Em um dos momentos mais tocantes da encíclica que o papa Leão 14 lançou sobre inteligência artificial, ele cita Gandalf, o mago de "O Senhor dos Anéis": "Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos, para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar".
A fala do mago acontece em um momento de desespero na narrativa. A Batalha dos Campos do Pelennor acabou de acontecer. Sauron, servo do mal absoluto, conta com exércitos imensos e a constatação é de que é impossível vencê-lo em batalha aberta. A única esperança são os dois pequenos hobbits, Frodo e Sam, que Sauron não leva a sério. Só que ninguém tem notícias de Frodo, nem sabe onde ele está.
Ao evocar Tolkien (que era profundamente católico e contribuiu para a conversão de C.S. Lewis ao cristianismo), o papa faz um alerta contra o derrotismo em face de forças avassaladoras, como a inteligência artificial. Nas suas próprias palavras ele diz que não devemos "pensar que os problemas são demasiado grandes e nós demasiado pequenos; e que nossas escolhas nada alteram". Ele chama isso de "uma forma elegante de rendição, disfarçada de realismo". E conclama cada um a atuar no seu "próprio âmbito de ação".
A encíclica Magnifica Humanitas é de uma importância que só será entendida com o passar dos anos. O que chamamos de "inteligência artificial" é uma força radical de imanência. Por isso, se contrapõe diretamente às religiões (e à nossa busca inata por transcendência, que faz parte da condição humana).
Nos últimos anos, as ideologias da inteligência artificial têm buscado simular conceitos religiosos e teológicos. Por exemplo, a pregação sobre uma "escatologia" secularizada, substituindo o arco religioso transcendente pela ideia de "singularidade". Ou ainda, uma "soteriologia" tecnológica, isto é, a doutrina de salvação por meio da chamada AGI (Inteligência Artificial Geral), que nas palavras de lideranças do setor, poderia "curar todas as doenças", eliminar a pobreza e derrotar a morte.
A ideia de "vida eterna" aparece também em fantasias como "mind uploading", achar que vai ser possível transferir a mente humana para a máquina e nela viver para sempre. Há até uma "demonologia" tecnológica em formação.
No interessante livro da antropóloga Beth Singler chamado "Religião e Inteligência Artificial", ela aponta que a IA e suas ideologias querem exercer as funções clássicas da religião: criar uma cosmologia, servir de parâmetro para julgamentos éticos e morais (e até jurídicos!), prover sentido, e, simultaneamente, esperança e medo escatológicos.
Por essa razão, não é só o catolicismo que precisa se posicionar sobre a IA, mas todas as designações religiosas: os budistas, as cosmologias dos povos tradicionais, os espíritas, os evangélicos, os hindus, os judeus, os muçulmanos, os protestantes, as religiões afro-brasileiras e assim por diante. Em face à imensidão da IA, surge a oportunidade de um grande diálogo ecumênico entre todos os "campos que conhecemos, para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar".
Já era – achar que a teologia é um conhecimento de nicho
Já é – apropriação da teologia pelas ideologias da IA
Já vem – oportunidade de um diálogo ecumênico em face da IA

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