Roberto Campos Neto
A Revolução Industrial foi movida a carvão. O século 20 rodou a petróleo. O recurso definidor do século 21 é algo muito menos visível: o token, a menor unidade de linguagem consumida cada vez que um modelo de inteligência artificial pensa, escreve ou decide. Estamos entrando em uma nova era, e suas restrições são surpreendentemente antigas: energia, minerais e geografia.
Em minha última coluna abordei os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho e o potencial de ganhos de eficiência para o setor público. A evidência não é especulativa: a IA tem sido um dos motores da economia, e as empresas estão incorporando crescentemente a tecnologia em seus processos.
A proporção de empresas que usam IA saltou de 20% em 2017 para 88% em 2025, de acordo com a McKinsey. A adoção de IA não está no horizonte; ela já remodela a economia global em alta velocidade.
Nos últimos meses, observamos uma grande transformação. O que chamamos de text coding —a capacidade de produzir programas e projetos por meio de linguagem simples— democratizou a programação. Pessoas sem formação técnica profunda agora entregam projetos com eficiência próxima à de desenvolvedores experientes.
As empresas correm para se tornar AI First: organizações verdadeiramente lideradas pela inteligência artificial. O que começou como automatização de fluxos de trabalho evolui rapidamente para um novo patamar: a IA como geradora de ideias, não apenas executora de tarefas. Quem acompanha esse movimento de perto já vê isso claramente no dia a dia.
Uma mudança cultural revela a profundidade dessa transformação. Em Palo Alto, quando se contrata alguém, a negociação não gira mais apenas em torno do bônus ou do pacote de benefícios. O candidato pergunta quantos tokens poderá gastar. A produtividade passou a depender diretamente do volume de tokens disponíveis.
O token tornou-se a nova unidade monetária da inteligência, o equivalente ao barril de petróleo do século passado. As entidades capazes de produzi-lo de forma barata e em escala dominarão o comércio global, a ciência, a defesa e a economia. Empresas e países que não compreenderem essa lógica a tempo pagarão o preço da dependência.
Diante desse avanço e do consumo explosivo de tokens, há duas grandes barreiras que definirão o futuro: energia e poder computacional. O consumo global de eletricidade por data centers chegou a 415 TWh em 2024. A IEA (Agência Internacional de Energia) projeta que alcançará 945 TWh em 2030.
Nos Estados Unidos, data centers de IA podem demandar 123 gigawatts de capacidade até 2035, cerca de 30 vezes mais do que em 2024. As cinco maiores empresas de tecnologia destinaram mais de US$ 400 bilhões em investimentos de capital em 2025, alta de 72% em um ano, com previsão de crescimento adicional expressivo em 2026.
Jensen Huang, da Nvidia, foi categórico: "A receita de IA é limitada pela energia". O gargalo não é mais o código. São os quilowatts.
Além da energia, os minerais completam o binômio por trás dessa corrida. Para produzir semicondutores — o substrato físico da IA — são necessários elementos de terras raras. A China controla hoje cerca de 60% da mineração mundial e 90% da capacidade global de refino.
Em outubro de 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre minerais críticos, provocando aumento de preços na Europa e cortes de produção. A revolução da IA colidiu com um ponto de estrangulamento geopolítico de fornecedor único. A resposta foi imediata: os EUA formaram uma coalizão de nações para garantir cadeias de suprimento de minerais críticos. A corrida por recursos que definiu os impérios coloniais retornou, desta vez impulsionada pelo silício, não pelo vapor. O petróleo continua importante, mas saímos do debate exclusivo sobre ele para tratar de energia e minerais como um todo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário