Lula e de Jorge Messias no PT e no governo defendem que o presidente demita o atual ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, e coloque o advogado-geral da União em seu lugar.

Indicado para o cargo em novembro, Messias terminou derrotado na noite de quarta (29) com 42 votos contrários e 34 a favor.

O grupo que defende a mudança na Justiça afirma que o ministro Lima e Silva não moveu uma palha para ajudar a aprovar Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal), e que seu padrinho político, Jaques Wagner, líder do governo no Senado, induziu Lula ao erro ao dizer que pelo menos 45 senadores aprovariam o nome que ele havia indicado para a Corte.

Homem de terno escuro e gravata azul está em foco, cercado por outras pessoas em ambiente interno, possivelmente evento formal ou reunião.
O AGU (Advogado Geral da União), Jorge Messias, fala no senado federal após a reprovação de seu nome para o cargo de ministro do STF no plenário do Senado - Pedro Ladeira/Folhapress

Isso teria dado tranquilidade ao presidente, fazendo com que os apoiadores mais entusiasmados de Messias se desmobilizassem justamente no dia da votação.

De acordo com um dos aliados que defende Messias na Justiça, Jaques Wagner teria feito "corpo mole" porque tem outro candidato ao STF: o próprio Lima e Silva.

Vídeos com a cena de Alcolumbre soprando a Wagner que Messias seria derrotado por oito votos de diferença, e outros que mostram o presidente do Senado e o líder do governo se abraçando logo depois da derrota do indicado de Lula passaram a circular em grupos petistas ainda na noite de quarta, e incendiaram os debates sobre uma suposta traição a Lula (ver vídeo acima).

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Procurado pela coluna, Jaques Wagner não respondeu às mensagens enviadas a ele por WhatsApp.

A derrota de Lula e de Messias foi o resultado de uma queda de braço entre o Congresso e o Palácio do Planalto, somada a um longo processo de desgaste da cúpula do Judiciário e de um fortalecimento da direita no cenário que antecede as eleições deste ano.

Foi a primeira vez que o Senado rejeitou a indicação de um presidente da República para o STF desde 1894, quando cinco nomes escolhidos por Floriano Peixoto para o tribunal foram barrados.

A apresentadora Andrea Sadi, da GloboNews, havia antecipado que "após a derrota, no entorno de Lula há quem defenda que Messias não volte para o cargo de advogado-geral da União, mas sim assuma o Ministério da Justiça, que comanda a Polícia Federal".

Voto secreto ajudou a crucificar Messias, Hélio Schwartsman, FSP

 Enquanto ainda tentamos entender se a rejeição do nome de Jorge Messias pelos senadores foi mais uma espetada no governo Lula ou um recado para o STF, proponho discutir um outro aspecto da questão que está passando meio batido: o voto secreto.

Não tenho como assegurar que, se votações para a aprovação de ministros do Supremo fossem nominais e abertas, o desfecho teria sido outro, mas suspeito que sim. Entre os 42 senadores que disseram não a Messias, deve haver pelo menos alguns com sólidos interesses no Executivo ou turvas pendências com o Judiciário que teriam agido de outra forma se tivessem de se manifestar sem a proteção do anonimato. A blindagem contra pressões políticas e retaliações é, aliás, a razão alegada para que a Câmara e o Senado mantenham algumas votações sigilosas. Mas será que elas se justificam?

Homem de terno preto e camisa branca segura lenço no rosto, cobrindo nariz e olhos, sentado diante de microfone em ambiente interno.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, chora durante sabatina na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado Federal - Gabriela Biló - 29.abr.26/Folhapress

A votação secreta confere aos parlamentares uma espécie de invisibilidade. É impossível aqui não recordar do mito grego do anel de Giges. Numa das versões, Giges era um pastor da Lídia que um dia encontrou um anel mágico que o tornava invisível. Assim, foi ao palácio real, seduziu a rainha, matou o rei e se apoderou do trono. Para Platão, o anel significa a capacidade de cometer injustiças com a certeza de não ser punido. É um tema que enseja fascinantes reflexões éticas, psicológicas e filosóficas. Sugiro vivamente o livro "O Anel de Giges", de meu amigo Eduardo Giannetti, que esgota e amplia o assunto.

Voltando ao Senado, até entendo a ideia de promover o segredo para tentar reforçar a independência de congressistas. Entendo, mas não compactuo. Creio que o sigilo no Parlamento perverte a ideia central da democracia representativa. Se não sei como meu parlamentar vota, não tenho como decidir se ele está me representando bem. Antes de deverem satisfações a suas consciências, deputados e senadores as devem ao eleitor.

No mais, se o político não tem a coragem de contrapor-se ao presidente ou de dizer o que pensa sobre um juiz, deveria procurar outra profissão.