segunda-feira, 30 de março de 2026

Bets em mortes já superam US$ 1 bilhão, Ronaldo Lemos, FSp

 

No dia 7 de janeiro deste ano a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, encerrou abruptamente uma conferência com jornalistas exatamente aos 64 minutos e 40 segundos. Tudo poderia passar despercebido se não houvesse uma aposta online de que a conferência de imprensa duraria menos do que 65 minutos. No momento da interrupção, a probabilidade de ultrapassar os 65 minutos era de 98%.

Como não aconteceu, quem apostou pelo "não" ganhou 50 vezes o que tinha colocado.

O episódio viralizou, com acusações de que a secretária agiu de propósito. Senadores começaram a debater se agentes públicos não estariam enriquecendo a si e a seus conhecidos por meio dos mercados de apostas.

Tudo isso é fichinha perto do que começou a acontecer a seguir. Com a escalada de operações militares que culminaram na guerra do Irã, as principais apostas deixaram de ser conferências de imprensa. Passaram a ser operações militares, incluindo a morte de lideranças políticas. Os apostadores já movimentaram mais de US$ 1 bilhão.

Mulher loira fala em púlpito da Casa Branca com bandeira dos EUA ao fundo e logo oficial visível.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt - Li Yuanqing/Xinhua

Só o mercado relacionado à "saída do poder" de Ali Khamenei movimentou US$ 194 milhões, com alguns apostadores faturando no Polymarket mais de US$ 500 mil sozinhos com a morte do líder do Irã.

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Já a Kalshi voltou atrás e cancelou todas as apostas relacionadas à morte de Khamenei, devolvendo o dinheiro aos apostadores. O que aumentou a indignação, considerando que a empresa havia promovido intensamente os mercados relacionados a Khamenei em redes sociais nos dias anteriores.

Além do flagrante problema moral de se apostar em morte e em conflitos geopolíticos, há o problema dos incentivos econômicos para a realização de operações militares. Por exemplo, um apostador já acumulou mais de 1 milhão de dólares "prevendo" dezenas de operações militares com taxa de acerto próxima a 100%. Seu padrão é sempre o mesmo: apostar algumas poucas horas antes da operação ser realizada, o que incluiu "acertar" o ataque surpresa conjunto dos EUA e Israel ao Irã em fevereiro de 2026.

O cúmulo dos mercados da morte são as apostas em ataques nucleares e detonação nuclear feitas no início de março. A Polymarket, que é conhecida por não interferir no conteúdo das apostas na plataforma, decidiu não só revogar como arquivar totalmente os mercados "nucleares".

E claro, tudo isso desperta indignação e preocupação com o vazamento de segredos institucionais e militares. Um militar israelense já foi indiciado por apostar em operações secretas. E há diversos projetos de lei nos EUA para regular ou proibir mercados preditivos. Mas nenhum parece avançar. Aparentemente, os interesses no enriquecimento com apostas já estão entrincheirados.

A bola da vez agora é Cuba. Já são mais de 934 milhões de dólares apostados sobre o país. Por exemplo, a chance de ataque dos EUA já está em 35% até dezembro de 2026. E a chance do presidente Miguel Diaz-Canel "deixar" o poder até dezembro é de 64%. Tudo isso mostra o avanço da "betificação" do mundo. As bets não são só uma atividade econômica. São uma condição existencial, que vai colonizando várias dimensões da vida humana.

Já era – ser proibido apostar

Já é – apostar no tigrinho

Já vem – apostar em conflitos, guerras e mortes

sexta-feira, 27 de março de 2026

Demétrio Magnoli - Jornalismo em ano eleitoral FSP

 Se todos mentem o tempo inteiro, a consequência não é que as pessoas param de acreditar em mentiras, mas que param de acreditar em qualquer coisa. A ideia, formulada por Hannah Arendt, mais atual do que nunca nessa era das redes sociais, só acentua a relevância da imprensa. O jornalismo tem o dever de preservar um espaço de verdade na vida pública.

