Pois um certo originário da então pouco notável ilha de Sérifos (Arquipélago das Ciclades, no mar Egeu) ousou dizer então que ele só era Temístocles porque tinha nascido em Atenas. E Temístocles: “Dizes a verdade. Nem eu seria famoso se fosse de Sérifos, nem tu, se fosses de Atenas”.
Greenspan morreu aos 100 anos na madrugada desta segunda-feira. Não foi famoso apenas porque pilotou o Fed, o banco central dos Estados Unidos, mas também porque foi o competente Greenspan nas circunstâncias pelas quais passou então o Fed.

Não se pode entender nem o Fed nem Greenspan sem avaliar o impacto e as consequências da decisão do presidente Nixon em 1971, de desatrelar o dólar do ouro.
O acordo de Bretton Woods (1946) havia definido que o governo dos Estados Unidos entregaria uma onça troy de ouro (31,1 gramas) para cada US$ 35 dólares que lhe fossem apresentados. Como o governo dos EUA gastou dólares demais na Guerra do Vietnã, o presidente da França, então Charles de Gaulle, assessorado pelo economista Jacques Rueff, passou a trocar compulsivamente dólares por ouro. Como as reservas de ouro dos Estados Unidos corriam o risco de se esgotar, Nixon acabou unilateralmente com a conversibilidade do dólar ao ouro. Assim, a moeda dos Estados Unidos passou a oscilar em relação ao ouro e às outras moedas, de acordo com a lei da oferta e da procura. (Hoje, o ouro é negociado por mais de US$ 4 mil por onça troy, mas, no auge da guerra do Irã, chegou a ultrapassar os US$ 5 mil).
Enquanto se manteve o padrão ouro, o dólar não precisava de xerife para protegê-lo. O dólar era ouro, e ouro não precisa de defesa contra a corrosão inflacionária. Foi a partir daí que o Fed teve de atuar não mais para entregar ouro por dólar (e vice-versa), mas para garantir o poder de compra do dólar por meio da política monetária (política de juros), função que passou a exigir grande credibilidade.
O primeiro presidente do Fed a assumir a nova tarefa foi o economista Paul Volcker, gigante não só pela sua estatura (2,03 m), mas pelo que fez. A inflação dos Estados Unidos disparara em consequência dos dois choques do petróleo dos anos 70, e Volcker, contra tudo e contra todos, não vacilou em catapultar os juros à altura nunca vista dos 20% ao ano. Provocou forte recessão, mas derrubou a inflação e construiu a credibilidade do Fed.
Greenspan, que veio em seguida, herdou a reputação e a reforçou com sua atuação. Ficou no cargo nada menos que 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República.
Ele cometeu lá os seus erros, mas foi instrumento chave na conquista da autonomia do Fed. Foi um Temístocles na batalha contra a influência dos políticos, que adoram gastar e não gostam de juros altos.
Amanhã tem mais.
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