A verdade nem sempre é óbvia. Há que selecionar, na incomensurável pilha de fatos, aqueles capazes de contar uma história verdadeira. Inexiste a possibilidade de fugir à interpretação, que envolve subjetividade. O jornalista percorre caminhos riscados por ciladas. Mais ainda em ano eleitoral, quando o desenlace parece, aos olhos de milhões, assumir proporções épicas. Aí, o perigo maior não mora nos canalhas, que mentem a soldo, mas nos virtuosos tocados pela varinha do orgulho.

Eleitora ao votar em escola na região central de São Paulo - Rivaldo Gomes - 29.nov.20/Folhapress

John Burns, do New York Times, duas vezes agraciado com o Pulitzer, foi ao ponto: "No nosso tempo, tornou-se comum para jovens repórteres expor como seu código moral a vontade de produzir um mundo melhor. É algo belo, mas que pode nutrir um complexo missionário –até uma arrogância– capaz de estimular uma cegueira para fatos inconvenientes, em favor dos outros".

O veículo de imprensa ou jornalista que se proclama perfeitamente objetivo engaja-se no autoengano –ou, mais provavelmente, na tentativa de enganar os demais. Mas é obrigatória a busca incessante pela objetividade possível, ideal fundador do jornalismo. O jornalista que arranja os fatos com a intenção de gerar um efeito político (o "mundo melhor") trai inadvertidamente esse ideal. Pior: contribui com os fabricantes profissionais de mentiras que almejam disseminar a descrença no ecossistema da informação.

O primeiro antídoto contra a tentação missionária está no Projeto Folha: o ceticismo diante das lideranças políticas, sem exceção. Extirpar a crença em líderes redentores. Desconfiar das certezas ideológicas. Confrontar os discursos com as práticas. Prestar atenção em fatos que complicam as narrativas fáceis.

O segundo antídoto é internalizar o princípio básico dos sistemas democráticos: o conceito de pluralismo, que repousa na celebração da diversidade de ideias. A atitude exige convicção, pois contradiz a inclinação humana a buscar a confirmação de nosso modo de pensar. O meu "mundo melhor" não necessariamente coincide com o "mundo melhor" do meu vizinho.

Num passado recente, os derrotados em disputas eleitorais cumpriam o ritual de congratular o vencedor. Bem mais que um protocolo vazio, o gesto exprimia reconhecimento da legitimidade do governante eleito e, sobretudo, respeito à vontade da maioria que o havia sufragado. A implosão do protocolo, como efeito da polarização, ensina à sociedade uma lição antidemocrática: os eleitores situados no lado oposto tornam-se traidores, "inimigos do povo" ou "inimigos da pátria".

jornalismo tem o dever de ensinar a lição democrática. Sem jamais abandonar o escrutínio dos candidatos e a condenação absoluta a tentativas de violar as regras do jogo, precisa respeitar as distintas verdades de todos os cidadãos. Candidatos deslizam, às vezes, para o terreno da ilegitimidade; o eleitorado, nunca. No fim, trata-se de admitir que o eleitor detém a prerrogativa de errar por último na tentativa de parir "um mundo melhor".


Bradesco reativa prédio na avenida Ipiranga e abre espaço para retrofit em SP - FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

A última boa nova veio do Bradesco, que anunciou a reativação de seu prédio na avenida Ipiranga no centro de São Paulo, fechado desde a pandemia. A construção passa por um retrofit, uma completa requalificação.

Pronta, vai receber 2.500 funcionários e dividir seus escritórios com comércio e serviços. Dezenove andares serão usados pelo banco e os cinco andares inferiores serão ocupados por restaurantes, lojas e galerias, oferecendo uma fachada ativa.

O projeto do Nova Central, construído em 1964, é de autoria do arquiteto Carlos Lemos. O edifício tem 33 mil m2 e, para revitalizá-lo e adaptá-lo, o Bradesco vai gastar R$ 200 milhões. Lemos foi parceiro de Oscar Niemeyer na construção do vizinho Copan, que também está sendo requalificado.

Edifício Nova Central
O edifício Nova Central, que pertence ao Bradesco, está sendo requalificado e terá uso misto - Vicente Vilardaga

Diante da grande quantidade de prédios desocupados ou maltratados que existem na cidade, o Bradesco dá um bom exemplo. O retrofit poderia ser adotado em maior escala para conter, pelo menos em parte, a onda de demolições e de construções de edifícios novos.

Mas isso teria de ser algo prioritário e mais urgente. O potencial de econômico da requalificação de prédios existentes ainda é subestimado pelas incorporadoras e construtoras.

O que não faltam em São Paulo são imóveis para serem renovados. Um levantamento recém-realizado pela Lello Condomínios identificou 836 condomínios no centro expandido da capital com condições técnicas e jurídicas para receber projetos de retrofit.

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Já a Caixa Econômica Federal, que pretende ampliar financiamentos para essa modalidade, mapeou 7.000 construções em toda cidade com potencial para serem modernizadas e melhoradas.

Edifício Basílio
Obras do edifício Basílio, outrora sede da Telesp, estão próximas da conclusão, prevista para julho - Vicente Vilardaga

"As construtoras estão se interessando, mas isso não é rápido, envolve uma mudança de mentalidade e de comportamento", diz a arquiteta e urbanista Adriana Levisky, sócia do escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana, responsável pelo projeto do Bradesco.

"Isso não vai acontecer porque uma lei é aprovada ou porque alguém decide que no dia seguinte será diferente, mas por causa de uma lenta transformação cultural. A grande estrutura do mercado imobiliário ainda não abraçou o retrofit", afirma.

O que se espera é uma mudança da lógica desse mercado. Como o Brasil é um país continental que sempre teve terra à disposição, a legislação urbanística do passado e do presente foi escrita para produzir obras novas em lotes particulares, conta Levisky.

Segundo ela, não é uma legislação que compreende a preexistência das construções disponíveis e busca mantê-las de pé, mas é direcionada para o desmonte. "O retrofit vem trazer para a gente uma oportunidade de revisitar técnicas construtivas, mudar dinâmicas empresariais e compreender novas tecnologias", afirma.

Blocos do edifício Prestes Maia
Os dois blocos do edifício Prestes Maia, que já foi uma ocupação e hoje serve à habitação social - Vicente Vilardaga

A Prefeitura de São Paulo criou dois programas para estimular o retrofit: o Requalifica Centro e o Programa de Intervenção Urbana Setor Central. O primeiro já tem 26 projetos aprovados pela Secretaria de Urbanismo e Licenciamento e 38 sob análise. Há 47 prédios, contando os 26 aprovados, que estão incluídos em alguma etapa de requalificação e credenciados a receber cotas da subvenção econômica de R$ 1 bilhão para a reabilitação de edifícios.

O segundo programa vai na mesma direção, mas é geograficamente mais abrangente e também cria estímulos para construções novas. Ambos facilitam o licenciamento e oferecem incentivos fiscais. Uma regra em São Paulo estabelece que, para ser requalificado, um prédio precisa ter sido construído antes de 1992. Depois disso, a intervenção é considerada apenas uma reforma.

Além do projeto do Bradesco no Nova Central, há outras iniciativas de retrofit de destaque, como a do edifício Basílio, outrora sede da Telesp, a do edifício das Américas, na rua Riachuelo, a do edifício Chrysler, na praça da República, e a do edifício Prestes Maia, destinado à habitação social.

O caso do banco, porém, tem uma grande importância simbólica por reforçar a percepção positiva da retomada do Centro e indicar que a região pode voltar a ser o grande polo financeiro da cidade.